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Maus-tratos

Adriana Amorim
| Tempo de leitura: 5 min

Crami registra maior índice de maus tratos no Jaraguá e Geisel

Crami registra maior índice de maus-tratos no Jaraguá e Geisel

Texto: Adriana Amorim

O Parque Jaraguá e o Núcleo Geisel são os bairros de Bauru onde o Centro Regional de Atenção aos Maus-Tratos à Infância (Crami) registra o maior número de agressões contra crianças e adolescentes no ambiente familiar. Um levantamento feito pela entidade mostra que a periferia ocupa os primeiros lugares em quantidade de registros nos últimos 11 anos.

Os bairros onde a infra-estrutura básica é precária e o grau de instrução dos moradores é pequeno ocupam as primeiras posições na estatística do Crami. Entre eles, a Ferradura Mirim, a Pousada da Esperança e o Parque Santa Edwirges.

As dificuldades financeiras, o desemprego e a falta de infra-estrutura são fatores que tradicionalmente colaboram para o aumento da agressividade e da violência. Os pais, sem perspectivas de vida, acabam permanecendo mais tempo dentro de casa junto com os filhos, o que aumenta a possibilidade de agressão.

Além disso, a proximidade entre as residências faz com que o vizinho saiba mais sobre a vida alheia e tome a iniciativa de fazer as denúncias quando escuta ou presencia algum tipo de violência. A assistente social do Crami, Rosemeire Cristina Alves, acredita que esse é o caso do Parque Jaraguá.

"Muitas casas não têm nem muros e a estrutura das moradias são frágeis, o que faz com que muita gente perceba o que está acontecendo na casa do outro e faça a denúncia", explica.

A situação do Parque Jaraguá se aplica a outros bairros que apresentam as mesmas características estruturais e populacionais. No caso do Núcleo Geisel, a informação pode estar fazendo a diferença. A assistente social da entidade explica que o bairro manteve, durante vários anos, um grupo de apoio que atuava junto

à associação de moradores no combate à violência doméstica. "Através das palestras e das informações, acrecito que os moradores tenham ficado mais conscientes da importância da denúncia e continuem registrando com frequência", argumenta.

Fora da periferia

Mas a violência dentro do ambiente familiar não é uma especificidade da periferia. Embora a estatística mostre que os registros são mais comuns nos bairros mais carentes, as crianças e adolescentes também são agredidos em regiões onde o poder aquisito é mais alto.

Nesses lugares, o Crami constata uma menor quantidade de ocorrência. Em 11 anos, foram registrados apenas quatro casos no Altos da Cidade e sete no Jardim Europa, um dos poucos bairros de classe média-alta que constam da relação. Mas isso não significa que essas regiões se mantenham tão distantes da periferia.

A psicóloga e terapeuta familiar Dalva Taboriansky ressalta que a violência praticada dentro de casa muitas vezes não sai do ambiente doméstico de famílias de classe média e alta porque os membros temem a repercussão do caso. "A incompreensão, a violência, a agressividade e a falta de estrutura familiar acontecem em qualquer camada social", explica.

Ela diz que, embora os fatores sociais, econômicos e educacionais baixos sejam desencadeadores da violência, as frustrações que normalmente a originam estão presentes em qualquer lar. Quando uma mãe de uma família de classe média está frustrada por não ser valorizada pelo marido, por exemplo, pode se tornar agressiva com os filhos.

Nos bairros mais carentes, no entanto, as dificuldades de entendimento na família são maiores. A falta de dinheiro muitas vezes leva os pais a encontrar no álcool um anteparo para as frustrações e o vício acaba se tornando um fator agravante na prática da violência. "É aí que a criança chora por carência de carinho e atenção, os pais não entendem e maltratam o filho", explica. Em qualquer caso, no entanto, Dalva diz que o diálogo é a melhor maneira de evitar desentendimentos e agressões, além de resgatar a relação familiar.

Iniciativas tentam ajudar e conscientizar as famílias

O Centro Regional de Atenção aos Maus-Tratos à Infância (Crami) aposta nos projetos de assistência

às famílias e nas palestras para interromper e evitar o ciclo da violência familiar. Algumas atividades são desenvolvidas através de parcerias.

Há mais de cinco anos, um trabalho cojunto da entidade com os Correios oferece capacitação profissional a adolescentes que fazem parte de famílias acompanhadas pelo Crami. Eles são empregados pelos Correios, de quem recebem salário, cesta básica e vale-transporte. Da entidade, continuam recebendo orientação social e psicológica.

Além disso, doze famílias escolhidas devido à gravidade da violência praticada e à carência financeira recebem mensalmente uma cesta básica doada por funcionários do Banco do Brasil. Voluntários se encarregam também de oferecer cursos de artesanato que funcionam como alternativa de geração de renda.

"Além disso, aumentam a auto-estima das pessoas", diz a assistente social do Crami, Rosemeire Cristina Alves.

Crianças e adolescentes acompanhados pela entidade também recebem orientação na horta comunitária da Vila Dutra. A intenção do Crami é implantar grupos de apoio em dois bairros onde o número de registros de agressão no ambiente familiar é elevado. A entidade prepara projetos que devem ser aplicados no Núcleo Fortunato Rocha Lima e no Parque Jaraguá.

A idéia é levar palestras nesses bairros a cada 15 dias para intensificar as informações. "Nós vamos ter que motivar os moradores a comparecer, o que não

é fácil, mas pode ter um resultado muito bom porque o assunto permanece fresco na cabeça das pessoas", explica Rosemeire.

Além dos projetos, ela ressalta que a população também pode colaborar para a queda da violência familiar ao fazer denúncias. O Crami pede a colaboração de escolas municipais de educação infantil (Emeis), creches, escolas e núcleos de saúde, locais frequentados pelas famílias e onde podem ser detectados problemas. "As escolas são muito importante porque ao notar mudança no comportamento do aluno podem estar descobrindo um caso de agressão".(AA)

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