Tuga se desfilia e descarta eleição
Tuga se desfilia e descarta eleição
Texto: Nélson Gonçalves
O ex-deputado federal entregou, ontem, sua desfiliação do PSDB. Tuga garante que não será candidato a prefeito
Menos de um ano depois de confirmar vontade de ser prefeito de Bauru a partir do ano 2000, o ex-deputado federal Tuga Angerami desiste de mais um passo de sua carreira na vida pública. Ontem, o ex-tucano entregou não só sua ficha de desfiliação da legenda como afirmou que abandona a vida pública por um bom tempo e se concentra nos projetos profissionais do professor de psicologia José Gualberto Martins Angerami.
Um dos candidatos com bom potencial de voto nas eleições municipais do ano que vem, Tuga Angerami alega uma soma de fatores para tomar a decisão menos esperada até por alguns de seus adversários: deixar a vida pública. O ex-deputado federal por oito anos, que já tinha deixado com desânimo a praça dos Três Poderes, em Brasília (DF), agora informa que não vai participar das eleições do próximo ano como candidato.
Ontem à tarde, Tuga Angerami entregou a desfiliação do PSDB de Bauru. Tuga garante que não vai se filiar a nenhum outro partido para ficar claro que não estará entre aqueles que partem para a corrida rumo à chefia do Poder Executivo, no Palácio das Cerejeiras. Como a desistência de candidatura surpreende até alguns pessimistas políticos, a pergunta foi feita três vezes para Tuga. Em todas ele afirmou que não dará outra entrevista, antes de outubro, falando em nova filiação.
Ainda comedido em relação à manifestações de sua decisão, Tuga associou um "conjunto de fatores, com motivos pessoais, políticos e até de dificuldade financeira para participar de uma nova eleição". Para ele, a conjuntura não é "favorável, nem viável". Tuga mencionou que conversou, por telefone, com o vice-governador, Geraldo Alckmin, um defensor de sua candidatura
à prefeito por Bauru. "Eu agradeci as manifestações mas sinto que o momento é de cuidar de outros projetos, ligados à minha carreira como professor universitário. Agradeci também aos representantes do PT e PSB, tanto de Bauru quanto do Estado. Os deputados Palloci e o Evilásio me ligaram para falar em filiação e sou grato também", disse.
Sobre a indisposição de um dos grupos que compõem o PT de Bauru, em relação à sua possível filiação, Angerami comentou que não tem restrições nem mesmo com Roque Ferreira. "Eu entendo a posição política do Roque, acho que ele está desempenhando seu papel. Agora eu não estou deixando nenhuma dúvida em termos de nova filiação. Eu deixo a vida pública agora e retomo projetos como professor universitário", comenta.
Apesar do comedimento de Tuga ao sintetizar que sua desfiliação do PSDB e desistência de candidaturas refletem motivos "pessoais, políticos e até de viabilidade financeira para uma campanha a prefeito", a afirmação vem de encontro a dissabores que o ex-deputado teve que enfrentar por posições tomadas ao longo das últimas crises ocorridas no ninho tucano.
A revoada do PSDB, por sinal, com a desfiliação de nomes importantes, foi impulsionada por desencontros com as posições de Angerami. Partiram para outras legendas, insatisfeitos, Caio Coube, Roberto Bueno, Pedro Tobias, Marcelo Borges e, ontem, Ricardo Carrijo. As principais críticas a Tuga Angerami sempre rebatiam à mesma tecla: "personalismo político".
Este personalismo começou a ser mencionado por ex-companheiros de partido de Tuga à medida de posições tomadas sobretudo em períodos eleitorais. Entre os episódios mais comentados foram a desistência de disputar a reeleição como deputado federal apenas alguns meses depois e próximo do pleito, no ano passado; a ausência de participação em decisões e discussões internas dos tucanos; o distanciamento das candidaturas de Ricardo Carrijo a prefeito, primeiro, e depois, de Edmundo Albuquerque à deputado estadual.
Outra crítica que pesou entre os grupos internos do PSDB foi a própria anunciação de que queria ser candidato a prefeito já em outubro do ano passado. Nos bastidores, nem mesmo o companheiro antigo de Tuga, Carlos Ladeira
(atual presidente do PSDB), deixou de mostrar descontentamento durante à eleição para a reeleição de FHC. Enquanto os tucanos distribuíam santinho pró-FHC, Tuga, em plena campanha, disparava como deputado contra a política econômica do presidente de seu partido. Os tucanos não engoliram que Tuga falava como deputado e não como correligionário da legenda. Todos achavam que, naquele momento, se o deputado não concordava com os rumos da economia deveria, pelo menos durante a campanha, se afastar de declarações.
Curiosamente, dos tucanos que fizeram a revoada formou-se dois novos grupos políticos na cidade, que merecem respeito político por sinal. Para o PTB de Oswaldo Sbeghen e Lelo Rodrigues foram os vereadores Roberto Bueno e Rogério Medina
(ex-tucanos) e, agora, Caio Coube e Ricardo Carrijo. Para o PDT foram o deputado estadual Pedro Tobias (exatamente por identificar falta de espaço no PSDB) e Marcelo Borges. O PSDB ainda perde, além de Tuga Angerami, alguns de seus correligionários mais próximos, como Paulo Canalle e João Lourenço.
Não se sabe, ainda, como ficará o ninho tucano, mas fica bem desfalcado. Fiel escudeiro de Tuga, Élio Busch não deu indicações, mas deve permanecer mais com o grupo político do governador Mário Covas, com quem mantém afinidade e relações diretas através da CDHU. Carlos Ladeira é presidente municipal da legenda e também está na CDHU. Um dos grupos mais fortes, junto com a chegada de Natan Chaves, acaba ficando o formado pela bancada do partido na Câmara, exatamente os desafetos que também tinham restrições políticas em relação à Tuga. Um outro problema, por outro lado, pode ser que entre Edmundo Albuquerque, Rubens Spíndola e Antonio Carlos Garmes, todos, sem exceção, já demonstraram interesse em ser candidatos. Agora, o bico parece estar mais acentuado para os lados de Garmes e Spíndola.
As críticas em relação à postura política de Tuga não são segredos no ninho tucano. Então, pensando já na eleição sem o ex-deputado como candidato, é interessante saber que participação Tuga terá no processo do próximo ano. Agora, inclusive, o professor José Gualberto pode ficar mais à vontade para comentar quais são suas avaliações do quadro eleitoral com ele fora da disputa. Se é que dá para considerá-lo neutro.