Câncer atinge 15 mil brasileiros por ano
Câncer atinge 15 mil brasileiros por ano
Texto: Sabrina Magalhães
Rouquidão por mais de 20 dias, dor ao deglutir e desconforto para falar são sintomas que precisam ser investigados precocemente
Dados da Organização Mundial de Saúde apresentados na Semana Nacional da Voz, em abril deste ano, indicam que o Brasil
é um dos países de maior incidência de câncer de laringe: aproximadamente 15 mil brasileiros contraem a doença a cada ano; cerca de 8 mil pessoas morrem anualmente no País por não terem feito o diagnóstico precoce. Números alarmantes, considerando-se que o câncer de laringe pode ser facilmente diagnosticado através de um exame absolutamente indolor. E é perfeitamente curável quando identificado precocemente.
De acordo com os especialistas, no entanto, se o paciente demora para procurar o médico e espera o tumor evoluir, corre sérios riscos de ter que retirar toda a laringe. Sem este
órgão, o indivíduo perde a voz e o olfato e tem que fazer uma traqueostomia definitiva - uma cirurgia em que é aberto um buraco no pescoço do paciente, por onde ele vai respirar dali por diante.
"Existem formas alternativas de comunicação para essas pessoas. A mais utilizada - e mais próxima do natural - é aproveitar o esôfago como fonte de vibração de som. Então, através de fonoterapia, o paciente aprende a introduzir o ar no esôfago e soltar esse ar imediatamente, fazendo vibrar a boca do esôfago, daí produzindo um som. É um som diferente, muito grave, abafado, mas é uma produção de som e dá para se fazer entender", destaca a professora Alcione Brasoletto.
Segundo ela, a partir desta produção de som do esôfago
(voz esofágica), o paciente passa a ser orientado para saber articular, falar vogais, sílabas, até falar
"naturalmente". O resultado é uma voz entrecortada, visto que a quantidade de ar que se consegue colocar no esôfago
é muito menor do que a quantidade que se coloca nos pulmões.
"Mas é uma forma muito viável de comunicação para quem perdeu totalmente a voz."
Outra alternativa para pessoas que têm que retirar a laringe
é um aparelho chamado vibrador laríngeo, uma espécie de motorzinho que é colocado próximo à pele do pescoço. Conforme o ar passa por ele, é produzido um som robotizado. Quando a pessoa articula boca, língua e dentes - sem som, evidentemente - o motor vibra, produzindo um som metálico.
Readaptação
Brasoletto observa que para ambas as alternativas de comunicação
é preciso um trabalho muito persistente de fonoaudiologia, pois o paciente tem que reaprender a falar. "A pessoa vai ter sua rotina de vida totalmente alterada", porque ela vai ter constantemente uma comunicação com o pulmão, não tem o filtro nasal mais para proteger. Inclusive eles passam a usar uma redinha, para evitar que grãos de areia ou poeira entrem no pulmão, o que poderia causar problemas sérios."
Além disso, a pessoa que respira por traqueostoma vai ter muitas dificuldades para tomar banho e fica proibida de nadar, pois não pode entrar água no pulmão. "E têm até uma limitação de força. Para carregar peso, por exemplo, precisamos fechar a glote. É isso que produz uma pressão interna para que tenhamos força. Essas pessoas perdem essa força para atividades diárias, até para a defecação ou, no caso da mulher, para um parto normal."
Prevenção e sintomas
Brasoletto salienta que cerca de 80% dos cânceres de laringe acometem indivíduos fumantes de longa data, muitos também usuários freqüentes de bebida alcoólica. Então, fugir destes dois fatores é o primeiro e principal passo para prevenir a doença. O segundo é estar em constante vigilância para as alterações vocais e qualquer novidade na região naso-faringo-laríngea.
Neste sentido, ela afirma que um dos principais alarmes do organismo
é a rouquidão persistente. "Uma pessoa pode ficar rouca depois de um episódio de gripe ou depois de ter usado muito a voz, de ter gritado muito, em casos esporádicos. Isso é 'normal'. Pelo menos não é nada sério se, depois de poucos dias, a voz voltar ao normal. Agora, se essa rouquidão durar mais do que duas ou três semanas, então há um indício claro de que está havendo algum problema de voz. O ideal é procurar um fonoaudiólogo ou otorrinolaringologista, fazer uma avaliação adequada, para entender porquê isso está acontecendo."
Outro sintoma que deve ser considerado como suspeita de problema vocal é o desconforto, quando se sente dor na hora de falar, quando a garganta arde, "queima", depois de um discurso mais prolongado, como uma conversa ao telefone. E ainda quando há dor para engolir alimentos ou líquidos. Estes sintomas podem aparecer em diferentes ordens ou simultaneamente e todos merecem investigação profissional, pois podem ser uma simples tensão muscular ou manifestação alérgica (nesse caso o tratamento pode exigir medicamentos), mas pode indicar uma doença
No caso de uma patologia, é preciso localizar a lesão no começo, para que um procedimento mais simples possa resolver. Mesmo o câncer, num estágio inicial, é possível fazer a retirada apenas de parte da laringe, sem prejuízo respiratório ou vocal. Mas sem o diagnóstico a tempo, o câncer de laringe pode matar.
Diagnóstico
Segundo a otorrinolaringologista Silvia Megale, existem várias opções para se fazer uma avaliação de laringe. A mais conhecida é a endoscopia indireta, em que o profissional puxa a língua do paciente para fora e olha a laringe com a ajuda de um espelho. "É o espelho de Garcia, nome dado em homenagem a seu inventor, um cantor espanhol que queria ver sua corda vocal e teve a idéia de usar um espelho."
Depois surgiu a endoscopia direta. Primeiro foi criada a rígida, em que, ao invés do espelho, usa-se uma microcâmera, com projeção em monitor de TV. E mais recentemente foi desenvolvida a endoscopia direta flexível, em que a microcâmera é colocada através do nariz, depois de uma anestesia local feita com spray. Com este recurso, o profissional pode avaliar até o funcionamento da laringe, pois não há tração da língua, como nos métodos anteriores, que impediam que o paciente falasse.
"Depois dos exames, havendo uma suspeita de câncer, o paciente é encaminhado para biópsia. Conforme o resultado (algumas lesões benignas também), é feita uma cirurgia e, então, ele vai para a fonoterapia."