Bactéria é polêmica entre os médicos
Bactéria é polêmica entre os médicos
Texto: Sabrina Magalhães
A incidência de úlceras e cânceres está diminuindo nos últimos 50 anos. Alguns atribuem a queda a melhores condições de higiene
Uma bactéria chamada Helicobacter pylori tem causado controvérsia entre os especialistas. Descoberta há cerca de 10 anos, vem sendo considerada por alguns a única responsável pela proliferação de úlceras e tumores. Para esses, a erradicação da bactéria seria o fim destes problemas. Outros profissionais, no entanto, garantem que continuam usando o tratamento convencional (sem adotar os antibióticos contra o germe), com os mesmos bons resultados. Uma polêmica que precisa ainda de muitos anos de estudo para que se chegue a uma conclusão.
Para a gastroenterologista Ângela Aparecida Figueiredo, o H. pylori deve ser visto como um "divisor de águas" no estudo da Gastroenterologia: "Hoje você divide a história da gastrite e da úlcera em antes e depois do Helicobacter. Hoje nossa preocupação é identificar se a lesão envolve ou não a bactéria, porque o Helicobacter foi estabelecido como causa tanto de gastrites quanto de úlceras". Ela explica que o que causa as
úlceras é um desequilíbrio entre os fatores que agridem e os que protegem a mucosa e que o Helicobacter age exatamente provocando uma retrodifusão de ácidos dentro do estômago.
Menor incidência
"Tanto o câncer gástrico quanto a úlcera péptica estão numa incidência decrescente nos países desenvolvidos desde a década de 40. Nós acreditamos que isso seja em decorrência da diminuição da própria bactéria. Descobriu-se que ela causa alterações na produção de ácido pelo estômago, levando à úlcera ou ao câncer gástrico. Então, com o tratamento da água, do esgoto, a difusão das noções de higiene, a higiene alimentar, enfim, condições sanitárias, a bactéria tem diminuído muito e as doença vão desaparecendo", comenta o gastroenterologista Márcio Matheus Tolentino.
Segundo ele, esta diminuição na incidência das doenças é realidade nos países de primeiro mundo. E uma novidade: o estado de São Paulo já mostra números equivalentes. "Um levantamento realizado pela Unicamp, pelo professor Murilo Zaitung, ainda não publicado, mas apresentado há duas semanas num congresso, mostra que o estado parece estar se comportando como os países de primeiro mundo. Desde a década de 40 nós estamos com úlcera e câncer em decadência (...) Para se ter uma idéia, nos países desenvolvidos a incidência de Helicobacter é de 30%, enquanto que no Brasil 70% da população é portadora da bactéria."
Controvérsia
Apesar de alguns estudos apontando para as conclusões citadas por Tolentino e Figueiredo, uma parte dos especialistas continua tratando seus pacientes com as medicações convencionais e, portanto, sem a prescrição de antibióticos. Conforme o gastroenterologista Ricardo Lia Mondelli, há escolas que apostam na bactéria como responsável pelas doenças e há escolas que contestam veementemente esta tese. "Sem dúvida, o H. pylori existe, está lá, mas provavelmente como mais um fator agressor e muitos o estão creditando como fator predisponente tanto de úlceras quanto de tumores de estômago."
Ele comenta que participou de um estudo, publicado na revista inglesa "The Lancet" há cerca de três anos, que desmonta a teoria do Helicobacter. Uma equipe do Serviço de Cirurgia do Hospital São Francisco, de Ribeirão Preto tratou um grupo de pacientes com uma cirurgia que, em poucas palavras, diminui radicalmente a produção de ácido pelo estômago. De acordo com Mondelli, com esse procedimento as úlceras cicatrizaram. "Cinco anos depois da cirurgia, 100% desses pacientes não tiveram recidiva de úlcera, quer dizer, estavam bem operados. Destes pacientes, 97% tinham H. pylori positivo. Onde está a úlcera? É ele que produz a úlcera? E eles estão recomendando o uso de antibióticos para tratar úlceras e tumores. Ficamos com o pé atrás."
H. pylori: Estudos continuam
É unânime a afirmação entre os especialistas de que ainda serão necessários muitos anos de estudo para se saber qual é realmente a influência da bactéria Helicobacter pylori no desenvolvimento de úlceras e cânceres gástricos. Atualmente, pesquisadores de todo o mundo estão fazendo experiências tanto para provar quanto para desmentir a teoria de que ela seria responsável pelas patologias.
Na opinião de Ricardo Lia Mondelli, os bons resultados obtidos até agora com a antibioticoterapia têm poucos anos, ou seja, não houve recidivas, mas ainda não
é possível saber se haverá em dez anos, tempo médio para o reaparecimento de úlceras tratadas pelo método convencional.
No entanto, Márcio Matheus Tolentino observa que o H. pylori
é o que há de mais moderno no assunto e que se realmente for assim, em cerca de cinco anos a Medicina já terá desenvolvido uma vacina contra o germe. "Provavelmente crianças de até cinco ou dez anos de idade serão vacinadas e não terão mais a bactéria. Prevê-se que em aproximadamente 50 anos, câncer e úlcera de estômago serão doenças do passado." Ele destaca que os estudos estão só no começo e que Bauru é um dos pólos destas experiências, abrigando o Núcleo Brasileiro para o Estudo do H. pylori, um dos nove centros nacionais de pesquisa sobre a bactéria.
"A infecção por Helicobacter é uma coisa muito nova, a descoberta tem cerca de dez anos, não temos nada com 20, 30 anos. Coisas que a gente sabe que são definitivas têm esse tempo de avaliação. Quando fazendo residência na Unicamp, fizemos um estudo comparativo, um grupo tratou de úlcera só com antibiótico e outro com antibiótico e os medicamentos convencionais. Do grupo tratado só com antibiótico, 50% dos pacientes tiveram suas úlceras cicatrizadas. Mas tudo isso ainda precisa ser muito investigado para que se estabeleçam critérios seguros de como se tratar isso", conclui Ângela Aparecida Figueiredo.