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Entidade assistencial

Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 7 min

Empresária investe em deficientes

Empresária investe em deficientes

Texto: Fábio Grellet

Fazendeira de P. Alves construiu e mantém funcionando uma entidade que atende 52 deficientes físicos e mentais

Presidente Alves - Quantos empresários se prestariam, nas condições atuais, a manter uma entidade assistencial que acumula despesas mensais de aproximadamente R$ 15 mil, dois terços dos quais custeados por uma única pessoa? Pois é o que faz Emília Fernandes Affonso, benfeitora que mantém a Associação Multidisciplinar de Educação (AME) Regiane Affonso. A entidade, que funciona em Presidente Alves, atende atualmente 52 pessoas portadoras de deficiências mentais ou físicas (inclusive de audição ou visão).

No início de 1995, a Prefeitura de Presidente Alves buscou parcerias que viabilizassem a criação de uma entidade para acolher deficientes na cidade. A primeira empresária procurada foi Emília Affonso, que possui três fazendas na zona rural de Presidente Alves, além de negócios em São Paulo e Bauru. Ela se dispôs a incentivar o projeto, bancando a construção do imóvel e sua mobília. Diante da resposta positiva de Emília, os demais empresários da cidade nem chegaram a ser consultados.

A área reservada para a construção da entidade foi cedida pela Prefeitura. Para gerenciar a instalação e organizar o funcionamento da AME, foi contratada uma administradora de serviços de saúde hospitalar, Lígia Helena Pagan, especializada em educação especial (para deficientes). Seis meses após o início do projeto, em 30 de setembro de 1995, a obra estava concluída, ao custo atualizado de R$ 133 mil, e a entidade foi inaugurada. Os funcionários foram contratados pela Prefeitura e Pagan retornou a São Paulo, onde morava, para se dedicar a novos projetos. A entidade atendia, no início, 17 pacientes, e seus custos de manutenção eram custeados pela Prefeitura.

Em janeiro de 1997, porém, Presidente Alves trocou de prefeito: assumiu Orlando Rodrigues Gimenez e, segundo a coordenadora da AME, ele alegou insuficiência de verbas para cancelar o custeio da entidade (leia no boxe a versão do prefeito, que nega o corte integral de verbas). Sem verbas do Poder Público, a AME esteve ameaçada de fechar suas portas. A empresária Emília Affonso, porém, não teve dúvidas: ciente das dificuldades que a entidade enfrentava, assumiu o pagamento de suas despesas, para evitar seu fechamento. Desde janeiro de 1997, portanto, a AME teria sido custeada exclusivamente pela empresária.

Para aprimorar o atendimento que a entidade presta, porém, Emília Affonso foi buscar, em São Paulo, a especialista Lígia Pagan, que desde janeiro voltou a trabalhar na AME e está morando numa das fazendas da empresária.

Além de buscar melhorias no atendimento prestado pela entidade, coube a Lígia, conforme ela disse, convencer o prefeito de que a AME merece receber verbas do Poder Público. Desde março, esse aspecto do trabalho começou a render frutos. Os governos federal e estadual entregam aos municípios verbas que podem ser aplicadas nas áreas mais necessitadas, conforme decisão do prefeito. Mas nenhum valor era entregue

à AME - que, por ser uma entidade sem fins lucrativos,

é passível de receber ajuda, desde que indicada pela administração municipal, através do Conselho Municipal de Assistência Social. Desde março, porém, o prefeito Orlando Rodrigues Gimenes (PPS) passou a destinar, mensalmente, R$ 4 mil à entidade - metade proveniente do governo federal e metade, do governo estadual. Restava, pois, a contribuição do próprio município, que é a esfera do Poder Público mais beneficiada pelas atividades da Associação. Desde maio, também essa dificuldade foi vencida: a Prefeitura de Presidente Alves passou a contribuir com R$ 1 mil mensais à AME, que agora tem R$ 5 mil, a cada mês, oferecidos pelo Poder Público, para garantir o atendimento gratuito que presta.

Como a entidade gasta mensalmente R$ 15 mil, os R$ 10 mil restantes ainda são assumidos exclusivamente pela empresária. Embora ela garanta que nunca vai faltar dinheiro para a manutenção da entidade, é justo buscar novas fontes de renda. Assim, está sendo desenvolvida uma campanha, através do envio de cartas a empresários, para recrutar pessoas dispostas a oferecer contribuições periódicas para a AME.

Além de diversificar as fontes de renda da entidade, outra substancial preocupação de Lígia Pagan é garantir que o Poder Público mantenha (e amplie, à medida do possível) o repasse da verba destinada à AME: "A Associação não deve ser caracterizada como obra de tal ou qual prefeito, mas como entidade que presta uma assistência fundamental à população de Presidente Alves e região", diz.

Funcionamento

A AME funciona entre 8 e 17 horas, de segunda a sexta-feira, e atende, nesse período, 52 pacientes que visitam diariamente a instituição. Além dos moradores de Presidente Alves, há oito pacientes de Bauru, seis de Pirajuí e três que moram em São Luiz do Guaricanga, distrito de Presidente Alves. O paciente mais novo é um bebê de apenas 4 meses, enquanto o mais velho tem 57 anos de idade. Além deles, há um grande número de pessoas que frequentam esporadicamente a Associação, para se submeter a tratamentos de fisioterapia, por exemplo.

Há um grupo de 18 profissionais que atendem na AME: psicóloga, fonoaudióloga, fisioterapeuta, psicopedagoga, terapeuta ocupacional, professor de Educação Física, assistente social e neuropsiquiatra (este, o médico bauruense José Lopes, que atua voluntariamente, apenas pelo prazer de colaborar com a entidade), além da equipe de apoio, que conta com secretária, cozinheira, faxineira, monitoras, jardineiros e motoristas.

O público atendido é carente, constituído, em geral, por filhos de agricultores e bóias-frias. Para começar a frequentar a AME, o paciente é submetido a uma triagem, que detecta o tipo de problema que o aflige.

Durante todo o dia, são oferecidas aos deficientes atividades que permitam desenvolver suas habilidades. A evolução de cada paciente é cuidadosamente acompanhada pelos profissionais.

São oferecidas quatro refeições por dia: o café da manhã, almoço, lanche da tarde e outro lanche, mais reforçado, no encerramento das atividades.

Novo projeto

Outro sonho que a coordenadora da AME, Lígia Pagan, está tentando viabilizar é a construção de um Centro de Convivência, onde seriam atendidos, além de portadores de deficiências físicas ou mentais, alcoólatras e drogaditos (dependentes de drogas). Já existe um projeto e a área onde se pretende construir o Centro já foi escolhida, mas a coordenadora está buscando parcerias com outros empresários, dispostos a contribuir com a iniciativa.

O Centro permitiria estender o atendimento a alcoólatras e drogaditos, o que não é possível na sede atual da AME. Apesar disso, a Associação já

é palco de um projeto de conscientização sobre o perigo das drogas, através de palestras. Um alcoólatra também está em recuperação, na entidade.

É José Machado, 50 anos, que há 15 enfrentava problemas com o consumo exagerado de álcool, conforme ele próprio admite. Há sete meses, porém, foi convidado a trabalhar como agricultor, na horta da AME. E tem colhido resultados satisfatórios: Machado diz que ainda não se curou totalmente do vício, mas já se sente muito melhor. Está se considerando mais valorizado e procura melhorar até sua fisionomia. Feliz, anuncia: daqui a três meses, poderá ser flagrado com os novos dentes, pois está substituindo aqueles velhos e condenados por uma dentadura novinha em folha. Há três meses, Francisco Ramos, 70 anos, passou a auxiliar José Machado na horta. Embora não tenha problemas de alcoolismo, Ramos também afirma que está muito feliz com sua nova função. Agora, além das verduras, eles começam a plantar mudas de café, para vender.

Assim como as viçosas verduras que compõem sua horta, a AME também planeja crescer, articulando o apoio de novos benfeitores, para ampliar a quantia de pessoas atendidas em Presidente Alves e região. A dona Emília, que proporcionou o início da transformação do sonho em realidade, e os deficientes físicos e mentais que precisam do atendimento da entidade, agradecem!

Prefeito afirma que entidade sempre foi atendida

O prefeito de Presidente Alves, Orlando Rodrigues Gimenes (PPS), afirmou ao Jornal da Cidade que a Associação Multidisciplinar de Educação Regiane Affonso sempre recebeu verbas do Poder Público. Ele alegou que, durante o ano de 1997, foram repassados R$ 15.198,00. Já em 1998, segundo Gimenes, foram destinados à entidade R$ 24 mil pelo governo estadual, outros R$ 16 mil pelo governo federal e outros R$ 4.750,00 pela Prefeitura de Presidente Alves. Desde julho, conforme o prefeito, são destinados à AME, mensalmente, R$ 6 mil - R$ 2 mil pelo governo do Estado, R$ 2 mil pelo governo federal e outros R$ 2 mil pela Prefeitura. Até então, a Prefeitura repassava R$ 1 mil à entidade.

Considerando-se o repasse de verbas no valor informado pelo prefeito, os custos de manutenção da entidade extrapolam em R$ 9 mil a quantia recebida. Assim, esse seria o valor da contribuição mensal da empresária Emília Affonso. (FG)

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