Curso sobre mitologia grega instiga reflexão sobre mundo moderno
Curso de mitologia grega instiga reflexão sobre mundo moderno
Texto: Ricardo Polettini
Há alguns anos, um jornal de uma grande cidade noticiou que um marceneiro havia matado a mulher e os filhos, entregando-se
à polícia em seguida e justificando que o crime fora praticado após um acesso de loucura. Uma história parecida com essa já havia sido contada por Eurípedes, na antiga grécia, porém, sob a forma de versos, na tragédia de Héracles.
Próximo ao final deste milênio, a jornalista bauruense e pesquisadora em mitologia grega Cristina Rodrigues Franciscato resgata justamente esse tema em sua tese de mestrado, que vem sendo desenvolvida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
Atualmente trabalhando na tradução dos mais de 1.600 versos escritos em grego antigo, a pesquisadora ministra em Bauru, entre os dias 14 de setembro e 26 de outubro, o curso "O Mito e a Compreensão Mítica do Mundo". Dividido em três etapas, vai abranger, em 18 horas, desde a origem e o significado da palavra mito (do grego "mithos" - que quer dizer "palavra", no sentido de "narração") até a origem dos deuses e estudo dos heróis.
Com uma abordagem adequada a qualquer pessoa que se interesse em fazer um primeiro mergulho no universo dos mitos, a pesquisadora pretende trazer à tona, entre os participantes, subsídios para uma nova percepção da realidade do mundo contemporâneo.
Segundo Cristina, mais que um estudo sobre as origens do pensamento ocidental, a compreensão dos mitos favorece uma nova compreensão da realidade. "O mito expressa uma compreensão de mundo própria de um tempo em que os homens interagiam de forma diferente com ele. Hoje, a gente vê o mundo como um objeto passivo, agindo sobre ele. Para os gregos, a relação com o mundo envolvia as sensações e os sentimentos, uma postura oposta", exemplifica.
O curso
Na primeira parte do curso, será mostrada a origem dos mitos, sua natureza arquetípica e a como os gregos os compreendiam.
"O psiquiatra suíço Jung estabeleceu duas instâncias do inconsciente. Uma pessoal e outra formada por um substrato psíquico comum, o inconsiente coletivo, que por sua vez
é formado pelos arquétipos. Eles são idéias primeiras que surgiram através dos milênios de experiências básicas do ser humano, como a fome, o sentimento de ser mãe, entre outros", explica
Os arquétipos justificam por que se encontram temas míticos semelhantes em culturas diversas no tempo e no espaço. Por exemplo, nos mitos envolvendo heróis, sejam eles da cultura indígena, africana ou grega, embora sejam descritos de maneira diferente, existem sempre alguns pontos em comum: o tipo de nascimento, o pai divino, os mestres, as etapas de sua vida, os trabalhos que ele tem que vencer e até a forma de sua morte.
As outras duas partes vão tratar respectivamente da Teogonia
(origem dos deuses) e o mito do herói, com o estudo de caso baseado em Héracles.
"Nós deixamos os deuses há muito tempo, mas eles não nos deixaram. No sentido que eles representavam, eles ainda existem, só que lhes damos outros nomes. Por mais que não enxerguemos mais por esse filtro, eles ainda estão dentro da gente e não nos damos conta", ressalta.
Serviço
Curso "O Mito e a Compreensão Mítica do Mundo", por Cristina Rodrigues Franciscato, de 14 de setembro a 26 de outubro, no espaço Dafne (rua 13 de Maio, 12-16). Preços não fornecidos. Inscrições na Wilroy American Language School, avenida Comendador José da Silva Martha, 2-28. Informações: 234-5276 (hoje) e 234-1553 (demais dias).