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Saúde bucal

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 5 min

Alunos da FOB criamprojeto de saúde bucal para carentes

Alunos da FOB-USP criam projeto de saúde bucal para população carente

Texto: Patrícia Zamboni

Os alunos do primeiro ano da Faculdade de Odontologia de Bauru

(FOB-USP) estão dando um exemplo de cidadania. Da vontade de usar o conhecimento universitário para ajudar a população carente da cidade, surgiu o projeto USPerança, que está sendo desenvolvido em parceria com alunos do curso de pós-graduação da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu.

De acordo com a doutora Nilce Tomita, professora e coordenadora da área de saúde coletiva da FOB-USP, quando a idéia surgiu o objetivo era escolher um bairro de nível sócio-econômico baixo para fazer um trabalho de saúde bucal com crianças abaixo de sete anos de idade. "Nós achávamos que iríamos montar um grupo com cerca de dez pessoas, mas rapidamente mais e mais participantes foram aderindo à iniciativa e acabamos formando um grupo com 27 voluntários", afirma a doutora Tomita. O bairro escolhido, após estudos feitos pelos alunos e professores, foi a Pousada da Esperança I e II. Para a concretização do projeto, a Associação dos Moradores do bairro está dando total apoio ao grupo.

Começou, então, um trabalho de treinamento dos "alunos entrevistadores" através dos supervisores do projeto, que são o professor Luís Roberto de Oliveira (Unesp-Botucatu), Rosângela e Eliane (do Laboratório de Saúde Coletiva da Unesp), Márcia e Vera Porto (alunas de mestrado da Unesp), Renata Pernambuco (aluna de mestrado da FOB-USP) e a doutora Nilce Tomita. Com o grupo treinado, a primeira atitude prática foi seguir até o bairro e iniciar um censo populacional. Cada aluno visitou cerca de 100 casas para conseguir, junto aos pais, informações sobre como é feita a higiene bucal de seus filhos. Nas entrevistas foi aplicada a mesma metodologia utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e aproximadamente 2.000 domicílios foram percorridos.

De acordo com as alunas Fernanda Lourenção Brighenti, Melissa Thiemi Kato, Daniella Borgo e Gabriela Gennaro, participantes do projeto, quase a totalidade das mães entrevistadas disseram que seus filhos têm dor de dente, mas pelo fato da Pousada da Esperança não contar com posto de saúde, o acesso ao atendimento na área odontológica é difícil para os moradores. "Eu conversei com uma mulher que tinha um filho de quase quatro anos de idade que nem tinha escova de dentes. Eles precisam de muita informação a respeito de higiene bucal", comenta Daniella Borgo. Porém, as quatro alunas foram unânimes em dizer que na maioria das casas visitadas as mães se mostraram muito interessadas em aprender qual a forma correta de cuidar dos dentes das crianças.

"A Pousada da Esperança é um bairro que possui uma população organizada, tem uma certa-infra-estrutura com tratamento de água e esgoto, segundo a Vigilância Sanitária a água que abastece a região é fluoretada, mas não tem um núcleo de saúde. Então, o acesso das pessoas à assistência odontológica e médica é bem precário.

É visando colher informações para um diagnóstico e para um futuro planejamento na área de saúde que nós estamos realizando essa pesquisa", observa a doutora Nilce.

Processo delicado

A principal intenção do grupo é fazer um diagnóstico com mapeamento da situação de saúde bucal das crianças com menos de sete anos de idade moradoras da Pousada da Esperança I e II e apresentar os resultados à Secretaria Municipal de Saúde para propor uma parceria na elaboração de programas educativos e preventivos direcionados à população daquele bairro. Mas a doutora Nilce faz questão de deixar claro que este é um processo lento e que ainda está dando seus primeiros passos. Por isso, orienta cuidadosamente os alunos para que não criem falsas expectativas nos moradores. "Nosso objetivo é beneficiar a população e isso vai de encontro aos habitantes da Pousada da Esperança pelo fato do bairro não possuir um núcleo de saúde. As pessoas reclamam que para ter atendimento precisam ir até o posto de saúde da Vila São Paulo, que é o bairro vizinho. Mas a Vila São Paulo também é muito populosa, e por isso o acesso ao atendimento é bastante complicado", explica a doutora Nilce Tomita.

O que se pode garantir de imediato é que no que depender deste grupo todos os objetivos serão alcançados, pois a vontade de seguir em frente e de levar ajuda à população está presente no coração e nos ideais de toda a equipe, sejam alunos de graduação, de pós-graduação, professores e até mesmo voluntários de outras profissões, como assistentes sociais.

Projeto

O projeto USPerança pode estar apenas começando, mas é de grande valor e importância para a cidade. De acordo com o professor titular de Odontologia Preventiva da FOB-USP, doutor José Roberto de Magalhães Bastos, o estudo mais recente realizado em Bauru para apurar a incidência de cárie revelou números muito preocupantes. A média local é de 3,42 dentes cariados por pessoa, enquanto que a média brasileira atual é de 3,12. O levantamento

é realizado com crianças de 12 anos, idade específica para a identificação do índice de cárie apontada pela Organização Mundial de Saúde

(OMS).

Segundo o doutor Bastos, a meta da OMS é chegar ao ano 2000 com a média inferior a 3,0 dentes cariados por pessoa. Na opinião do professor, o Brasil tem chances de alcançar essa média até o próximo ano, mas em Bauru não há expectativas disso acontecer. "Em Bauru o índice ainda é alto, por isso eu não acredito que seja possível alcançar o índice previsto pela OMS até 2000", observa o doutor Bastos.

Para o professor, a frustrante política municipal de saúde dos últimos anos é a grande responsável por essa situação. "As administrações anteriores foram deficientes nessa área. Programas de saúde são lentos, por isso não pode haver essa demora na busca de soluções porque aí a situação se complica cada vez mais. Para a resolução do problema da cárie dental precisa ser adotada uma política municipal de saúde bucal", argumenta o professor. Doutor Bastos acredita que o poder público tem a obrigação de adotar medidas amplas de ação para prevenir os problemas. Ele sugere a formação de uma comissão bancada pela prefeitura com pessoas que façam o controle de qualidade da água, por exemplo. Outra saída seria a criação de um programa de escovação supervisionada, o que já existe em outras cidades. "Precisamos de um programa sério para conter a cárie dentária em Bauru", conclui o professor.

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