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Mulheres nas igrejas

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 8 min

Espaço da mulher nas igrejas ainda é pequeno

Espaço da mulher nas igrejas ainda é limitado

Texto: Adriana Rota

Os espaços são pequenos e, quando existem, ela não usufrui

"Braço direito" de pastores, padres e ministros: esse costuma ser o papel das mulheres nas instituições religiosas. Mas essa realidade vem mudando pouco a pouco, com a luta diária travada por algumas delas para conseguirem ocupar espaços por muito tempo destinados exclusivamente aos homens. Conceitos bíblicos, históricos ou tradicionais embasam os preconceitos, manifestados tanto pelo sexo oposto quanto pelas próprias mulheres.

As restrições para a participação feminina em cargos de decisão nas igrejas parece seguir uma tendência histórica de submissão, que acabou ficando arraigada na cultura de diversos povos. Nas igrejas evangélicas, a justificativa para essa diferenciação tem origem no pecado original, que levou Adão e Eva para fora do Paraíso. Na Católica, existe uma relação com o fato de Jesus ter criado a Igreja e os apóstolos continuado a obra.

A controvérsia, em ambos os casos, é se deve ou não haver uma interpretação do contexto da

época. Ou seja, há quem acredite que os textos da Bíblia devam ser seguidos à risca e, outras pessoas, que pregam uma análise sobre o modo de vida do período em questão. Nesse último caso, conclui-se que hoje não há porque insistir na exclusão das mulheres, comprovadamente capazes de exercer quaisquer funções.

A tese de que o homem é o "chefe da casa", a quem cabe dar a palavra final em todos os assuntos, ainda é um ponto quase inflexível. "A Bíblia fala do homem como sendo o 'cabeça' do lar e essa é uma condição bíblica de autoridade, exercida de forma sacrificial e não impositiva. Não existem duas autoridades numa casa. O meu entendimento é que Jesus resgatou todos os valores morais e espirituais que foram perdidos quando o homem pecou. Isso quer dizer que essa condição de submissão absoluta, que foi uma maldição do pecado, também foi restaurada. A mulher diante de Cristo volta a ter o mesmo valor, estatus e dignidade de quando Deus a criou, ainda que o homem continue sendo autoridade", disse o presidente do conselho de Pastores, Edson Valentin, 39 anos.

Ele ressaltou que, embora no passado a mulher tenha sido vista como um objeto, uma coisa, Jesus a valorizou e que a Bíblia não faz distinção entre os sexos. "Homens e mulheres têm o mesmo valor", afirmou. Apesar disso, considerando-se que em Bauru existem cerca de 300 igrejas evangélicas, que 70% delas estão abertas para o ministério feminino, mas que uma minoria está à frente da igreja, aparentemente a igualdade está longe de ser um fato.

As denominações que tiveram origem nas igrejas tradicionais como Batista, Presbiteriana e Metodista são menos resistentes

às mudanças do que elas próprias. De acordo com Valentin, a maior parte daquelas que aceitam a atuação das mulheres em altos cargos surgiram da década de 50 em diante, acompanhando o processo de emancipação feminina. Nas históricas existem discussões, mas não posicionamentos formais. "Acredito que a conquista tem sido natural e que existe uma tendência generalizada de perceber a importância da mulher em todos os segmentos. Particularmente, sou favorável a uma maior participação".

Embora possa causar estranhamento, as próprias mulheres não sabem como lidar com a "liberdade" quando a conquistam, fato perceptível nas igrejas que permitem sua participação efetiva. O pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Parque Vista Alegre, Hilário Michelini, 56 anos, disse que só no início deste ano, após uma assembléia, é que a denominação passou a admitir mulheres nos postos de pastora e presbítera. Até então, elas só podiam atuar como diaconisa, uma espécie de assistente social, misto de auxiliar geral que faz um trabalho de base importantíssimo na igreja ou missionária, mas sem poder algum de decisão. Podiam, também, participar das reuniões, mas poucas delas o faziam.

"Barreiras quem coloca são as próprias mulheres. A maior parte apresenta resistências contra elas próprias. Acha que é coisa de homem, que muitas situações, por serem mulheres, não vão conseguir enfrentar. Talvez isso continue ocorrendo devido à tradição: o homem esperar a mulher em casa, por exemplo, não faz parte de nossa cultura. Dependendo do marido, ela não pode ser eleita para cargo nenhum. Por outro lado, a mulher sempre aceita as decisões do companheiro. Ambos estão em pé de igualdade, mas é preciso que elas assumam isso sem constrangimento", acredita.

Para a professora de Sociologia e Sociologia da Comunicação do Departamento de Ciências Humanas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Maria Antonia Vieira Soares, a mulher aceitou, historicamente, ser coadjuvante. "Não é por decreto que isso vai mudar. A situação atual é fruto de um processo histórico. Por isso, é preciso dar um tempo para que a mulher sinta-se importante. Não

é de uma hora para outra que ela vai tornar-se sujeito da história. Afinal, a mulher sempre viveu na retaguarda do homem, fosse ele pai ou marido", afirmou.

Igreja Católica

Segundo o padre da paróquia São João Batista e Nossa Senhora de Lourdes, Ednei A. Braga Rodrigues, 50 anos, no Vaticano não existem discussões a respeito da ordenação de mulheres. Além disso, elas próprias

- com raras exceções - não se manifestam pleiteando o direito a esse tipo de atividade. "O que a mulher pode fazer, hoje, é distribuir as hóstias, proclamar a palavra, catequizar, atuar na formação religiosa e nos trabalhos de base dentro da igreja", explicou. O padre faz até uma espécie de mea culpa, com bom humor: "Temos de pedir perdão porque são elas que estão à frente de tudo, enquanto os homens levam a fama. Hoje a mulher tem voz e vez. Não pode ser excluída, tem de tomar posições e assumir seu valor", concluiu.

Exercer altos cargos nas igrejas é desafio

Ana M. Lima Valle, 75 anos, cuida de 12 grupos de obreiros (futuros pastores que visitam lares da comunidade), cultos de oração e jejum, dentre outras inúmeras atividades na Igreja do Evangelho Quadrangular da Vila Industrial. Convertida aos 39 anos de idade através de um programa de rádio, conseguiu levar seu marido - que era espírita - para a igreja, quatro anos depois, e criou seus dois filhos na religião - um deles, o vereador e atual pastor da igreja, Luiz Carlos da Costa Valle.

Começou a freqüentar os cultos e sentiu que deveria conhecer mais profundamente a religião. Paralelamente, desenvolvia diversas atividades dentro da igreja. Em 1975, começou a levar a palavra de Deus a famílias da Vila Industrial, a domicílio, junto com outras duas mulheres. Em menos de um ano, já eram cem. A sede da Quadrangular, então, deu o aval para a construção de uma nova igreja, que foi concluída em 1977. Por 12 anos Ana atuou como pastora, afastando-se por motivos de saúde. Recuperada, voltou a atuar, mas em outros setores, embora ainda faça algumas pregações.

Ela contou sobre as dificuldades enfrentadas naquela época e que ainda hoje existem, principalmente vinda de pastores de outras denominações. "Um dia estava orando pelos enfermos. Um homem aproximou-se e perguntou por que eu fazia o trabalho se a Bíblia dizia que a mulher tinha de ficar calada na igreja. Questionei se ele orava, trabalhava pelos enfermos. Acho que ele desconhecia que Maria Madalena foi a primeira pregadora

- uma prostituta, que Jesus libertou. Faço porque o Espírito Santo ordenou. Quando dá o poder da palavra, não importa se é mulher, homem, jovem ou velho".

A indagação desse homem dizia respeito a uma passagem na qual o apóstolo Paulo mencionou que a mulher deveria permanecer calada dentro da igreja. "Ele falou por causa das fofoqueiras que ficavam cochichando, não que não poderíamos pregar o evangelho". Ana disse, ainda, que a própria Igreja do Evangelho Quadrangular foi fundada por "uma mulher cheia do Espírito Santo", a norte-americana Aimee Semple Mcpherson, em 1920.

A nora de Ana, Ana Cristina Rodrigues Valle, 43 anos, atua como pastora-auxiliar na mesma igreja. Coordenando reuniões, estudos, visitas, grupos missionários, para citar apenas algumas atividades, ela diz estar sempre se atualizando, mas não tem planos de tornar-se pastora. "É muita responsabilidade. Se vier a acontecer tudo bem, mas não pretendo". Na sua opinião, as mentalidades estão se abrindo, o que faz com que se sinta à vontade em seu campo de atuação, embora reconheça que existe discriminação.

"Mas isso ocorre em todos os setores", destaca.

A estudante do curso médio de Teologia, Silvana Gomes Moraes, 41 anos, também não pretende atuar como pastora, função que, na sua opinião, depende de uma decisão muito séria. "Ele é como um médico, mas um médico de almas", comparou. Ela disse estar estudando por gosto e para obter mais conhecimento, pretendendo seguir o curso também em terceiro grau. Participante ativa da Igreja Metodista da Vila Ipiranga, às vezes acaba atuando também como pastora, "por falta de mão-de-obra especializada", segundo ela. Silvana acredita que não haja discriminação no meio evangélico. Quanto

à submissão, explica que a mulher não foi criada para ser escrava, "para estar aos pés do homem", mas estar a seu lado. "O marido tem de ser o 'cabeça' do lar, assim como Cristo é o 'cabeça' da igreja", opinou.

Questionada sobre quem manda em sua casa, a pastora da igreja Metodista de Tibiriçá, Angélica Leite de Freitas respondeu, com um sorriso maroto: "Os dois". Dona de uma personalidade forte, aos 87 anos ela continua tocando a obra a qual deu início há exatos 34 anos e 7 meses, como gosta de destacar. "No tempo em que me formei, mulher era só do lar. Agora não, elas são ministras, governadoras... E na igreja a cada ano se formam mais mulheres. Só falta a consciência de que todos temos a mesma função, mesmos direitos e deveres", ensinou.

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