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Zé Celso Martinez - teatro

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 10 min

"O capitalismo vai passar", diz Zé Celso

"O capitalismo vai passar", diz Zé Celso

Texto: Fabiano Alcantara

Entrevistar José Celso Martinez Correa, herdeiro legítimo do antropófago-mor, Oswald de Andrade, não é uma tarefa fácil. Prenho e pleno de idéias, como ele se define, seu pensamento não segue uma linha pré-estabelecida.

Na última quinta-feira, algumas horas antes de apresentar seu espetáculo-oficina "Ritos - Conferências

- Comédias", no Sesc Bauru, mesmo cansado e reclamando do "gasto de energia" que teria com a entrevista antes da apresentação, o diretor falou de assuntos como a situação do teatro no País, Cacilda Becker e o capitalismo. Leia a entrevista a seguir.

Pergunta - O que exatamente são os "Ritos - Conferências- Comédias"?

José Celso Martinez Correa - É um trabalho que nós estamos fazendo em seis cidades, Bauru é a terceira.

Um trabalho que nós chamamos de "assentamentos" de Cacilda!!.

Em cada cidade, a gente escolhe um trecho dessa peça, trabalhamos aquele texto rapidamente e fazemos uma conferência com as pessoas para saber o que elas sentem, como elas estão, como nós estamos, o que estamos fazendo da nossa vida.

Eu escrevi uma tetralogia, e são todos espetáculos muito grandes, com muita gente, muito complexo e, em um certo sentido, quase impossível.

Pergunta - Impossível em que sentido?

Zé Celso - Impossível no sentido econômico, inclusive. Porque o investimento no teatro é praticamente nulo. O teatro está em uma condição de África. E o que acontece é que as companhias não recebem investimento, com estas leis de incentivo.

A economia do País está organizada de tal maneira que o dinheiro público para a cultura sai diretamente do desconto do imposto de renda, e a gestão disso é passada para os empresários.

Ou seja, o dinheiro que foi em outras épocas para o criador, hoje é passado para as empresas e as empresas é que tem o poder de decisão sobre o que deve ou não ser feito o que pode ou não ser feito.

Pergunta - Para você é uma espécie de ditadura?

Zé Celso - Total. As empresas só investem em si mesmo, no seu próprio marketing. Os bancos fazem casa de cultura e eles só investem ali no próprio banco. Eles programam umas conferências, umas exposições..., mas na verdade é um dinheiro que some. Você não sabe onde vai parar, porque é muito dinheiro que cada banco levanta e o dinheiro de imposto é muito grande.

Pergunta - Para você que faz um teatro contestador

é mais complicado ainda conseguir investimentos?

Zé Celso - Não é bem isso. Eu gosto de trabalhar com bastante gente, de trabalhar com as pessoas envolvidas no trabalho. E, atualmente, os atores são obrigados a fazer mil pequenos trabalhos. São obrigados a fazer comercial, novela, se ele conseguir, propaganda institucional, animar festa, lançamento de produto. Ou seja, coisas que dispersam, e o teatro precisa de uma concentração muito grande.

Atualmente, não se investe para se juntar muitas energias e se produzir grandes espetáculos. Com elenco grande, com pessoas se concentrando e criando alguma coisa nova. Nós gostamos, temos o destino de trabalhar desta maneira. Fizemos Bacantes, Hamlet...

Pergunta - O que te atrai nessa maneira de fazer teatro?

Zé Celso - Imagina se Shakespeare fosse depender de um "marketeiro", jamais teria escrito essas peças. Teria feito monólogos, uma peça para dois para três.

O Brecht, os gregos, Nelson Rodrigues, Oswald de Andrade. Todos eles escreveram com estas condições que os atores só tem hoje nas novelas.

Pergunta - Estas apresentações-oficinas no Sesc são uma maneira de viabilizar o "Cacilda!!"?

Zé Celso - É uma maneira de trabalhar. Esta

é uma peça que a gente não sabe como ela

é. É uma peça que eu escrevi em estado de automatismo psíquico. E aí quando eu fui ler, como diretor, vi que tinha feito uma coisa supercomplicada.

Se você tem um investimento grande é aquela fase de pré-produção, que você pesquisa, estuda, analisa. Enfim faz exercícios.

E foi oferecido o seguinte, da gente pegar cenas, reunir pessoas que estão fazendo, o nosso grupo está extremamente disperso, está fazendo muita coisa, e reunir, então, por dois, três dias estas pessoas e tentar esboçar alguma coisa, mas entregar para o público uma criação bem nua, inclusive com o público participando. Porque nós não estamos com nada para mostrar, nós estamos buscando.

Então, evidentemente é o maior malabarismo, porque em cada cidade a gente tem que encontrar, em pouco tempo, uma maneira de aprofundar uma coisa extremamente complexa e de fazer todo mundo participar.

Para nós isso tem que corresponder a um rito, quase uma passagem de um estágio para outro.

Esta segunda peça, aliás, é interessante, que é uma fase que a Cacilda Becker, está também fazendo várias coisas ao mesmo tempo. Ela quer comprar uma casa para a família dela, ela vai fazer um filme, vai tentar abrir uma agência de propaganda... Ela está assim com milhares de atividades ao mesmo tempo e muito desconcentrada do teatro.

Até que ela vai filmar na Atlântida com o Grande Otelo e ao mesmo tempo é convidada para fazer "Othelo", no Teatro Experimental do Negro, na cena que a Desdêmona

é assassinada.

Então, a gente vai pegar isso tudo e como se fosse a nossa própria dispersão, e como se fosse o nosso mal, e naquele assassinato na Desdêmona a gente vai entrar em uma total obscuridade, um total eclipse, um total apocalipse.

Nesse apocalipse ver se a lua sai da frente e a gente encontra a luz de novo.

Pergunta - A saída para a crise?

Zé Celso - O teatro está sofrendo muito, na verdade, nós estamos sofrendo o que todo o País está sofrendo. É um regime em você tem uma engrenagem montada pelo FMI, se você se submete à engrenagem...

Pergunta - Você está falando do Fernando Henrique?

Zé Celso - Não é o Fernando Henrique. Há muitos anos, quando o Sartre veio para o Brasil, eu fiz uma peça chamada "A Engrenagem", que contava a história de um sujeito de esquerda que subiu ao poder e fazia uma revolução combatendo a engrenagem. Mas aí ele recebe a visita do embaixador da engrenagem, faz os acordos todos e acontece o que acontece com o Fernando Henrique.

Pergunta - Foi uma profecia?

Zé Celso - Não. Esse sistema é um sistema capitalista colonial, ele se repete, muda de cara, fica com uma aparência mais renovada, mas é a mesma coisa. Este sistema é muito sufocante porque ele é muito obstrutor da liberdade de produção, de criação. Então, o que você tem que fazer? Tem que comê-lo, ver as possibilidades dele se subverter porque nós todos não aguentamos viver dessa maneira.

Chega um determinado momento que nem eles que estão lá em cima sabem o que fazer, nem o que estão por baixo. Então,

é necessário ter transformações e são transformações que dizem respeito à vida de cada um também.

Pergunta - Como você resiste por tantos anos?

Eu negocio, eu como, tento atropofagiar, tento manter a minha liberdade, mas é cada vez mais difícil. Eu tento encontrar uma maneira de fugir da fatalidade de me submeter e, nessa submissão, me matar, me destruir, enquanto artista.

Pergunta - Você se sente como um Dom Quixote?

Zé Celso - Tem outras pessoas na mesma situação que eu, muitas pessoas gostariam de viver de acordo com o seu desejo, sua liberdade, sua escolha. Agora, você tenta se adaptar ao sistema, vai fazer uma peça de costumes, com pouca gente? Eu não consigo, porque eu estou prenho, pleno de idéias, de vontade, de fazer coisas mais fortes. E eu procuro encontrar outras maneiras, e de repente encontro, e de repente perde tudo...

No teatro, a gente vive de uma maneira exarcebada, o que está todo mundo vivendo. A gente não é diferente porque nós temos a maior dificuldade de pagar os aluguéis, a maior dificuldade de comer bem, da gente ir atrás das coisas que precisa para se informar. Isso atrapalha até as relações afetivas porque esse regime instaura uma coisa muito capitalista, competitiva, muito egoísta. E o teatro é uma coisa que depende muito de solidariedade, de um outro movimento. Então, quer se queira ou não, o que resultar desse jogo é o teatro.

Por exemplo, se você se submete você faz uma paródia de teatro, que é um teatro possível, que é uma coisa que se enquadra no esquema, que não é nada. Nada, porque esse esquema não dá importância nenhuma para o teatro, não dá importância para arte, para ele não existe a importância da pessoa humana e do poder que a pessoa humana tem. É uma força que é desprezada e cuspida fora por este sistema, como ele se encontra.

Nós queremos essa tecnologia, mas ao mesmo tempo chegou a hora da humanidade dar um salto, a humanidade tem condições de viver muito bem.

Por exemplo, não vai mais ter emprego. A tendência do desemprego é cada vez maior, o trabalho passa a ser outro, a humanidade vai ter que se dedicar a trabalhos como o de teatro, de cultura. Vai ser preciso isso, mas para que aconteça

é preciso uma revolução individual de cada pessoa.

Tem muita gente buscando, agora mesmo que eu estou falando com vocês tem pessoas lá em Brasília protestando

(na "Marcha dos 100 Mil"). O próprio Movimento Sem Terra é maravilhoso, eles estão buscando do jeito deles. Desses vários jeitos diferentes, de repente, de tanto mexer na coisa, aquilo produz uma semente, uma coisa nova.

Pergunta - Quando você usou o termo assentamento para falar do seu teatro você pensou nos sem-terra?

Zé Celso - Engraçado, agora que eu estou pensado em sem-terra pela primeira vez. Eu tinha pensado em Candomblé, que faz um assentamento para o santo. E como se estivéssemos fazendo um assentamento para esta personagem, que é Cacilda, um personagem unificador de uma idéia de teatro como criação, como liberdade, como autonomia. Então é como se fosse o assentamento desse entidade aqui em Bauru e para nós mesmos.

Pergunta - Você acha que faltam outras Cacildas?

Zé Celso - Cacilda é um trabalho de cultivo, de você estar plantando. Quando as atrizes entram em contato com a Cacilda, quando elas praticam, quando se faz, elas começam a descobrir uma outra maneira. Isso alimenta a visão, o instinto, o olfato e a idéia de que é possível fazer de uma maneira diferente e próspera, onde se coma bem, se viva bem, onde se tenha a tecnologia na mão, o virtual. A humanidade pode isso.

Basicamente, a função do teatro é mostrar que não é necessária a submissão. Agora, evidentemente, como a própria função dele é esta, na vida ele e muito combatido. Porque as pessoas fogem. É mais fácil você se submeter ou ser submetido, é mais cômodo.

Para você não se submeter é necessário um certo trabalho. Eu acho que todas as áreas precisam de pessoas que queiram não se submeter e que dessa relação dela com as coisas, você vai ver que vai encontrar um caminho mais de acordo com o que existe no mundo contemporâneo, com a tecnologia, com a riqueza que o mundo dispõe. Mas evidentemente, isso entra em choque com o apogeu do capitalismo, que ao mesmo tempo é a sua decadência.

E principalmente no Brasil, onde existe um capitalismo de colônia, em que uma nação, os Estados Unidos, determina os destinos de outra nação. E em um certo sentido esmaga as culturas dessa nação, porque precisa esmagar.

É uma visão que é um eclipse no sol, que

é a cultura brasileira, que é riquíssima,

é uma potência.

A cultura brasileira anuncia, como Oswald de Andrade dizia, a era em que você vai usufruir das coisas que a humanidade conquistou.

Estão fingindo que vai ter emprego, não vai, tem que ruir esta idéia. Tem que se começar a pensar os fundamentos do capitalismo. Se a sua cabeça não

é condicionada e você começa a imaginar uma outra maneira que não seja este sistema, esta idéia

única que está voduzando todo mundo - e todo mundo considera como se fosse um deus, como se fosse eterna, como se fosse um axioma - você vê que não é assim, existem milhares de possibilidades.

Então, um aprofundamento da idéia da liberdade, essa crise anuncia um novo tempo. A gente vive uma época muito bonita, que você precisa mudar muito, você precisa aprender a se transformar.

A gente está cheio de idéias fixas, inclusive a idéia fixa do dinheiro, o tabu do capitalismo tem que ser enfrentado, para você não ter medo disso, contracenar com isso e transformar isso, o capitalismo vai passar.

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