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Animal de estimação

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Cara de um, focinho de outro

Cara de um, focinho do outro

Parece bincadeira mas não é. Algumas pessoas têm o mesmo comportamento dos seus cachorros de estimação. Isso não quer dizer que eles se cheiram, fazem xixi em qualquer lugar ou são agressivos. O que acontece é o que a veterinária Hannelore Fuchs, especializada em comportamento animal, chama isso de "sincronicidade junguiana", que, inexplicavelmente, faz com que os donos e seus cães às vezes tenham o mesmo tipo de reação em certas situações. Alguns ficam doentes na mesma época e até se acham realmente parecidos fisicamente com seus "totós".

Ele tem orelhas longas, é peludo, tem quatro patas, mas mesmo assim é a cara de Dalva. Loira, alta, 43 anos, a decoradora Dalva Martins Pacheco já foi até confundida com seu amado bicho de estimação, o cocker spaniel Whit.

"Um dia, ele pulou no volante do meu carro e minha irmã, que olhou de trás, disse: 'com toda essa cabeleira loira, pensei que fosse você'. Nós realmente somos muito parecidos", afirma.

Apesar das diferenças naturais óbvias, o homem e seus animais domésticos tornam-se tão familiares que adquirem hábitos, comportamentos e até características físicas em comum.

"É impressionante. Eu tive pedra no rim; ele, na bexiga; depois, tive acúmulo de gordura no fígado e ele, complicação hepática, tudo na mesma época. Não sei explicar por que, mas sempre acontece", diz o administrador de empresas Marco Antônio Fernandes, 39, a respeito de seu rottweiller Zeus, 6.

Fernandes, que tem mais três cachorros, acredita que há uma especial cumplicidade entre Zeus e ele. "Quando encontro uma pessoa que não gosto, ele ataca sem eu dar comando. Parece que me entende, só no pensamento", diz.

A veterinária Hannelore Fuchs, especializada em comportamento animal, chama isso de "sincronicidade junguiana", em que não há coincidências, mas sim uma "força cósmica" que faz com que as coisas aconteçam simultaneamente. "Isso rotula, mas não explica o fato. Parecer com o cachorro fisicamente é folclore, mas, em relação ao comportamento, acontece mesmo", afirma.

Bicho e dono com a mesma doença na opinião do veterinário Oswaldo Pasqualin, também especializado em comportamento, acontece por influência ambiental. "Você vê proprietário e cachorro com problemas de obesidade, por exemplo, porque ambos têm uma alimentação inadequada. Ou com dificuldades respiratórias, pois vivem em uma casa com poeira", diz Pasqualin.

A videomaker Tatiana Calvo, 36, admite que ela e sua dachshund Tuca, 7, têm as mesmas "atitudes". "Somos as duas gordinhas, gostamos de comer". Além de terem manias parecidas, como dormir abraçadas com travesseiro e malhar juntas todo dia. "Acho que ela me observa e repete meu comportamento", afirma Tatiana.

Para a treinadora de cães Sheila Niski, Tatiana está certa. "Parece que o cachorro aprende por mímica: vai olhando e imitando o dono", diz.

No caso do criador de bulldogs Herculano Oliveira, 60, fica difícil distinguir quem imitou quem. Ele e seus 15 bulldogs são tranqüilos, amistosos e "bonachões", como ele memo diz. "Antes eu parecia um gato, agora que estou velho, sou bonachão como um bulldog", brinca.

Ele acredita que o dono vai ficando parecido com o bicho de estimação.

"O (ex-primeiro ministro inglês Winston) Churchill tinha a cara de um bulldog, porque ele tinha um. E não

é só pelo papado, o temperamento também", diz.

"Puxou" ao dono

Não são apenas as madeixas douradas que fazem Dalva

"lembrar" seu cocker Whit. "Ele é elétrico, eu também. Ele é dengoso e eu sou dengosa. Também temos os mesmos costumes", diz.

Whit e Dalva são muito apegados. Passam o dia todo juntos e Whit ainda dorme na cama, deitado no travesseiro.

"Cerca de 40% dos clientes que vêm aqui se parecem com seus cachorros, principalmente em relação à personalidade", conta Valéria de Oliveira, recepcionista da pet shop Clip Dog, em Higienópolis, que atende mais de 100 cachorros por semana, no banho e tosa.

O cabeleireiro Charles Lima, 28, é um deles. Júnior, como chama seu cocker spaniel, "puxou" seu temperamento.

"Como eu, se ele tem sono, dorme onde for, se não gosta de uma música, reclama até que tirem. Ele tem minha personalidade. Sou meio briguento e não sei medir as palavras", conta o cabeleireiro.

Queridinho de Charles, Júnior ganhou uma grande festa de três anos, com serviço de bufê e tema "101 Dálmatas". "Quando fui comprá-lo, queria um poodle micro, mas quando o vi pulando na minha frente, na hora o chamei de Júnior", diz Charles.

Companheiro adaptável

As pessoas escolhem um bicho de estimação que se adapte a elas e não o contrário. De acordo com a treinadora de cães Mara Kanczuk, da Lord Cão, é natural o dono escolher uma raça que apresente um perfil parecido com o dele: se gosta de esporte, elegerá um cão ativo, como o labrador; se é mais sofisticado, vai preferir um bichon frise. "É interessante notar que uma pessoa estabanada, por exemplo, tem um cachorro que quando anda também esbarra nas coisas", conta.

Mas, ela acredita que a convivência é o que torna o cão tão parecido com o dono. "Mais do que a escolha, a convivência o transforma demais", diz.

É como a escolha de um amigo: você escolhe alguém que se parece com você, segundo Denise Ramos, professora de pós-graduação da Faculdade de Psicologia Clínica da PUC, que está escrevendo o livro "Os Animais e a Psique" (Editora Palas Athenas). "O modo como o cão se comporta e se relaciona com os outros é muito parecido com o do seu dono."

É possível saber muita coisa a respeito de uma pessoa por meio do seu bicho de estimação. Denise explica que o animal doméstico expressa o que o seu proprietário não teria coragem de mostrar. Ele capta principalmente as emoções reprimidas e as revela.

"Uma pessoa com uma agressividade reprimida vai escolher um cão bravo, para atacar por ela, e outra, com a afetividade escondida optará por um mais dócil, que vai lamber todo mundo." (D.G./AF)

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