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Artesão de facas

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

A grande arte

A grande arte

Texto: Gustavo Cândido

Ele faz parte de um seleto grupo de dez artesões que domina o conhecimento da cutelaria no Brasil. Com aproximadamente 850 facas no currículo, muitas delas vendidas para colecionadores e aficcionados de outros países, José Alberto Paschoarelli tem hoje o seu nome transformado em uma verdadeira grife de respeito no ramo. Ele, que foi o expositor mais vendeu facas na Expo 97 em São Paulo, um evento respeitado no mundo da cutelaria, vive em Lençóis Paulista, onde trabalha dia e noite na sua oficina. Um lugar simples, como o artista, mas que encanta até aqueles que nunca sonharam em gostar desses instrumentos de corte que são verdadeiras obras de arte. Paschoarelli, como é chamado normalmente, falou para o Jornal da Cidade sobre sua arte.

Jornal da Cidade - Quando o senhor começou a fazer facas?

José Alberto Paschoarelli - Sou técnico em mecânica mas me aposentei ainda novo, já fazia facas antes por hobby, depois da aposentadoria comecei a me dedicar só a isso e me aperfeiçoar. Isso já faz três anos.

JC - O senhor já fazia facas mas essa técnica apurada aprendeu com quem?

Paschoarelli - Com um artista que hoje mora na região chamado Pedro Carlos Teles Rosa, o Peter Hammer, que é um artesão fantástico, que faz até trabalhos para a Rede Globo. Ele é o melhor artesão do Brasil e tem só 34 anos.

JC - Por que é tão difícil encontrar artesões como vocês?

Paschoarelli - Nós vivemos escondidos. No Brasil somos apenas 10 artesões, os Estados Unidos, por exemplo, tem 35 mil, então nós não temos condições de atender todas as pessoas que gostam de facas. Vamos supor que no Brasil, da população de 150 milhões, um milhão goste de facas, para dez artesões suprirem essa demanda, cada um teria que fazer 100 mil facas o que jamais seria possível. Por isso a gente procura não divulgar muito o trabalho, a gente não tem condições de atender a todos, fica uma situação difícil. Nos Estados Unidos existem artesões que não aceitam encomenda nos próximos 10 anos, outro 20. Uma faca de um artesão chamado Buster Warensky, por exemplo, você não vai conseguir mais porque ele não vai ter tempo de fazer, vai morrer antes. Ou seja tem encomenda até o fim da vida, segundo palavras dele mesmo. A faca artesanal depende da assinatura, é como um quadro.

JC - Hoje o senhor tem uma assinatura respeitada no Brasil e no Exterior?

Paschoarelli - Graças a Deus sim, aqui e lá fora também. Fui incumbido de fazer uma faca para o comandante Marcos, chefe da guerrilha zapatista do México. Também já fiz facas para muitos artistas, políticos...

JC - Com que material o senhor faz as facas?

Paschoarelli - Com um aço importado dos Estados Unidos chamado 440-C. Esse aço é fabricado pela Mitsubishi do Japão especialmente para a Marinha Americana, nenhum outro país tem acesso a esse produto. Não

é fácil conseguir esse aço.

JC - Quanto tempo o senhor demora para fazer uma faca?

Paschoarelli - Se for uma faca não muito cheia de detalhes, uns três dias bem trabalhados. Só nela. Uma mais detalhada, uma semana. Uma faca não se faz da noite o dia, o artesão tem todo o cuidado para entregar uma coisa perfeita. Se for uma faca do tipo damasco, é possível fazer só uma por ano. O seu processo de confecção é raro, coisa de muitos séculos atrás, que mistura uma infinidade de aços diferentes.

JC - Quanto custa uma faca, como se dá um preço a uma faca?

Paschoarelli - A minha assinatura vai de R$ 80,00 a R$ 1.500,00. A primeira coisa que determina o preço é o material. Como só uso o 440-C, que é o aço mais nobre do mundo, o preço já não é tão baixo. Se a pessoa pedir um cabo de marfim, por exemplo, ai fica mais caro ainda. Mas depende sempre do tamanho, do material do cabo, que pode ser de uma infinidade de madeiras ou chifres de animais. No exterior, algumas facas especiais de artesões famosos são leiloadas por verdadeiras fortunas. A faca mais cara do mundo foi leiloada por um milhão e meio de Dólares. É uma réplica de uma faca egípcia feita em ouro.

JC - Suas facas são todas para caça?

Paschoarelli - Não, faço vários tipos de faca, minhas preferidas são as Bowie, que têm guarda dupla. O primeiro a fazer uma faca assim foi o Jim Bowie, por isso elas têm esse nome. São facas clássicas, muito procuradas no mundo todo.

JC - As pessoas que compram suas facas compram para guardar ou para usar?

Paschoarelli - Cerca de 70% compra para guardar, são colecionadores mesmo. Nos Estados Unidos o número de pessoas que procuram por facas é maior, porque existem os colecionadores e além disso existe o costume da caça. A faca á parte da vida deles, que desbravaram o país.

JC - Quem usa uma dessas facas no dia-a-dia não precisa se preocupar com a sua durabilidade, ela agüenta tudo?

Paschoarelli - Tudo. Não quebra nunca, não perde o fio, dura a vida tudo. O único cuidado após o uso é limpar a faca corretamente antes de colocá-la na bainha.

JC - O senhor faz espadas também?

Paschoarelli - Sei fazer, mas não é a minha especialidade. O Peter é quem faz isso muito bem.

JC - O senhor nunca fica com muitas facas na cutelaria?

Paschoarelli - Não porque a gente procura entregá-las o mais rápido possível. Não tenho participado muito de exposições porque quase não tenho material para expor.

JC - O senhor já se aposentou. A sua maior fonte de renda hoje são as facas?

Paschoarelli - Ainda dou consultoria para duas usinas de açúcar e álcool, para as áreas de manutenção de frotas e administração de oficinas. Fico dois dias da semana fora, nas usinas. Os outros dias fico aqui na cutelaria, muitas vezes dia e noite. Isso não deixa ninguém rico não, até mesmo porque não dá para produzir muito, mas é uma boa fonte de renda.

JC - O senhor ensina alguém?

Paschoarelli - Tenho quatro aprendizes, o Fábio Carlos Picin, o Emerson Lopes, o Paulo Rodrigues Fernandes e a Marina. A Marina, já é a primeira artesã do Brasil. No começo ela fazia apenas as bainhas para mim, depois começou a cortar e desbastar as lâminas e mais tarde a fazer as facas também. Ela tem muito talento.

Serviço

O telefone da cutelaria de José Alberto Paschoarelli é

(14) 263-6313.

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