Geral

Física

Ana Maria Ferreira
| Tempo de leitura: 8 min

>- O que representa para a ciência o estudo dos Raios Cósmicos

Cientista bauruense estuda a origem dos Raios Cósmicos

Texto: Ana Maria Ferreira

Pesquisas realizadas por cientistas de vários países buscam identificar a origem da energia das partículas superenergéticas chamadas de raios cósmicos

O tempo todo a Terra sofre influências do Cosmos, mas os

"viajantes" mais interessantes e poderosos são invisíveis aos olhos do homem, mas não à sua curiosidade. Os chamados Raios Cósmicos são esses viajantes que desenvolvem a velocidade próxima à da luz no vácuo (300 mil km por segundo) originários não se sabe bem de onde; sabe-se que os mais "fortes" vêem de fora da nossa galáxia. Os pesquisadores procuram identificar a origem de tamanha energia que até hoje não pode ser comparada a nada que conhecemos. Credita-se sua origem a explosão de estrelas - supernovas - , da explosão que deu origem ao Universo, de um enorme buraco negro, mas ainda

é muito cedo para afirmar qualquer coisa a respeito.

As partículas superernegéticas, descobertas em 1962, são muito raras. A cada período de cem anos apenas uma atravessa a atmosfera terrestre causando o que os pesquisadores classificaram de "chuveiros atmosféricos" podendo ser de maior ou menor intensidade.

Os cientistas querem capturar essas partículas para poder aprofundar seus estudos e conhecer mais de perto a energia brutal dos raios cósmicos. O Brasil participa do Projeto Pierre Auger que já instalou, na Argentina, a primeira rede de super detectores de partículas, ao todo 1600 distribuídos por uma área de 3 mil quilômetros quadrados. O próximo detector será instalado nos Estados Unidos.

O cientista brasileiro e bauruense Armando Turtelli, pesquisador da Unicamp, fala com exclusividade do Jornal da Cidade sobre a importância das pesquisas dos raios cósmicos.

Jornal da Cidade - O que representa para a ciência o estudo dos Raios Cósmicos?

Há quanto tempo existe pesquisa sobre o assunto?

Armando Turtelli - O estudo da radiação cósmica começou no final do século passado, mas foi só nas décadas de 10-20 que o físico austríaco Hess provou, através de vôos de

balão, que ele mesmo 'pilotava', que a radiação vinha do espaço e não da

radiatividade natural da terra.

Essa área de pesquisa nos dá a ferramenta mais poderosa para perscrutar os

confins do Universo, pois as partículas que compõem a radiação cósmica são

produzidas em cataclismas cósmicos (estrelas que explodem, galáxias que se

chocam etc.) e são aceleradas por campos magnéticos intergaláticos. Elas

trazem em si as informações sobre os locais onde foram produzidas e sobre

as regiões do Universo que elas atravessaram. É o campo da física onde se

unem o estudo do microcosmo (essas partículas são partes de átomos) e do

macrocosmo (o Universo). Veja mais em:

http://www.unicamp.br/~turtelli/rc.html

JC - O Sr como representante brasileiro na Conferência leva algum material

inédito? Vai apresentar propostas?

Turtelli - A conferência é aberta para qualquer um. Eu não vou representar o Brasil. Eu

apenas faço parte da Comissão de Raios Cósmicos, da União Internacional de

Física Pura e Aplicada. Essa comissão se restringe a analisar as várias

conferências, a escolher os locais das próximas etc. As colaborações das quais participo vão apresentar os resultados das pesquisas desde a última conferência, que foi na África do Sul em 1997.

JC - O que falta para a concretização do projeto Pierre Auger? Sua viagem

está relacionada a implementação dele?

Turtelli - O Observatório Pierre Auger já está sendo construído em Malargue, perto de

Mendoza, na Argentina. O Ministério da Ciência e Tecnologia - MCT - já aprovou, dentro do PRONEX, o primeiro financiamento para os grupos brasileiros que participam do Auger. Os

recursos serão liberados a partir do início de 2000. Já apresentamos também um

outro pedido de financiamento à Fapesp. Os Estados Unidos, Argentina, Alemanha, Itália, França também já conseguiram seus financiamentos. Minha viagem não tem relação com o Auger.

JC - O financiamento será feito pelos países participantes?

Turtelli - Sim, cada país entra com o que pode e consegue, seja em dinheiro seja em

equipamento, mão de obra especializada etc. Há uma disparidade muito grande

eles: Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Brasil, Argentina, Vietnã,

China, Rússia, República Checa etc.

JC - Existe algum lugar especial no mundo onde as partículas podem ser

melhor observadas?

Turtelli - Depende de qual parte da radiação se quer estudar. Quando se quer estudar a

chamada componente penetrante (neutrinos e muons), o melhor lugar

é no

subsolo, dentro de túneis ou no fundo dos oceanos ou no fundo do gelo

antártico. Pois a camada de rocha filtra a componente pouco penetrante, que

atrapalharia o estudo.

Quando se quer estudar a componente pouco penetrante, deve-se ir ao alto de

montanhas, balões, satélites.

Os neutrinos são produzidos em explosões de estrelas e seu estudo no

subsolo permite obter informações sobre a origem e a evolução do Universo.

A componente menos penetrante é em geral 'modulada' (alterada,

influenciada) pela atividade solar e nos dá informações sobre o que

acontece lá.

JC - O Sr poderia dar exemplos práticos/comparativos do que significa a

energia, medida em eletrons-volts?

Turtelli - É difícil, pois além de energia (velocidade) há a questão da massa da

partícula. Mas um próton (constituinte do núcleo do átomo) com 10 elevado a 20 eV (eletrón-volt)

(1 seguido de 20 zeros) tem a energia equivalente à de uma bola de futebol a

50 km/h. Só que o próton é microscópico, claro.

JC - A determinação da origem dessas partículas ajuda a entender melhor o

Universo e de alguma forma poderia viabilizar novas fontes de energia

não esgotáveis?

Turtelli - A determinação da origem permitirá colocar mais um pedacinho do

quebra-cabeças que é a reconstrução da história do Universo. Dizer se

viabilizará novas fontes de energia é difícil, pois ainda sabemos tão

pouco que nem podemos saber para que é que serve. É a mesma situação dos

físicos que estudavam o átomo e o núcleo na década de 30, eles também não

saberiam responder na época a uma pergunta dessas, mas 10 anos depois se

tinha a energia nuclear.

JC - As pesquisas progrediram muito do início até hoje? Aconteceram

descobertas significativas?

Turtelli - A ciência em geral não avança através de grandes saltos. Os aparentes

grandes saltos são de fato o resultado do lento, persistente e anônimo

trabalho do dia-a-dia dos pesquisadores. Já se conseguiu fixar muitas

coisas nessa área de pesquisa, mas a impressão de um leigo é a de que se

está sempre no começo. Isso porque apenas os pesquisadores acham que já

conhecem o suficiente sobre um fenômeno, eles passam ao nível sucessivo,

desconhecido. Ou seja, sempre se está pesquisando o desconhecido.

JC - A pesquisa científica em torno do formato do Universo pode vir a

colaborar com a pesquisa de Raios Cósmicos e vice-versa?

Turtelli - A radiação cósmica é a mais importante ferramenta que temos para estudar o

Universo. As outras astronomias (visível, rádio etc.) observam o Universo

através de 'janelas' (ondas eletromagnéticas) que são fenômenos que

ocorrem na superfície das estrelas. A luz de uma estrela, por exemplo,

(vista pelo telescópio Hubble) provém de sua superfície externa, enquanto

as partículas da radiação cósmica provêm de seu interior, portanto, revelam

processos físicos mais fundamentais e potencialmente mais elucidadores.

O estudo da radiação de mais alta energia permitirá importantes conclusões

sobre a expansão do Universo e sobre a radiação de fundo primordial que

permeia todo o Universo conhecido.

JC - Por quê é tão importante para a Ciência procurar traçar o

"comportamento" do Universo, uma vez que nossa tecnologia não nos

permite ir muito além das nossas próprias fronteiras? Isso poderia

solucionar a origem da vida?

Turtelli - É o eterno sonho do homem de chegar com sua inteligência até onde a sua

tecnologia atual não o permite alcançar. O resultado do conhecimento assim

construído será a tecnologia do amanhã.

JC - Na sua opinião qual é a maior barreira encontrada pelo cientista

no Brasil e fora dele?

Turtelli - O cientista vive no mundo real, sujeito à conjuntura nacional, como todos

os demais. A diferença é que ele busca soluções que não são imediatas,

enquanto os governos (justamente) estão preocupados em resolver situações

concretas imediatas, como pobreza, educação, saúde etc. Isso, claro, impõe

limitações para nosso trabalho. O problema é achar o justo equilíbrio,

pois se dá atenção apenas ao imediato, continuar-se-á sempre a reboque

dos outros.

O fato concreto é que a pesquisa pura de hoje é a pesquisa aplicada de

amanhã e a tecnologia de depois de amanhã, e chegará lá primeiro quem

investir hoje em pesquisa pura.

JC - O Sr. não acha que a comunidade científica deveria buscar canais de

divulgação que não restritos somente aos

"iniciados"?

Turtelli - Sem dúvida. Mas, são inúmeras nossas obrigações: dar aulas, fazer as

pesquisas, fazer relatórios técnicos e publicar artigos em revistas

especializadas. Só assim que os órgãos de fomento financiam o nosso

trabalho, se apenas 'divulgamos' nosso trabalho eles não financiam. Mas

certamente a divulgação 'não especializada'

é uma maneira de prestarmos

contas à sociedade sobre o financiamento que nos foi dado, que provém dos

impostos que todos (quase) pagam.

Fonte: Revista Superinteressante e Unicamp.

Comentários

Comentários