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Adolescência

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 9 min

O jeito adolescente de ser

O jeito adolescente de ser

Eles normalmente são chamados de "rebeldes sem causa" por suas atitudes radicais, pelas roupas e gírias que utilizam e também pelas suas companhias. Porém, nem todos os adolescentes fazem parte deste perfil. Enquanto muitos andam em gangs e espalham violência pelas grandes cidades, outros já enfrentam desde cedo o mercado de trabalho, dividem responsabilidades com os pais econcentram-se entre trabalho e estudo, deixando a diversão para os finais de semana.

Auto-intitulados de "incompreendidos", os adolescentes, jovens entre 10 e 19 anos, atravessam por inúmeras transformações na adolescência, a começar pelas físicas. As meninas passam a usar sutiã, enfrentam a primeira menstruação

(tornam-se "mocinhas"), nascem os primeiros pêlos pubianos e os meninos, antes seus maiores inimigos, tornam-se alvos de suas fantasias românticas. Isso sem falar nas espinhas, que insistem em transformar os "rostinhos de bumbum de bebê" em alvo de cutucões e infecções.

As mudanças físicas nos meninos também têm suas semelhanças com as das meninas. Os pêlos crescem, a voz engrossa, tornam-se mais altos, tem início o interesse sexual pelas meninas e, em conseqüência de tantos hormônios em ebulição, as crises de mal-humor e a inexplicável

"rebeldia", surgem sem qualquer motivo aparente.

Os pais, muitas vezes não conseguem ou não sabem lidar com os seus "anjinhos" que, de repente, tornaram-se

"diabinhos". Eles falam

palavras que não se encontram nem mesmo nos melhores dicionários. As

roupas parecem ser 3 ou 4 números maiores do que eles usariam normalmente e o visual "desleixado", deixam as mães de cabelo em pé. As brigas passam a ser freqüentes e a preocupação com as companhias, com as notas na escola, com drogas e violência passam a fazer parte do dia-a-dia dos pais.

Os adolescentes explicam: "Nossos pais não percebem que não queremos mais colocar as roupas que eles querem que a gente use, que a gente não quer mais sair com eles e que tudo é melhor quando estamos com os amigos e longe dos olhos deles", afirma o estudante Marcelo Neves, 17 anos.

"Eles acham que a gente não cresce nunca. Ficam no pé da gente, tratando a gente igual a criança", reclama.

Os pais se defendem: "Nós já passamos pelo que eles estão passando e sabemos hoje, anos depois, que quando éramos adolescentes, não sabíamos de nada. Apenas nos achávamos espertos", diz Arlete Neves, mãe de Marcelo. "Acredito que nosso maior erro

é tentar fazer com que eles não sofram as coisas que sofremos. Com isso, nos tornamos chatas, repressoras, mas

é apenas superproteção."

Trabalho

Adolescência não é doença. Por isso, nem todos os jovens dentro dessa faixa etária passam por esse processo. Muitos passam pela idade sem mesmo que os pais percebam. A transição de criança para adulto acontece naturalmente, sem traumas.

Mas, para a maioria dos pais, felizardos são os que não têm um adolescente dentro de casa. "O Marcelo me dá muito trabalho", reclama Arlete. "Minha filha, hoje com 26 anos, foi complemente diferente. Acho que é característica dela. Ela sempre foi bem humorada, alegre, companheira, até mesmo na adolescência. Nem senti essa fase passar".

A filha de Arlete, Mariana, começou a trabalhar aos 15 anos. "Ela decidiu que queria ganhar o dinheiro dela para comprar as roupas que gostava e não precisar mais pedir mesada para o pai", orgulha-se a mãe. "Fez ficha numa loja de roupas e foi trabalhar como vendedora. Foi a melhor coisa que ela fez, aprendeu o valor do dinheiro e não teve tempo para se rebelar", brinca Arlete.

Assim como Mariana, muitos adolescentes são obrigados a procurar emprego muito cedo para ajudar no orçamento familiar. A maioria deles arrumam emprego como office-boy, secretária, vendedores, monitores de acampamentos, animadores de festas infantis, ou decidem montar uma banda de rock. Se a opção escolhida for a última, entram os pais de novo para reclamar. Dessa vez, o alvo é o volume do som. As músicas, normalmente rock ou rap e até mesmo heavy-metal, para os meninos; e para as meninas, algo em torno de Ricky Martin ou Backstreet Boys.

Gangs

Entre os motivos que têm aumentado a violência em grandes cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo, estão as atitudes das gangs formadas por adolescentes, normalmente de classe média. O perfil desses jovens é quase sempre o mesmo, uma espécie de condição para se entrar na turma: lutadores de artes marciais (principalmente o jiu-jitso), armas de fogo na cintura e, quase sempre, acompanhados por cães ferozes, como os da raça Pit Bull.

O motivo para tanta violência não existe. Um simples mal-entendido, como esbarrar sem querer em alguém da "turma", pode terminar em tragédia. Muitos pais sequer desconfiam das atitudes dos filhos. Durante o dia são jovens estudantes, alguns trabalhadores, e à noite, depois de alguns copos extras de bebida ou também drogas, esses jovens tornam-se violentos e até mesmo assassinos.

Mas o grande consolo dos pais de adolescentes é que essa fase passa. Com o tempo, seus filhos começam um namoro mais sério, passam a se preocupar com a estética, com os problemas normais de qualquer adulto, até que se casam, têm seus filhos e a história começa a se repetir. É a hora que eles conseguem entender pelo que passam os pais de filhos adolescentes. (P.R./AE)

Entendendo o "mundo" adolescente

"A adolescência é um fascinante estágio da vida". A definição é do psicoterapeuta americano Michael Riera, conselheiro na San Francisco's University High School. Para ele, esta fase não deve ser motivo de temor para os pais. O ideal, diz, é ficar atento a aspectos positivos característicos deste período, como a busca e o crescimento. Porém, completa, muitos pais não entendem bem esta

passagem. "Os pais precisam de uma tradução desse período, que faça sentido para eles e que seja útil. Freqüentemente, os pais dos adolescentes sentem um profundo isolamento", confirma.

Autor de "Filhos Adolescentes - Um Jeito Diferente de Lidar"

(Editora Summus), Riera destaca que a maneira pela qual os jovens se comportam é ditada pela visão específica que este grupo tem do mundo. Entretanto, uma postura diferente da dos pais. É aí que tem início o famoso

"conflito de gerações". No entanto, completa o terapeuta, os adolescentes não querem um relacionamento de adversários, do mesmo modo que os pais também não o desejam.

Se na infância o filho encara os pais como figuras protetoras, na adolescência eles (os pais) assumem uma postura invasiva e controladora. "Que mudança de perspectiva! Na verdade,

é uma mudança tão radical que os adolescentes não conseguem focalizar aquilo que os pais desejam para eles; eles tendem a focalizar, exclusivamente, o comportamento negativo e restrito dos pais", pondera. Em contrapartida, Riera verifica que basta apenas uma certa dose de estímulo e paciência para que os jovens compreendam que a inversão de papéis por parte dos pais não foi algo deliberadamente escolhido.

Estabelecendo parcerias

Quando os adolescentes entendem isso, completa o terapeuta, eles também sentem que podem ajudar. Isso pode ser feito por meio de uma

parceria entre ambos. O problema é que para muitos pais a perda do papel de "principal consultor" exercido até então, nem sempre é um

fato encarado com naturalidade. "Sem aviso prévio e sem seu consentimento você é despedido do papel de administrador." A saída, aponta Riera, é estruturar uma nova estratégia para que não seja criado um hiato no relacionamento. Desta forma, o papel de consultor pode ser resgatado.

Mas o terapeuta faz algumas ressalvas. Por exemplo, pais que não

entendem este processo juvenil e acreditam ser o afastamento a melhor maneira de livrar-se dos atritos, podem estar, na verdade, gerando um problema maior. Conselhos são bem-vindos desde que solicitados. "Quando seu cliente (o adolescente) pede conselhos, você precisa se assegurar de que ele realmente o quer. Algumas vezes, ele só quer a confirmação de que poderá resolver sozinho. Outras vezes, ele perderá a crença em si mesmo, e precisará de um pouco de crença emprestada", salienta.

"Um pai-administrador tenta assegurar-se de que seu filho tome as melhores decisões. Um pai-consultor concentra-se em ajudar o seu adolescente a desenvolver e exercitar os 'músculos de tomada de

decisões'. Em alguns momentos, o resultado é menos importante do que

o exercício e o desenvolvimento dos músculos", defende Riera, que completa: "A adolescência é, em parte, um período de treinamento

ativo em direção à vida adulta. Assim, existe espaço para decisões

'ruins' que, na verdade, são 'boas' decisões. Ou, como disse o escritor Mark Twain: 'O bom julgamento vem da experiência, e a experiência vem do mau julgamento.'"

Dicas para começar a juventude com o pé direito

"Manual de Sobrevivência do Adolescente" (Editora Madras) é resultado da experiência de anos de trabalho de H. Samm Coombs num centro americano de realização para jovens e, também, como pai de três adolescentes.

"Um adolescente está muito mais perto de fazer com que sua vida funcione do que a maioria dos adultos; mais perto, principalmente, pela virtude de não ter tido tempo de cometer tantos erros. O começo é sempre um bom lugar para se começar - com o pé direito", defende.

Logo no início do seu "Manual", Coombs condena a teoria defendida

por muitos de que só é possível comunicar-se com os jovens por meio de mensagens transmitidas pela tevê, em horário nobre, ou tocada numa altura estrondosa. Apesar de ser um livro destinado aos adolescentes, na verdade, será muito útil para pais que desejam compreender o novo mundo no qual o filho acaba de entrar.

Orientações de Coombs

* O corpo passa por mudanças tão sérias até a faixa dos 14 anos que seria demais pedir a um adolescente qualquer coisa além de manter seus dois pés no chão. Transformar-se de lagarta a borboleta é mais que suficiente. E não espere que o adolescente entenda o que está acontecendo!

* É muito importante entender "você" e os "papéis que você desempenha". Isso faz uma grande diferença.

* Quando você acorda e vê seu rosto cheio de espinhas, entenda que o que está acontecendo com seu rosto é que ele tem espinhas. Você não é as espinhas

- seu rosto é que tem espinhas. Seu papel não fará com que elas sumam.

* É raro quem não se preocupe em impressionar, e você não pode ser você mesmo enquanto estiver tentando impressionar alguém. Nem

irá ouvir o que o outro diz se estiver pensando no que ele está

pensando a seu respeito.

* Nós obtemos a maior parte do conhecimento sobre nós mesmos por intermédio dos outros, pela forma como eles nos conhecem. Se um professor diz que você é burro, você pensa que sim, porque professores são inteligentes, e passa, então a desempenhar o papel de burro. Se nunca usar seu tempo para conhecer-se a si mesmo, então tudo o que saberá sobre si mesmo é que você é o que vê espelhado nos desejos e medos dos outros, tornando-se um reflexo de percepções de segunda mão.

* A pessoa que assume a responsabilidade pelos seus pensamentos e atos é uma pessoa que nunca vai ter ressentimentos - a pior doença que o Homo Sapiens pode contrair. Ressentimento

é uma doença psicológica que não tem recuperação...exceto assumindo-se a

responsabilidade.

(C.C./AE)

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