Tese relaciona afetividade e moradia
Tese relaciona afetividade e moradia
Texto: Marcos Zibordi
Estudo sobre percepção afetiva foi realizado em núcleo habitacional de Pederneiras
Pederneiras - O que cria a relação de afetividade entre morador e moradia? E entre os moradores de um lugar? Ou, quais são os aparatos urbanos que tecem esta relação num núcleo habitacional? Para responder estas perguntas, a geógrafa Linia Garrone estudou durante quatro anos a vida e os costumes dos moradores do núcleo habitacional Michel Neme, em Pederneiras.
O estudo levou em consideração a subjetividade, ou seja, o que significa para o morador aquele lugar e quais os laços de afetividade que o fazem componente daquela comunidade.
A pesquisa resultou na tese de mestrado "Lugar e afetividade: um estudo sobre a percepção dos moradores de um núcleo habitacional", que foi defendida este ano na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru na área de Planejamento Urbano e Regional sob a orientação da doutora Ana Maria Marques de Almeida.
Segundo a pesquisadora, o núcleo habitacional Michel Neme surgiu em função de uma empresa multinacional que veio para Pederneiras na década de 70. A Norte-Americana
"Clarck" teve sua fábrica instalada e do outro lado da avenida surgiu o núcleo, onde muitos funcionários da empresa residiam. Esta afetividade histórica com a empresa resulta em que até hoje o núcleo é conhecido como vila da "Clarck". "Os moradores iam fazer piquenique no pátio da empresa aos finais de semana", aponta a pesquisadora.
O interesse pela pesquisa também surgiu de uma relação de afetividade. "Surgiu quase que um namoro. Eu passava de carro, olhava os lugares, as praças, as pessoas nas ruas, nas esquinas".
Com cerca de 30 anos, a "vila da Clarck" não tem mais a imagem daquele monte de casas iguais, sem infra-estrutura e asfalto nas ruas. O planejamento dessas residências, naquela
época, previa casas de dois, três e até quatro quartos. Atualmente, com as reformas e melhorias dos moradores, cada um pode sentir-se individual em relação, pelo menos, ao seu espaço íntimo. "Você entrega no padrão mas com o passar do tempo o morador vai dando outra cara para a casa. Isso é a criação de um laço de afetividade. Você coloca uma janelinha e pinta de verde, uma paredezinha de laranja", explica a pesquisadora, que vê neste processo histórico a criação de laços de afetividade na descaracterização do padrão e na implantação de características individuais.
A diferença entre individual e individualismo explica o processo de construção afetiva. Os núcleos compartimentados com casas minúsculas ou favelas verticais padronizadas são o retrato do individualismo desumano reinante que, de resto, caracteriza todo o sistema capitalista que os cria. Os toques de individualidade de cada morador são, ao contrário, geradores de relações comunitárias, facilitadores de contatos afetivos e humanos e, historicamente, cumprem a função de irem, a cada detalhe mudado na arquitetura, desconstruindo o aparato ideológico que impõe uma socialização
"arquitetada para tal fim".
Mecanismo afetivo
Detectar o mecanismo de efetividade é falar de uma reação interior. No entanto, esta "teia de subjetividade" é construída na relação dos moradores com os objetos exteriores do núcleo.
Quando se vai morar num novo bairro, ele é simplesmente um emaranhado de "coisas" novas que serão decifradas e incorporadas. "Até você falar isso aqui é o meu lugar, leva um tempo histórico, mas também um tempo interior".
A praça central, o bar, o truco, o palitinho ou dominó e a cervejinha rolando, mesmo quente. Para a pesquisadora, esses elementos são chamados de "amenidades", fatores que colaboram para a relação maior e melhor entre as pessoas.
Apesar da infra-estrutura facilitar a melhora da qualidade de vida, para as relações de afetividade pouco importa se o bairro tem ou não asfalto, se as enchentes deixam os barracos em perigo iminente ou se pode ocorrer uma chacina na madrugada. Emprestar um copo de óleo do vizinho sempre será uma relação de afetividade presente em qualquer meio, por mais hostil que possa ser. "Percepção
é extrair significados, interpretar as sensações que aquilo que eu vejo provoca em mim", define a pesquisadora.
No caso do núcleo em Pederneiras, muitas "amenidades" e o tempo de história facilitam as relações das pessoas para com as pessoas e delas para com o lugar. Garrone destaca o tratamento de esgoto, os orelhões, posto de saúde, transporte, asfalto, iluminação pública, coleta de lixo, escolas, praças, a igreja, o salão paroquial com seus cursos e a associação de moradores como sendo os elementos que geram a estrutura possível para a criação e manutenção de laços de afetividade e reivindicação política. Nestas condições, a tranqüilidade e a irmandade podem nascer e se consolidar.
A crítica da geógrafa ao posicionamento dos poderes públicos em relação aos moradores serve de lição para qualquer administração. Segundo ela, os administradores devem pesquisar, perguntar aos moradores o que eles querem, vivem, pensam e aspiram. "Para que eles possam perceber que antes de se pensar em número de casinhas, se pense numa proposta de que junto com estas casas venham também propostas para que estes espaços sejam espaços habitáveis, espaços públicos de reivindicações para que eles participem. A fala do morador tem que chegar ao poder público".
Associação dos Moradores é espaço de reivindicação política e criação de laços entre a comunidade