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História da indenpendência

Andréia Alevato Ascari
| Tempo de leitura: 7 min

"Independência é só política", dizem historiadores

"Independência é só política", dizem historiadores

Texto: Andréia A.Ascari

Nas aulas de História você aprendeu que no dia 7 de setembro de 1822, às margens do riacho Ipiranga, em São Paulo, o príncipe-regente do Brasil, Dom Pedro, recebeu uma mensagem de seu conselheiro José Bonifácio, que estava no Rio de Janeiro. Depois de ler a carta, pediu aos membros da comitiva que retirassem de seus uniformes as cores de Portugal e disse: "Independência ou Morte" e que, a partir daí, o Brasil passou a ser uma nação livre.

Mas será que o Brasil é realmente um país completamente livre? Ou será que ele ainda é dependente de outros países quando o assunto é economia? Segundo o professor de História do câmpus de Bauru da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Maximiliano Martin, politicamente, o Brasil é livre. Mas, economicamente não.

"Hoje, a predominância do FBI no país é assustadora. O Brasil está totalmente atrelado ao FMI", afirmou o historiador. Ele explicou que, atualmente, uma das conseqüências do processo político depois da Independência é a democracia. "Acho que nós chegamos a um processo democrático que é louvável porque se tem democracia, eleições, partidos, liberdade de escolha. E isso foi um processo muito difícil e duro, porque no Império, a democracia não existia; na República, muito menos porque analfabeto e mulher não votavam. Com a Constituição de 1988, se deu um avanço significativo e se tem uma democracia. Creio que a democracia política está firmada nos dias de hoje", disse Martin.

Sobre o ponto de vista econômico, o professor afirmou que a história é outra. Mesmo depois da Independência, o Brasil continuou sendo dependente de capitais estrangeiros, porque as pessoas que "forçaram" a Independência, mesmo com mudanças durante todos esses anos, formam a elite que está no poder.

"Economicamente, as coisas não estão tão claras. Na época da Independência, existiam pessoas que queriam ter privilégios e ficar livres do pagamento de impostos para Portugal, e que forçaram todo o processo da Independência. Esses grupos, mesmo com alterações durante o Império, na República e nos dias de hoje, formam uma elite que vem se consolidando no poder. E isso traz problemas porque eles não permitem a distribuição de rendas e a participação social. Com isso, há um impasse que é bastante complexo e delicado: politicamente está tudo bem, mas socialmente há uma série de problemas graves", completou.

Maximiliano Martin disse também que o Brasil ficou para trás porque, num mundo globalizado, a economia e o país estão "nas mãos" de países que têm mais capital e desenvolvimento. Ele explicou que isso acontece porque o Brasil depende da tecnologia de outros países.

"O Brasil se deu mal, porque a economia e o país estão fazendo o jogo dos países que têm mais capital e mais progresso. E, em termos globais, nós continuamos na dependência de tecnologia, de recursos, de matéria prima de outros países, o que é um absurdo", explicou.

Para o professor, depois da Independência, o Brasil teve uma chance de sair dessa dependência econômica. Foi no governo de José Sarney (1985-1988). Agora, a situação piorou porque "o Plano Real é uma receita do FMI".

"Muito do que está acontecendo, se deu no governo Sarney. Naquela época houve uma oportunidade de ouro, porque o governo teve o apoio muito forte da população, já que o PMDB levou tudo nas eleições. Eles não precisavam de acordo com partidos, porque eram maioria. Perdeu-se a chance de mudar economicamente. E a coisa foi piorando. Até chegar o Plano Real, que nada mais é do que uma receita do FMI. Teoricamente, você acaba com os problemas da inflação, você pode planejar e organizar. Mas, por outro lado, você fica sujeito aos interesses desse capital. No mundo globalizado, o país está se dando muito mal", definiu.

Vera Lúcia Pereira Telles Nunes, professora de História e Sociologia da Universidade do Sagrado Coração

(USC), concorda que o Brasil não é independente economicamente, e que isso acarreta problemas sociais. Para ela, houve "uma alienação da população brasileira", em relação aos grandes momentos da história do País.

"A questão social do Brasil hoje é cultural, porque houve uma alienação por parte da população brasileira em geral nos grandes momentos da história do Brasil. E isso está ligado a uma questão ideológica e ao predomínio desses grandes momentos terem acontecido em situações restritas, ligadas a uma classe dominante do país, desde o início da história. E o 7 de Setembro, não querendo minimizar o movimento, deveria ser significativo, não só do ponto de vista ideológico

(a libertação do País de um domínio colonial), mas também uma manifestação popular dessa questão da libertação que não ocorreu. Mais uma vez, foi um movimento de classes dominantes, tramado em situações quase que domésticas, e que realmente não houve participação popular. Isso atestado pelos viajantes que estavam no Brasil na época e que atestaram a apatia do povo brasileiro diante de um fato tão significativo do ponto de vista político, econômico e social", afirmou.

Segundo a professora, o movimento da independência deveria significar o apogeu da cidadania dos brasileiros. Mas isso não aconteceu. Ela disse também que a questão social do Brasil está "gritante" nos dias de hoje porque segue a trajetória que os brasileiros desde a Independência.

"Essa apatia do brasileiro diante de um movimento tão significante que foi a Independência chega até os dias atuais. É muito palpável a questão da cidadania. O 7 de Setembro deveria significar o apogeu da cidadania de um povo. Mas a nossa cidadania hoje não é completa, porque é só uma cidadania de eleger um governante. A cidadania completa implicaria em plenas condições de trabalho, condições dignas de vida, escolaridade para todos e o não trabalho infantil, porque a gente vê, no Brasil inteiro, crianças sendo afastadas de escolas para trabalhar e complementar a renda da família", completou.

Para a professora, os políticos de hoje não fazem a ruptura verdadeira que se desejaria de um domínio nacional de grupos dominantes estrangeiros. "Os políticos de hoje são camaleônicos. Se voltarmos atrás, vemos que os políticos de hoje são os mesmos de 50 anos atrás. E se não são os mesmos, são da mesma família. De acordo com a conjuntura política do país, eles se travestem do discurso que as camadas populares gostariam de ouvir. Na Independência você tinha um grupo português dominando o país. Acaba a Independência, vem a Inglaterra e os Estados Unidos. E hoje, não só os Estados Unidos mais outros grupos dominantes do poder. Os políticos brasileiros fazem a manutenção dessa situação, porque eles se modificam ao sabor das necessidades de eleições e de interesses de interesse de domínio. Mas o que eles realmente fazem é reproduzir um sistema que vem desde a proclamação da República", ressaltou.

Independência de fato demora

O professor Martin acredita que para o Brasil ser totalmente independente vai demorar muito tempo, porque ele está um passo atrás de países mais desenvolvidos. "Eu creio que para o Brasil ser totalmente independente vai demorar muito tempo, porque sempre vai caminhar um passo atrás. A tecnologia é algo fantástico. Quem produz a tecnologia sempre caminha na frente. Quem usa, consome, anda atrás. Hoje, o governo FHC (Fernando Henrique Cardoso) privatizou tudo, então o Estado não tem mais renda, então apela para os impostos. E quem tem a força e o capital, manda. Quem não tem nem força e nem capital, obedece", afirmou.

Para reverter o quadro, o professor acredita que é fundamental que haja uma aliança entre governantes, iniciativa privada e universidades, para que sejam criados pólos tecnológicos avançados. "É fundamental a aliança do Estado com a iniciativa privada e universidades para que sejam criados pólos tecnológicos avançados. Teria que ser uma ação conjunta para dar início a uma reversão nesse processo. Mas com o atual governo isso não irá acontecer. Mas imprevistos acontecem e você não pode controlar. Pode ser que entre um outro governo com uma concepção diferente do atual e implante um processo que pode acelerar a economia", concluiu.

A professora Vera Lúcia também não é pessimista e "vê uma luz no fim do túnel". Para ela, a saída será o medo, a insegurança e a exarcebação da miséria que acabarão obrigando a classe dominante a repensar na postura política, econômica e social do País. "Uma grande parte da população de baixa renda, que não tem acesso à escola, saúde e emprego e vai gerar todo um caos, que é a criminalidade violenta, a mortalidade, e que afeta essa classe dominante que acaba não podendo sair de casa. E é por conta desses excessos que eu vejo luz no fim do túnel. Eu acho que haverá uma terceira alternativa. Quando a classe dominante, que está há mais de 150 anos no poder, tiver medo de sair de casa por causa do caos causado pela classe dominada, ela vai começar a repensar a sua postura política, econômica e social", finalizou.

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