Mandioca pode substituir isopor na produção de embalagens
Mandioca pode substituir isopor na produção de embalagens
Texto: Ana Maria Ferreira
O Centro de Raízes e Amidos Tropicais - Cerat - da Unesp, câmpus de Botucatu, desenvolve pesquisa na área de embalagens biodegradáveis, utilizando como matéria-prima raízes e amidos, como a mandioca o carro-chefe das pesquisas mais recentes que gerou um produto específico: a embalagem feita de amido de mandioca e totalmente biodegradável no meio ambiente. As vantagens da bioembalagem são inúmeras se comparadas as tradicionais embalagens de isopor, amplamente utilizadas pelo setor hortifruti, pois o isopor produzido a partir de derivados de petróleo leva aproximadamente cem anos para desaparecer; já a bioembalagem num prazo médio de dez dias está totalmente degradada no meio ambiente, além de ser lixo orgânico e podendo até ter uma futura reutilização na ração de animais, por exemplo. A indústria de produção das bioembalagens não é poluente, o equipamento
é bastante simples, o amido tem um custo baixo nos países tropicais além de ser atóxico e livre de resíduos. Outra possibilidade da utilização do amido é na impermeabilização de frutas e legumes, fazendo a imersão deles no amido o resultado é uma película protetora (como uma segunda "pele") que sai com a água. Os pesquisadores testaram até botões de rosa, e
é possível 'atrasar' a abertura destas flores quando estão com a camada protetora de amido, uma idéia que pode otimizar o negócio das floriculturas.
A diretora do Cerat, engenheira agrônoma Marney Pascoli Cereda acredita que "quem trabalhar com embalagens, num futuro próximo, vai ter que trabalhar com pelo menos uma linha de produto ecológico".
A produção da embalagem de amido só foi possível através do apoio e acompanhamento do Sebrae, e do envolvimento de dois microempresários da cidade; um alterou e viabilizou a ferramentaria e o outro cuidou da parte comercial e da pesquisa de mercado que acabou determinando o tamanho da embalagem a ser produzida. O próximo passo é a impermeabilização da embalagem nos mesmo moldes. Uma nova linha de pesquisa que tem deixado todos animados é a película para recobrir os alimentos, que já está na fase de testes que buscam dar maior permeabilidade e transparência ao produto. Com isso, o Cerat terá a tecnologia completa para embalagens de alimentos secos.
Para Marney o ideal é que indústria, poder público e universidade trabalhassem em conjunto levando os resultados para uma incubadora de empresas no município, o que nem sempre acontece. Acompanhe os principais trechos da entrevista da diretora do Cerat ao Jornal da Cidade.
Jornal da Cidade - Há quanto tempo a pesquisa vem sendo desenvolvida? E o que a motivou?
Marney Pascoli Cereda - Estamos falando de 2 linhas de pesquisa diferentes. A de embalagens rígidas começou há 3 ou 4 anos e tomou impulso com um projeto financiado pelo Sebrae
que permitiu a empresários de Botucatu elaborarem um equipamento piloto.
A linha de embalagens flexíveis tem mais de 8 anos e começou em uma aula de
graduação, com uma aluna fazendo testes e entrando com pedido de patente.
JC - Quais foram as dificuldades encontradas no decorrer dos estudos e na
criação da bioembalagem?
Marney - Enfrentamos muitas dificuldades, o descrédito de relatores de
financiadoras de projetos, a dificuldades normais de pesquisa nova. Quando
não se tem literatura ou técnicas para copiar, tem-se que desenvolver. Tivemos que estabelecer todo um procedimento especial para essas embalagens.
JC - A divulgação do produto obtido gerou interesse no mercado industrial?
Marney - Gerou sim, principalmente entre produtores agrícolas de produtos chamados
naturais, onde a embalagem de isopor não combina com o produto. É uma
questão de imagem também. Nós não divulgamos muito porque a produção piloto
é muito baixa e não teríamos condições de atender a uma demanda alta, então só iríamos
criar expectativa.
JC - Quais as chances da bioembalagem competir em pé de igualdade com as
embalagens já existentes?
Marney - Precisamos investir na máquina para aumentar a produtividade. A matéria-prima é muito barata
(R$ 450 reais a tonelada, sendo que usamos cerca de 20 gramas para confeccionar uma embalagem), tem energia elétrica a ser considerada. O custo da embalagem de isopor era muito baixo, questão de centavos, mas a matéria-prima de derivados do petróleo não é reserva renovável e somos dependentes de importação.
JC - Você acredita que os industriais (em larga escala) ainda irão absorver
a filosofia e os produtos biodegradáveis , no caso das embalagens especificamente?
Marney - Essa é uma boa questão. A comunidade está pressionando e a imagem da empresa melhora muito com o consumidor. Acredito que não haja mais muito espaço para empresas poluidoras e cada vez haverá menos. O custo vai ajudar muito. Há muitos anos se trabalha na Europa pelo plástico de amido
(100% degradável). Lá o custo ainda é muito alto. Nos países tropicais a matéria prima é mais barata.
JC - Na sua opinião as pesquisas universitárias e os resultados/produtos obtidos conseguem se firmar no mercado comercial?
Marney - Difícil generalizar, mas eu diria que a universidade e um baú cheio de coisas estranhas e interessantes. A responsabilidade de transformar essas propostas em realidade não e só da universidade. As empresas tem seu papel e a comunidade deveria estar vigiando essa produção que saiu de seus impostos.
JC - Quais as outras possíveis formas de utilização da embalagem de mandioca?
Marney - Embalagens e utensílios de giro curto, para sanduíches, copinhos
de café, ovos, etc. Para evoluir vamos ter que dominar a impermeabilização da superfície sem interferir com a biodegradabilidade.
JC - Qual a quantidade necessária de matéria-prima para produzir 30 embalagens, por exemplo?
Marney - 600 gramas de fécula (amido) de mandioca
JC - O Cerat já produziu outros tipos de materiais industriais no mesmo nível que este?
Marney - Sim. Temos outros processos para polvilho azedo, por exemplo, e
introduzimos novos produtos (mandioca pré cozida congelada, croquetes pré-fritos de mandioca) no mercado.
JC - Quais as vantagens do produto?
Marney - Biodegradabilidade. O isopor demora mais de 100 anos para se degradar
JC - Você tem informações sobre a área de cultivo da mandioca no estado e mesmo no País?
Marney - O Brasil e o segundo produtor mundial com 25 milhões de toneladas. Na região norte e nordeste estão os estados que mais plantam mandioca, mas o Paraná é o de maior produtividade.
JC - Por parecer ser tão simples a "fórmula" de obtenção do material final qual a dificuldade em utilizar raízes e/ou amidos na substituição de várias outras embalagens?
Marney - O amido é biodegradável e sensível a água, produtos como a carne são muito úmidos e não seria possível hoje utilizar a bioembalagem.
JC - Existe alguma pesquisa no sentido de se criar um alternativa para as embalagens plásticas, por exemplo?
Marney - O plástico de amido já existe. É transparente e bastante semelhante. Um problema é a plasticidade pois ele é mais duro e mais caro também.