Escolas passam abaixo-assinado contra CEI
Escolas passam abaixo-assinado contra CEI
Texto: Josefa Cunha
Algumas escolas municipais convidaram pais de alunos a subscreverem um abaixo-assinado em apoio à Prefeitura no caso da compra do patinho destinado à merenda, mais precisamente, segundo o prefeito Nilson Costa (PPS), para rebater afirmações do vereador Rogério Medina (PTB), consideradas alarmistas, sobre possíveis doenças (câncer) que poderiam ocorrer pelo consumo de carne deteriorada da merenda.
O abaixo-assinado provocou desencontros em virtude da desconhecida origem da iniciativa, uma vez que os pais negaram a propositura do documento e a Secretaria da Educação não se manifestou sobre o ocorrido.
A existência do abaixo-assinado foi comunicada por alguns pais que estranharam a postura das escolas. Um deles, cujo filho estuda na EMEI Francisco Gabriele Neto (Vila Independência), disse que o cabeçalho do documento era "incoerente" com os fatos veiculados sobre o assunto na imprensa, além de "queimar" o vereador Rogério Medina (PTB), autor da denúncia sobre possível superfaturamento na aquisição do patinho e presidente da Comissão Especial de Inquérito (CEI) que investigou o caso no âmbito da Câmara Municipal.
Segundo contou esse pai, que preferiu não ter seu nome identificado, a lista foi passada na entrada e saída dos alunos. "Os pais foram convidados a entrar e, depois de algumas palavras da diretora, a assinar o abaixo-assinado. A maioria assinou, mas, como entendo não ser esse o papel da escola, preferi ficar de fora", disse.
"Tenho acompanhado as notícias sobre a CEI do Patinho e não achei aquilo muito coerente, mesmo porque senti que eles estavam vinculando o nosso apoio à manutenção da carne no cardápio da merenda", acrescentou.
O JC tentou obter na escola infantil da Vila Independência informações sobre o abaixo-assinado, mas uma funcionária disse que, naquele momento, não havia ninguém no estabelecimento que pudesse falar sobre o assunto. O vereador Rogério Medina, citado no documento, esteve pessoalmente no local, mas não conseguiu ter acesso à subscrição. Por não saber o conteúdo do cabeçalho, o parlamentar resolveu registrar boletim de ocorrência para preservação de direitos.
O enunciado do abaixo-assinado foi revelado na noite de sexta-feira pelo próprio gabinete do prefeito, que enviou cópias
à redação. No material encaminhado, notou-se a existência de dois cabeçalhos diferentes, o que não afasta a possibilidade de outros distintos terem sido passados aos pais. Também é impreciso o número de pessoas que subscreveram o documento.
Nos enunciados que chegaram ao conhecimento do JC, o manifesto de apoio à Prefeitura repudia as declarações feitas por Medina à TV Preve, no intervalo da sessão legislativa da última segunda-feira. Na ocasião, o vereador - seguindo conclusão do relatório da CEI - disparou suas suspeitas em relação à origem dos 28 mil quilos do patinho adquiridos em abril passado. Além de reiterar a comprovação de superfaturamento, o parlamentar disse que a carne distribuída às escolas não possuía registro de fiscalização sanitária e poderia ter causado problemas aos alunos. "Vocês sabiam que a carne sem a fiscalização da saúde, que estiver contaminada, chega até mesmo a provocar câncer. Então, às vezes, eu prefiro que a merenda escolar fique sem carne e que, em seu lugar, seja oferecido frango, peixe e salsicha. A minha filha, se for para a rede municipal, não vai tomar a merenda enquanto não se tiver certeza da procedência", declarou.
Um dos enunciados do abaixo-assinado menciona estranheza quanto
às suspeitas sobre a procedência da carne, "visto que sabemos que qualquer fornecedor ao participar da concorrência tem que estar com todas as documentações legais exigidas pelo Departamento de Compras, sob pena de ser desclassificado.
... Entendemos que, partindo de um representante do povo, declarações de teor alarmistas podem ocasionar um clima de inquietação e até mesmo pânico em nossas famílias usuárias da merenda escolar, considerada por nós indispensável para o desenvolvimento integral de nossos filhos."
O prefeito Nilson Costa, apesar de não confirmar (e nem negar) que a iniciativa do abaixo-assinado partiu da administração municipal - no caso, da Secretaria da Educação -, concordou integralmente com o manifesto. "Um homem público não pode instigar o pânico dessa forma, principalmente na condição de presidente da CEI. Na verdade, ele está fazendo o papel de órfão inconformado de Izzo Filho. Esse abaixo-assinado é apenas um detalhe", avaliou.