Geral

Briga entre irmãos

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Disputa em família

Disputa em família

Texto: Gustavo Cândido

Pequenas brigas entre irmãos, principalmente durante a infância não são nenhuma novidade nem são motivo de espanto, pois são consideradas normais no desenvolvimento das crianças. Mas e quando elas crescem e mesmo assim continuam a discutir, criando uma rivalidade ferrenha em todos os aspectos? Ai a coisa pode sair do controle e os irmãos podem deixar de ser companheiros para ser até inimigos. De Cain e Abel até hoje as desavenças entre irmãos continuam. O problema deve ser resolvido cedo, em família, antes que piore.

Com apenas um ano de diferença de idade entre ele e o irmão, Allan Daniel Pereira de Lima, de 18 anos, conta que tem no irmão, Wellington Pereira de Lima, de 17, o maior rival: "a gente briga por tudo, por mulher, por que roupa usar, até por que canal de televisão assistir". Segundo Allan a coisa vem desde cedo e é exclusiva com o irmão mais próximo, já que com um outro, 5 anos mais velho, nunca brigou. A história dos dois irmãos pelo menos não vai acabar em tragédia como na Bíblia, onde Cain matou Abel, Allan garante que embora dispute tudo com Wellington os dois estão sempre juntos e acabam "se acertando no final".

Não foi isso que aconteceu com Mariano Corrêa e o irmão Carlos, "brigamos quando trabalhávamos juntos na mesma empresa e depois nunca mais conversamos. Nem quero saber o que ele anda fazendo", conta Mariano, que não se arrepende embora diga que isso incomoda a mãe.

Segundo a Profª. e Drª. em Psicologia, Marilene Krom, o grupo de irmãos é o primeiro espaço social onde as crianças experimentam as primeiras relações com outras pessoas. As crianças brincam juntas, partilham interesses comuns, treinam papéis e se apoiam mutuamente e também aprendem a competir, a dividir e a cooperar.

"A rivalidade pode ser compreensível no contexto onde as crianças disputam pela mesma atenção dos pais, ou pelo mesmo brinquedo, quando há o nascimento de um irmão mais novo, ou existe um quase da mesma idade.", diz a psicóloga. "O que determina o trauma na criança a ponto dela desenvolver uma rivalidade é mais a postura tomada pelos pais do que a dela mesma. Se os pais incentivassem a cooperação e não a rivalidade o resultado poderia ser diferente".

Muitas vezes o desenvolvimento da competição exagerada entre dois irmãos ou irmãs se dá devido ao relacionamento dos pais, da forma como eles se tratam e como, conseqüentemente, tratam seus filhos. Um exemplo é quando os pais brigam muito na frente de seus filhos para saber quem tem mais razão. Com esse tipo de atitude eles estimulam sem saber a competição entre os pequenos espectadores. As brigas em casa geram estresse e ansiedade e exacerbam as condutas de rivalidade e agressividade nas crianças. "Quando os pais brigam entre si o padrão se repete, os filhos brigam entre eles e conseqüentemente também brigam com os pares na escola, e continuam repetindo este padrão", diz Marilene Krom.

A situação pode piorar se os pais envolverem os filhos em seus problemas conjugais, disputando sua afetividade e atenção e muitas vezes "escolhendo um filho" como o "favorito". Foi o que aconteceu no caso de Cláudia

(nome fictício), de 24 anos, "minha mãe sempre favoreceu minha irmã mais nova em tudo, absolutamente tudo, só ela era bonita, inteligente, interessante...", conta. A disputa entre as duas não demorou a se manifestar,

"começou na escola, quando brigávamos para ficar com a melhor nota e foi até há alguns anos atrás, quando disputávamos a atenção dos rapazes". É no setor amoroso que a rivalidade entre as irmãs se manifesta mais, Cristiane Seizes conta que a irmã, cinco anos mais velha, tinha ciúme dela com o namorado, "a gente sempre teve um pouco de rivalidade mas isso não era normal, eu sou irmã dela", diz Cristiane, que diz que o problema foi resolvido depois que a irmã casou.

O rótulo

Um dos erros dos pais que pode acabar estimulando uma rivalidade

é considerar sempre um filho como culpado, o outro como vítima, criando os rótulos que se tornam difíceis dos filhos se livrarem mais tarde. Aliás não só do rótulo, mas da própria maneira de agir. Isso acontece porque as crianças ainda estão na fase de construção de sua personalidade e com facilidade incorporam estes rótulos, como: "eu é que sou ruim mesmo", "meu pai sempre fala isso", "a minha mão sempre me culpa, não tem jeito".

"Em geral as brigas ocorrem por coisas tão pequenas, um olho torto, um objeto pessoal, fica difícil sempre difícil apontar um culpado", diz Marilene Krom.

Resolvendo o problema

Todas as crianças envolvidas são responsáveis pelo problema, devem procurar soluções para ele e devem ser ajudadas a desenvolver autonomia e controle de si mesmas, segundo a psicóloga. "Muitas vezes convém esperar que os filhos tentem resolver as suas próprias disputas, para ganhar esta habilidade de negociar". Outra estratégia importante é ouvir as crianças em suas próprias sugestões para resolver suas questões, considerando sempre a idade e as condições das mesmas.

Limites também precisam ser impostos para que a criança que demonstra rivalidade saiba o seu lugar e também crie um clima de confiança e respeito, sem ter sempre por perto a presença dos pais. Muitos pais são invasivos e não deixam os filhos ficarem um momento sós, é só fecharam a porta do quarto que lá vem a mãe a mãe para abrir... O interessante é uma liberdade vigiada mas não invasiva.

É preciso cuidado, porém, para não tratar a criança como adulto e dar a ela funções de adulto, como tomar conta do outras crianças, por exemplo. Além de tomar o tempo que a criança tem para viver a infância, ao mesmo tempo uma criança com privilégios de adulto não receberá outra criança como uma companhia igual e potencial.

É a cara da avó

Outra questão importante que os pais devem evitar para não estipular padrões diferentes para os filhos

é a comparação com outros membros da família como sempre se ouve: "ele se parece com o avô, até tem mesmo nome", ou "ela tem o mesmo gênio forte da mãe". "São projeções que os pais fazem nos filhos, buscando sanar suas próprias aspirações e transferindo sentimentos e hostilidades familiares que podem exacerbar determinadas rivalidades, explica Marilene Krom.

Para pensar

Dicas para os pais de como agir quando os filhos demonstram uma rivalidade acima do normal

* Convém sempre manter a calma e a paciência. Pensar

à respeito do clima emocional presente na família.

* Ter certeza de que o eixo que mantém a família

é o afeto, e que a cooperação é a base do seu funcionamento.

* Buscar a compreensão dos sentimentos envolvidos nas disputas, vale falar sobre eles com afetividade e não ir logo ficando bravo (a).

* Envolver toda criança na busca de soluções para seus pequenos problemas. Vale ouvi-las.

* Agredir não ajuda, atrapalha, um tapa leva a outro e a situação pode ficar incontrolável. As crianças pioram a agressividade e a reproduzem.

* Ter a certeza de que o comportamento compreensivo, empático e conciliador, vai ser multiplicado posteriormente pelos filhos diante de seus irmãos, seus pares e diante de sua própria vida colaborando decisivamente para um mundo melhor.

Comentários

Comentários