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Raul Seixas

Luciana Franzolin
| Tempo de leitura: 11 min

Dez anos sem o pai do rock brasileiro

Dez anos sem o pai do rock brasileiro

Texto: Luciana Franzolin/ Especial para o JC Cultura

Há dez anos no dia 21 de agosto de 89 morria Raul Santos Seixas, o músico brasileiro que melhor personificou o rock; fãs do Brasil preparam homenagens, inclusive uma passeata no Centro de São Paulo

Dez anos após sua morte, Raul Seixas, parece ainda não ter encontrado descanso. Hoje e durante a próxima semana inúmeros fãs de todo País promovem eventos resgatando suas idéias, que continuam mais atuais do que nunca, (ou será que ainda há dúvidas sobre se alugar o Brasil não teria sido mesmo a solução para nós?).

Entre as manifestações programadas pelos "raulmaníacos", a maior deve ser uma passeata, que vai sair hoje, às 14 horas, no Centro de São Paulo.

O mais intrigante é que Raul faz hoje, a cabeça de jovens que nem sabiam direito o que era música quando ele morreu. De 1989 prá cá, ele se transformou no primeiro cantor da juventude brasileira a ser cultuado depois da morte, como Elvis nos Estados Unidos. Essa febre é como se fosse uma religião, mais de 200 fã-clubes por todo o país se encarregam de manter viva a memória do ídolo.

Nascido no ano da bomba atômica (1945), o menino Rauzito foi bombardeado por um som eletrizante que chegava aos seus ouvidos através dos amigos do consulado norte-americano, em Salvador. Era um ritmo novo e estranho, chamado rock and roll.

Aos 17 anos, Raulzito vestido com um

casaco de couro, tremia dançava e se jogava no chão, causando êxtase e estranhamento.

"Há muito tempo atrás, na velha Bahia, eu imitava Little Richard e me contorcia. As pessoas se afastavam pensando que eu tava tendo um ataque de epilepsia".

O rebelde e primitivo Rock and Roll foi o ritmo que melhor lhe serviu para disseminar sua mensagem. Matava aula para ouvir música e a partir daí, uma louca mistura do rock and roll com todas as variações ritmicas brasileiras, do xote ao baião deu início a uma metamorfose, que "passou por todas as religiões, filosofias, políticas e lutas. Aos 11 anos de idade, já desconfiava da

verdade absoluta.

Raul Seixas sempre quis fazer duas coisas na vida: escrever e cantar rock. Misturou as duas e afirmou: "Não sou cantor e nem compositor, uso a música para dizer o que penso".

Raul é bom porque é radical, absoluto. Por mais que se possa considerar suas idéias uma subfilosofia, o fato é que ele

viveu tudo aquilo que diz em suas músicas. Não é uma jogada de marketing , seu inconformismo é autêntico.

Foi dizendo o que pensava que ele conseguiu atrair a atenção de todo o País, num momento de regime militar intenso. Com seu trabalho, Raul Seixas sonhou mudar o mundo. A mudança deveria se dar de dentro para fora dos seres humanos. E o sonho deveria ser sonhado por todos juntos, para que se

tornasse realidade.

Exílio nos EUA

Influenciado pelo mago inglês Aleister Crowley, Raul também sonhou com uma sociedade perfeita, onde cada indivíduo pudesse viver sobre a sua própria lei, sob a sua vontade.

Nessa Sociedade Alternativa, "todo homem e toda mulher é uma estrela" e "a única lei, é a lei da vontade. " ninguém precisa correr, não tem idéia do que é calendário, não tem problema de horário.

Por causa de sua Sociedade Alternativa, ele foi convidado pelo DOPS a deixar o País.

Aproveitou o exílio nos Estados Unidos para conhecer John Lennon e acabou cantando Long Tall Sally num boteco do interior, sendo acompanhado ao piano por ninguém menos do que Jerry Lee Lewis .

De volta ao Brasil

"Música é apenas a vomitada de cada pessoa, uma cusparada. É a expressão de cada um". O sucesso de Ouro de Tolo e Gita (que vendeu 600 mil compactos) o traz de volta ao Brasil e então Raul preferiu ser a "Metamorfose Ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo".

Casou e e desfez casamentos, teve três filhas, assinou e rescindiu contratos com várias gravadoras, e gravou músicas com vários artistas, entre eles: Gilberto Gil e Wanderléia.

Ele "devia estar contente por ter conseguido tudo o que quis, mas confessa abestalhado que está decepcionado, pois foi tão fácil conseguir e agora se pergunta e daí? Tem uma porção de coisas grandes pra conquistar e não pode ficar aí parado...."

Abuso de álcool

Raul se internou várias vezes em razão da pancreatite crônica, pelo abuso do álcool, para dar um "check-up geral na

situação" mas nunca parou de lançar LPs.

Gravou o vídeo-clipe Gita, o primeiro musical colorido da TV Globo e o especial Plunct Plact Zum (quem é que não se lembra do carimbador maluco?). Foi nesta época que estouraram sucessos como "Trem das Sete", Como Vovó já Dizia" (quem não tem colírio), "Tente outra Vez", "Rock do Diabo", "Há 10 mil anos" , "Maluco Beleza".

A bebida, seu único vício, começava a trazer conseqüências ao seu magro organismo. Controlando a maluquez, misturada com a lucidez, Raul lança vários discos, praticamente um por ano até 84, tenta fazer shows, mas certa vez,

de tão bêbado, é tido como impostor de si mesmo em Caieiras.

"Você me pergunta aonde eu quero chegar, se há tantos caminhos na vida e pouca esperança no ar".

De volta ao rock

Já há algum tempo parado, é convidado pelo amigo Marcelo Nova, do Camisa de Vênus, para gravar um álbum dividindo os vocais de "Muita Estrela pra Pouca Constelação".

Mais tarde, os dois gravam juntos "A Panela do Diabo", que foi o último disco, antes do Maluco pegar o disco voador, e se mandar para outra dimensão, "onde todos os malucos-beleza se encontram, após deixar a sua

impressão digital no mundo".

No dia 21 de agosto de 1989, numa

segunda feira, as 5 da manhã, ele morreu depois de uma parada cardíaca, causada por pancreatite crônica. O maluco beleza escolheu uma trajetória errática e ficou fiel a ela até o fim. "Eu já ultrapassei a barreira do som, fiz o que pude, as vezes fora do tom, mas a semente que ajudei a plantar já nasceu." "Eu vou, eu vou me embora apostando em vocês, meu testamento, deixo a minha lucidez, vocês vão ter um mundo

bem melhor que o meu".

Conheça a discografia de Raul

"Raulzito e os Panteras"(1968)

"Sociedade da Grã-Ordem

Kavernista Apresenta Sessão

das Dez" (1971)

"Krig-Ha, Bandolo!" (1973)

"Gita" (1974)

"20 Anos de Rock" (1975,

reeditado em 1985 como "30

Anos de Rock")

"Novo Aeon" (1975)

"Há Dez Mil Anos Atrás" (1976)

"Raul Rock Seixas" (1977)

"O Dia em Que a Terra Parou"

(1978)

"Mata Virgem" (1979)

"Por Quem os Sinos Dobram"

(1979)

"Abre-te Sésamo" (1980)

"Raul Seixas" (1983)

"Raul Vivo" (1983)

"Metrô Linha 743" (1984)

"Let Me Sing My Rock'n'Roll"

(1985)

"Rock Vol. 2" (1986)

"Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-

Bum!" (1987)

"A Pedra do Gênesis" (1988)

"A Panela do Diabo" (1989, com

Marcelo Nova)

"Eu Raul Seixas" (1991*)

"O Baú do Raul" (1992*)

"Se o Rádio Não Toca" (1994*)

"Documento" (1998*)* Discos

póstumos

A partir de 1981, 23 coletâneas de Raul Seixas foram lançadas

"A Panela do Diabo" é quase existencialista, diz Marcelo Nova

Fã, amigo e parceiro de Raul no último disco, "A Panela do Diabo", Marcelo Nova se tornou uma espécie de porta-voz de Raul Seixas no final de sua carreira. Considerado o responsável pela volta de Raul ao cenário musical, o vocalista do Camisa de Vênus já chegou a dar um tapa em um repórter que provocou seu ídolo. Leia a seguir a entrevista exclusiva que Marcelo concedeu ao Jornal da Cidade.

Jornal da Cidade - Como você conheceu

Raul Seixas?

Marcelo Nova: A primeira vez que vi Raul Seixas foi em Salvador, no início dos anos 60, foi o meu primeiro contato com o Rock and Roll. Já tinha os meus

discos de Little Richard, Elvis, Beatles e Stones, mas jamais havia visto nada ao vivo. Mais tarde, já com o Camisa de Vênus, eu estava tocando no Circo Voador e ele foi assistir. No final do show, eu chamei ele pra cantar no palco e para a nossa surpresa, ele subiu, e nós cantamos um medley de música dos anos 50, Be bop a luh lah...

No outro dia, O Raul deu uma entrevista para um jornal do Rio dizendo que todas as bandas de rock brasileiro era uma merda, que ele só gostava do Camisa de

Vênus. Depois disso ficamos uma semana sem falar com ninguém, nos achando... A partir daí, trocamos endereços e nenhum procurou o outro, até que num belo domingo ensolarado ele foi com a Lena (esposa na época) e Tony Osanah, que era o guitarrista no

meu apartamento.

Desde então se iniciou uma amizade que só parou com a morte dele, em 89.

Jornal da Cidade - Marcelo, vocês do Camisa e o Raul começaram de um jeito muito parecido, atingindo primeiro a periferia punk da Bahia, as empregadas domésticas. Ele mesmo dizia que vocês tinham a mesma alquimia. Como foi isso, vocês, ambos baianos, e tão diferentes da turma dos tropicalistas e agora do axé?

Marcelo Nova - É, nós éramos a exceção, toda regra tem exceção , e para a nossa benção e para a nossa maldição nós éramos a exceção a idéia de vender a Bahia como um paraíso tropical, como a ilha da fantasia, o local onde todos os

desejos se concretizam, a terra da magia, do mistério, do colorido. Nós éramos a nuvem negra que jogava chuva ácida

sobre o por do sol (risos)

Jornal da Cidade - Como era o Raul amigo, pessoa?

Marcelo Nova - Ele era um cara sensacional, era um homem totalmente imprevisível, era uma pessoa muito generosa, e posso lhe dizer que do ponto de vista pessoal, ter encontrado com ele e compartilhado 50 shows e um álbum em parceria teve um significado para mim muito especial, porque eu era o garoto que estava lá, quando ele tinha 18 anos e eu tinha 12, eu estava lá, na fila do gargarejo, só que eu jamais imaginaria que 25 anos depois nós fossemos compartilhar tudo isso.

Então, esta minha história com o Raul tem um ponto de fusão que permanece aceso no meu coração até hoje.E isso não tem nada a ver com prestígio, popularidade, nem com disco de ouro,.... vai além.... é quase como se você pudesse erguer um brinde e dizer: Existe um nível de existência que nem sempre a gente atinge no nosso dia a dia. Essa coisa de quando a gente acorda, vai no banheiro faz xixi, peida, depois sai, come, arrota, depois volta pra casa, trepa e vai dormir, ... algo que transcende esta coisa e acontece pouco, mas acontece na vida de qualquer pessoa. O mais importante é você estar atento para quando isso acontecer na sua vida.

Jornal da Cidade: Teve uma história que você deu um tapa num jornalista após ele fazer uma série de provocações ao Raul, como que ele não dizia nada de novo, etc.... Conta como foi que isto aconteceu.

Marcelo Nova - (risos) Coisa de fã... A gente não se dava bem com a imprensa, a crítica, com raras exceções, via no Raul um ranso hippie, e naquela época, nos anos 80, todo mundo se achava muito moderninho, copiando as bandas de Londres, e eu porque eu confrontava isso, então as críticas que saíam do meu trabalho nunca eram críticas do meu trabalho, e sim ataques pessoais a Marcelo Nova.

Então, a junção de nós dois, criou um antagonismo muito claro, e como o Raul já estava debilitado, por causa da bebida, aquilo foi me irritando, a forma grosseira com que o jornalista se referia a ele.

Foi quando eu percebi que ele queria reagir e vi que ele não tinha condições físicas pra concretizar o desejo, eu fui apenas o porta-voz.

Jornal da Cidade - Como foi a turnê da Panela, os 50 shows que vocês fizeram juntos?

Marcelo Nova - Na nossa turnê aconteceram bons momentos e péssimos

momentos. A gente compartilhava muito quarto de hotel, ônibus, avião, os

dissabores da estrada, os prazeres da estrada, então, era tudo muito intenso, porque era muito de verdade.O maior mérito deste disco, A Panela do Diabo é

que é um disco de verdade, dois caras de meia idade falando sobre dois caras de meia idade.

Se você ouvir "Rock and Roll", "Carpinteiro" e "Banquete de Lixo", você vai ver que são músicas totalmente autobiográficas. Então, não eram dois caras que estavam apenas celebrando afinidades. O que é que Marcelo Nova e Raul Seixas vão fazer juntos? "A Panela do Diabo", um disco que tenha vícera, que tenha coração, que tenha sangue, intestino, que tenha vida.

É um disco quase existencialista e acho que ele passou no teste mais difícil, você olha para ele e é um disco que ficou. (LF)

Luciana Franzolin é fotojornalista do Jornal da Cidade

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