História, turismo e lixo: um mergulho no Tietê
História, turismo e lixo: um mergulho no Tietê
Texto: Fábio Grellet
Na próxima quarta-feira, é comemorado o Dia do Tietê. Quem se preocupa com o rio, porém, só vai comemorar mesmo quando as autoridades tomarem providências para evitar a poluição que toma conta do Tietê. Outrora, eram os bandeirantes que, para conquistar o interior do Estado de São Paulo e do País, navegavam pelas então límpidas águas do Tietê; hoje em dia, porém,
é a sujeira que avança pelo rio - mas, ao invés de trazer desenvolvimento, como os bandeirantes, causa prejuízos, porque produz distúrbios ambientais e afasta turistas. A sujeira, aliás, já se tornou "internacional": segundo calcula o ambientalista Hélio Palmesan, que mora em Barra Bonita e há aproximadamente 30 anos vive em contato com o rio, o lixo sólido (latas e garrafas plásticas, por exemplo), produzido especialmente na cidade de São Paulo e lançado ao Tietê, já chegou até Buenos Aires, a capital da Argentina, através do rio Paraná. Talvez esses detritos tenham sido o primeiro produto "exportado" através da hidrovia Tietê-Paraná, antes mesmo dela ser viabilizada... Para percorrer os 300 quilômetros que separam o Tietê de São Paulo do Tietê de Barra Bonita, por exemplo, uma garrafa demora três dias, em períodos de enchente, ou até uma semana e meia, com o leito do rio em nível normal. Mais algumas semanas e lá está ela, à vista dos vizinhos argentinos... Se o rio, ao avançar pelo interior, ainda proporciona cenários de rara beleza, o lixo é um problema que preocupa!
Barra começa a sentir sinais da poluição
Texto: Fábio Grellet
As belas paisagens continuam atraindo turistas o ano inteiro, mas, sem a sujeira, o potencial turístico seria muito melhor aproveitado
Embora já tenha sido alcançada pelo lixo sólido composto por garrafas plásticas e latas (que, de qualquer modo, já cruzaram mesmo toda a extensão do rio), a água do rio Tietê em Barra Bonita ainda sobrevive. Palmesan explica que um rio absolutamente saudável tem seis miligramas de oxigênio por litro de água. Essa
é a quantia ideal, e os rios que apresentam esse índice têm suas águas classificadas como ótimas. O Tietê, em Barra Bonita, já foi assim. Depois, foi rebaixado para bom e, hoje em dia, apresenta índice aceitável, que varia entre três e quatro miligramas por litro - o que continua garantindo a sobrevivência dos peixes, como mandiúvas, lambaris, dourados e pintados, e das aves que se alimentam deles, como socós e biguás. Mas a poluição da água vêm crescendo e assusta os ambientalistas de Barra Bonita: a mancha anaeróbia, área em que a quantia de oxigênio na água é menor que o ideal, avançava 15 quilômetros por ano, conforme pesquisa concluída há dois anos, e já está próxima à barragem do rio, em Barra Bonita. A expectativa de Palmesan é que o projeto de despoluição implementado em São Paulo, além da exigência de que as Prefeituras submetam os esgotos municipais a tratamento, antes de lançá-los ao rio, reduzam a velocidade do avanço da mancha anaeróbia. Mas a preocupação se justifica. No Tietê que cruza São Paulo, o índice de oxigênio na água é nulo, correspondente a zero. No trecho do Alto Tietê, esse índice, segundo calcula Palmesan, deve atingir um miligrama por litro d'água, o que não permite a sobrevivência dos peixes.
Além da concentração de oxigênio na
água, outro índice que permite avaliar sua qualidade
é o volume de aguapés existentes no rio. Essa espécie vegetal se prolifera em águas poluídas, porque consegue retirar sua alimentação dos elementos químicos poluentes, que atuam como um adubo para os aguapés. Com o tempo, as plantas vão morrendo e, em sua decomposição, liberam outros gases poluentes. Os aguapés causam ainda outras duas conseqüências danosas: ao se multiplicar na superfície do rio, impedem que o sol invada suas águas. Sem a luz do sol, seres vivos que se mantém submersos, mas realizam fotossíntese (como as algas e alguns vegetais), mais cedo ou mais tarde vão morrer e deixar de fornecer oxigênio à água. Os peixes que se alimentam desses seres vivos também vão morrer, e toda a cadeia alimentar do rio vai estar gradualmente comprometida. O outro problema é que, ao esconder o fundo do rio, os aguapés ocultam madeiras e outros objetos sólidos que podem atingir as embarcações e causar danos consideráveis. Os condutores das barcaças que navegam pela hidrovia Tietê-Paraná têm sido vítimas dessa armadilha, que muitas vezes destrói hélices das embarcações.
Durante o ano passado, a barragem do rio Tietê situada em Barra Bonita também foi vítima dos aguapés. Segundo fontes extra-oficiais, as quatro turbinas da Usina Hidrelétrica, responsáveis pela produção de 134 mil quilowatts de energia por hora, teriam sugado os aguapés que se multiplicaram próximos à barragem e, com os vegetais enroscados em seu mecanismo, permaneceram paralisadas durante cerca de oito meses, ou dois terços do ano passado - período em que não teriam produzido um quilowatt sequer de energia.
Em São Paulo obra já está concluída
Texto: Fábio Grellet
Projeto começou em 92 e já permite tratar 60% do esgoto doméstico produzido na capital; tela de contenção continua só no papel
Em 1992, quando Luis Antônio Fleury Filho (então filiado ao PMDB) era governador do Estado de São Paulo, começou a ser implementado um plano para despoluir o rio Tietê. Uma parceria entre o governo do Estado, através da Sabesp, e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), permitiria aplicar n projeto US$ 1,8 bilhões, dos quais a metade emprestada pelo BID e o restante advindo de recursos próprios da Sabesp. A liberação das verbas seria feita conforme elas progredissem, e o projeto deveria ser concluído em dois anos. Ao final do governo de Fleury Filho, em 1994, apenas 11% das obras haviam sido realizadas. Em 1995, Mário Covas tornou-se governador e renegociou o empréstimo, retomando as obras, que ficaram paralisadas durante os últimos meses do ano anterior.
A primeira etapa do projeto foi concluída em setembro de 1998 e consumiu, ao todo, US$ 2,2 bilhões, sendo US$ 1,2 provenientes da Sabesp e o restante advindos do empréstimo junto ao BID. Foram construídas cinco estações de tratamento de esgoto, 1.760 quilômetros de redes de esgoto, 315 quilômetros de rede coletora e 37 quilômetros de coletores. A capacidade de tratar o lixo doméstico produzido em São Paulo, que se aproxima de 8 mil toneladas diárias, aumentou de 6,2 metros cúbicos por segundo para 17 metros cúbicos por segundo.
As obras físicas que compunham a primeira etapa do projeto de despoluição do rio Tietê estão concluídas, pois, embora a estrutura funcione, atualmente, com 75% de sua capacidade total. A segunda etapa do plano, que deve ter início em breve, destina recursos a projetos de educação ambiental. O objetivo, segundo Malu Ribeiro, é conscientizar a população sobre a necessidade de cuidar do rio, evitando, por exemplo, o lançamento do lixo sólido em seu leito.
Com a conclusão das obras de infra-estrutura, Malu Ribeiro acredita que 60% do esgoto doméstico produzido em São Paulo estão sendo tratados. O esgoto doméstico é responsável por 80% da poluição lançada ao rio Tietê. O restante, apenas 20%, provém de indústrias. Segundo a ambientalista, o lançamento de detritos pelas empresas não significa que elas não estejam realizando o tratamento, exigido por lei, do lixo que produzem. Malu Ribeiro explica que a lei obriga as empresas a realizarem tratamentos superficiais, que não resultam na plena despoluição do rio. Assim, parte dos detritos continua sendo lançado em suas águas.
Um dos problemas que impedem o tratamento de todo o esgoto doméstico produzido em São Paulo é que o projeto foi desenvolvido em 1992, para suportar a demanda existente à época. Diante do crescimento desordenado da região metropolitana, novas áreas próximas ao rio e desprovidas de rede de esgoto foram ocupadas, agravando o problema. Outro problema
é a crescente utilização de produtos inorgânicos, como diversos xampus e cremes de beleza. O tratamento a que é submetido o esgoto recolhido consome os detritos orgânicos, mas não atua sobre os elementos inorgânicos que compõem esses produtos de beleza. Assim, eles são lançados ao rio sem o tratamento necessário.
Apesar dos problemas, a expectativa de Malu Ribeiro é que, caso sejam cumpridas as metas já estipuladas, no ano de 2010 o rio deve oferecer as mesmas condições que apresentava na década de 70.
Tela de contenção
A instalação das telas de contenção dos detritos sólidos, ao longo do Tietê, segundo Malu Ribeiro, é uma exigência que consta de um projeto para rebaixar a calha do rio (isto é, aprofundar seu leito). Aprovado no final do ano passado pelo Consema (Conselho Estadual do Meio Ambiente), o projeto autoriza o rebaixamento do leito, desde que simultaneamente sejam instaladas telas de contenção em cada barragem situada ao longo do rio. As obras de aprofundamento do Tietê estão sendo licitadas. Assim que começarem, deve ter início, também, a instalação das telas de contenção, obra sob responsabilidade do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE),
órgão subordinado à Secretaria Estadual de Recursos Hídricos.
Palmesan lidera ONG
Hélio Palmesan é proprietário de uma empresa que oferece cruzeiros pelo Tietê, na região de Barra Bonita. Ele conta que, no início da década de 70, já trabalhava com navegação quando, em certa ocasião, o rio amanheceu com uma coloração estranha, resultado da presença de grande quantia de peixes mortos, por razão desconhecida. Era, certamente, o primeiro indício da poluição que começava a ameaçar o rio. Diversas pessoas subscreveram um abaixo-assinado que serviu como registro do ocorrido. A partir de então, teve início um movimento que, sem uma estrutura permanente ou um calendário de eventos definido, ficou conhecido como Movimento de Defesa do Tietê. Palmesan era o principal articulador do Movimento e destaca que foram realizadas diversas atividades
- em duas oportunidades, por exemplo, os participantes chegaram a viajar até São Paulo e fizeram um passeio pelo Tietê de lá.
Envolvido nas causas ambientais, Palmesan recentemente criou uma Organização Não-Governamental (ONG) chamada MAE Natureza (MAE, aliás, significa Movimento de Amparo Ecológico), que há três meses começou a atuar efetivamente em defesa da ecologia.
Palmesan e os demais integrantes da ONG planejam implementar diversos projetos já formulados. Um deles visa conservar e ampliar o Parque Ecológico Orlando Chesini Ometto, mantido por uma fundação ligada à Usina da Barra. O Parque abrange uma área de 29 hectares às margens da SP-225, rodovia que liga Barra Bonita a Jaú. Foi fundado em 1991, mas ainda não foi explorado em todas as suas possibilidades. Esse é o objetivo da ONG: reativar o parque de forma a permitir que ele se torne mais uma atração turística de Barra Bonita, além de palco de eventos e estudos ecológicos. Para isso, algumas metas já foram estabelecidas: além das cerca de 10 mil árvores já existentes, outras 20 mil, todas de espécies nativas da região, devem ser plantadas nos próximos cinco anos. As primeiras 500 mudas vão ser plantadas durante evento a ser realizado na próxima quarta-feira (confira programação comemorativa no boxe).
Outro projeto da ONG é reflorestar as margens do rio Tietê nos 30 quilômetros em que ele se estende pela área do município. Para isso, terão de ser plantadas aproximadamente 4 milhões de mudas, também de espécies nativas. A recomposição da mata ciliar (que envolve as margens do rio) tem como um dos objetivos evitar o assoreamento do rio (absorção, pelo rio, das terras devastadas que compõem suas margens e vão se depositando em seu leito, tornando o rio cada vez menos profundo), que já vitima, entre outros, o rio São Francisco - que, segundo Palmesan, em razão do assoreamento tornou-se tão raso que, em alguns trechos, já pode ser atravessado a pé.
Outro projeto da ONG MAE Natureza é criar a Unidade de Conservação da Piataraca, às margens do reservatório da Usina Hidrelétrica de Bariri, em área pertencente aos municípios de Barra Bonita, Jaú e Macatuba. Ali, em razão da retirada de argila pelas indústrias ceramistas, segundo Palmesan, o equilíbrio ecológico foi bastante prejudicado. Através da criação da Unidade, pretende-se reestabelecer as condições naturais de outrora.
Outro projeto da ONG consiste em construir um barco para realizar pesquisas pelo Tietê: seria realizado um acompanhamento constante da qualidade da água, da manutenção da mata ciliar, da existência de peixes e da correnteza de seus afluentes, entre outros. Os estudantes de todos os níveis poderiam utilizar a embarcação como palco de estudos e pesquisas. Para construir o barco e dotá-lo dos equipamentos laboratoriais e de captação de imagens necessários para as pesquisas, seriam gastos R$ 400 mil. A ONG está tentando obter esse valor através de patrocínios de empresas e universidades.
Outro projeto da ONG MAE Natureza é produzir um filme que conte a história do rio Tietê, desde a fundação da cidade de São Paulo, pelo padre José de Anchieta. Embora apresente uma história real, não seria um documentário, mas uma obra de ficção, fiel
à história do rio, em que atores representarão personagens que realmente existiram. A proposta vai ser encaminhada
à Secretaria Estadual da Cultura.
A ONG MAE Natureza também está oferecendo apoio
às empresas que pretenderem criar projetos de conservação da natureza ou quiserem adequar suas atividades, para evitar infrações
à Lei de Crimes Ambientais.
Confira os eventos do Dia do Tietê
Nesta semana, diversos eventos vão ser realizados em Barra Bonita para comemorar o Dia do Tietê.
Na terça-feira, às 9h30, em comemoração ao Dia da Árvore, estudantes das escolas públicas da cidade vão plantar 500 mudas de árvores nativas no Parque Ecológico "Orlando Chesini Ometto", cujo acesso é possível através do km 172 da rodovia SP-255, que liga Barra Bonita a Jaú. Vai ser iniciado, assim, o projeto de reflorestamento do Parque, desenvolvido pela ONG MAE Natureza.
No mesmo dia, a partir das 19 horas, o Panorama Parque Hotel vai sediar um coquetel para recepcionar os ambientalistas convidados a participar dos eventos. Estão sendo aguardados representantes do Núcleo Pró-Tietê, Fundação SOS Mata Atlântica, Área de Proteção Ambiental (APA), Vidágua e outras entidades de proteção ao meio-ambiente.
Na quarta-feira, os eventos começam às 9 horas e acontecem na Praça do Teleférico. Vai ser montado um palco sobre o barco Xumburi, onde as 400 crianças que integram um coral da cidade vão cantar, em homenagem ao rio. Em seguida, acontece a premiação aos vencedores do projeto Verde é Vida, uma iniciativa do Rotary para escolher os dois desenhos mais representativos sobre a natureza, produzidos por aulnos da rede pública de ensino.
Na sequência, deve ocorrer um ato ecumênico, celebrado pelo padre Mário e que deve ser prestigiado por pelo menos mil pessoas. Em seguida, vai ser lido um abaixo-assinado em protesto contra a sujeira encontrada no rio e serão lançados peixes no Tietê. Ao final, vai ocorrer uma apresentação da Batulekada, banda composta pelos integrantes da Legião Mirim de Barra Bonita. O evento deve se encerrar por volta de 11h30.
Durante o evento de quarta-feira, será lançada uma carta que vai ser enviada às Prefeituras e Câmaras de Vereadores dos municípios situados às margens do rio Tietê, sugerindo que cada um deles institua feriado escolar no dia 22 de setembro, para envolver os estudantes em eventos relativos ao rio.
Rio facilitou colonização do Estado
O rio Tietê começa a ter importância na história do Brasil quando uma expedição de desbravadores portugueses desembarcou no litoral do atual Estado de São Paulo. Ao adentrarem pela Serra do Mar, chegaram a um planalto ocupado por índios, que se abrigavam ao longo de um rio. Os índios chamavam o rio de Anhembi, enquanto o planalto era denominado Piratininga. Em razão do fácil acesso
à água, um dos líderes do grupo de portugueses deciciu fundar um povoado. Era o padre José de Anchieta.
O rio, depois, serviu como via de acesso para que os bandeirantes conhecessem o interior daquelas terras.
O Tietê nasce a 60 quilômetros do Oceano Atlântico, em Salesópolis, ao pé da Serra do Mar. Ao invés de correr para o mar, o rio segue em direção ao interior. Quando chega a São Paulo, recebe a carga de poluição produzida na região metropolitana. Depois, conforme se distancia em direção ao interior, volta a ter águas cristalinas.
Ao todo, o rio tem 1.120 quilômetros de extensão e passa por mais de 80 municípios. Termina no município de Itapura, divisa entre os Estados de São Paulo e Mato Grosso, onde desemboca no rio Paraná.
Somando a extensão dos rios Tietê e Paraná, existem hoje em dia 2,4 mil quilômetros de percurso navegável, ligando São Paulo à cidade de São Simão, em Goiás, e até a barragem de Itaipu, próximo a Foz do Iguaçu, no Paraná.
Além de incrementar a economia do país, por se tornar uma via de transporte barata, o Tietê começa a ser explorado de forma mais intensa, hoje em dia, em razão de seu potencial turístico. Muitos municípios situados
às suas margens planejam atrair turistas, anunciando as belezas naturais compostas pelo rio e o ambiente ao seu redor. Embora muitos trechos de sua extensão realmente ainda estejam intactos, outros foram devastados pela poluição produzida nos municípios ribeirinhos - especialmente a cidade de São Paulo.
Para explorar o potencial turístico do rio, esses municípios estão investindo no tratamento do esgoto produzido em cada um deles. Se a recuperação do Tietê acontecer, certamente vai poder ser intensamente explorado (desde que de forma consciente, para impedir nova degradação) pela indústria do turismo, pois oferece recantos de extrema beleza.
Como foi instituído o Dia do Tietê
O Dia do Tietê é comemorado em 22 de setembro, segundo Hélio Palmesan, porque foi nesse dia que o governo do Estado de São Paulo adquiriu a fazenda onde se encontra a nascente do rio, no município de Salesópolis.