16 pessoas e uma idéia fixa: um rancho no rio Piqueri
16 pessoas e uma idéia fixa: um rancho no rio Piqueri
Texto: Roberta Mathias
Emoção, perigo, medo, cansaço, frustração, prazer... muitas foram as sensações que um grupo de pessoas da região de Bauru (Borebi, Agudos, Bauru e Lençóis Paulista) pôde "saborear" no período de 20 dias em que esteve às margens do rio Piqueri, região pantaneira no Mato Grosso, onde escolheu construir um rancho para dias de pescaria.
Tudo começou quando uma turma de jovens pescadores esteve no pantanal mato-grossense, em maio, apenas com o objetivo de fisgar alguns pintados, dourados e tucunarés, que já habitam aquelas águas. O encanto com o local e a possibilidade de ter ali também um pesqueiro acenderam uma chama nos pescadores. Encontraram um lugar interessante, formaram uma associação em dez pescadores e iniciaram uma tarefa um tanto singular: planejamento e construção de um rancho, em meio ao pantanal.
Apesar de existirem muitos ranchos e pesqueiros às margens dos rios, a curiosidade do grupo é que entre eles não havia muita gente afinado com a construção civil, a única coisa que os unia era a paixão pela pesca. Mesmo assim, resolveram enfrentar essa tarefa. O que, em muitos casos, é transferida a profissionais do setor.
Em setembro, tudo já estava preparado, rancho planejado, madeiramento comprado, telha, fiação, gerador, dois furgões, enfim, tudo o que seria necessário para colocar o rancho em pé. Dos sócios, três não puderam ir, mas Alexandre Sandri, 23 anos; Marcos Damante, 34 anos; Flávio Pedrono, 50 anos; Manoel Frias, 48 anos; Hélio Frias, 52 anos; Angelo Sandri e José Guerreiro uniram-se a outros aventureiros como Danilo Odassi, 20 anos, Fernando Mohamed, Baiano, Edinho Frias, Zé Nildo e Dona Maria, Eduardo Pulão, Raquel Frias e Keré para encarar o desafio.
A maioria não entendia nada de construção. Mal sabia o funcionamento de uma rede elétrica. Todos pegaram no pesado impulsionados por Hélio Frias, conhecedor do assunto e incentivador da moçada.
Eles partiram de Borebi com uma carreta carregada com 25 mil quilos de carga, mais um caminhão (15 mil quilos) e três caminhonetes lotadas. Destino: margens do rio Piqueri, no Mato Grosso, a aproximados 1.750 quilômetros de Bauru. Deste total, amargos 230 Km de terra, tão seca e fina que mais se assemelhava a talco. Tudo conferido oitocentos e noventa e nove vezes, partiram.
Segundo o pescador Alexandre Sandri, 23 anos, o grupo estava preparado para enfrentar vários dias de viagem e trabalho, mas também para o lazer, após a conclusão do rancho. Para isso, uma carga com 30 caixas de cerveja em garrafa e cachaça
"da boa" foi necessária.
Para chegar ao destino final, foram cinco dias de viagem. Alexandre Sandri explica que durante o percurso de asfalto, tudo correu tranquilamente, mas nos 40 quilômetros finais da estrada de terra, distante mais de 170 Km da cidade mais próxima, Rondonópolis, começaram alguns problemas.
Em uma pequena distância, a carreta carregada encalhou e o caminhão quebrou. Sem deixar o desânimo chegar, o grupo se dividiu para buscar soluções. Uma caminhonete voltou para a cidade em busca da peça para o caminhão, outra seguiu viagem e a terceira, em que estava Alexandre, foi procurar socorro em fazendas para desencalhar a carreta.
Quilômetros depois, um fazendeiro emprestou o trator. A carreta nem saiu do lugar. Alexandre Sandri e o filho de seu Flávio
(dono do trator) foram em busca de outro trator. Mesmo assim, foi necessário calçar todas as rodas com grandes tábuas de madeira. A carreta seguiu viagem.
Para o caminhão, porém, o problema era maior, pois não encontrou-se peça. Foi necessário seguir mais 250 quilômetros no dia seguinte para que o caminhão fosse liberado. Enfim o grupo chegou no local onde seria construído o rancho. São dez alqueires onde não foi necessário tirar nem uma árvore, pois já havia uma clareira ideal para a construção.
Começou o trabalho pesado. A temperatura estava muito quente e o ar seco, mas isso não desanimou a turma, que em dez dias concluiu a construção do "Rancho dos Amigos de Boregudo" (maioria de Borebi e Agudos). "Estava tudo muito seco mesmo, eu nunca tinha visto o pantanal daquele jeito... e eu já fui mais de 50 vezes para lá", conta Alexandre. Ironicamente, as queimadas também foram responsáveis por alguns momentos agradáveis para o grupo. "Vimos muitos animais que normalmente a gente não vê. Eles chegavam muito perto à procura de água. Infelizmente, encontramos muitos animais mortos pela seca, gado principalmente."
Após a conclusão do rancho, parte do grupo retornou. O restante aproveitou para pescar e se divertir um pouco, afinal, estavam nas margens do rio Piqueri, onde muitos peixes esportivos estavam à espera. A traiçoeira piranha foi a grande vilã, pois dois dos pescadores tiveram seus dedos marcados por ela. Mas o grupo não deixou de se divertir com dourados, pintados, traíras e até tucunarés. "As iscas artificiais mostraram eficiência na pescaria", lembra Alexandre.
Outro detalhe observado pelo grupo foi a presença da fiscalização da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fema), MT.
"Várias vezes encontramos com fiscais na região. Além da preocupação com pesca predatória e caçadores ilegais, eles também orientavam pescadores e reforçavam a importância de manter as margens e rios limpos, sem lixo."
Infelizmente ainda há pescadores que visitam os rios e deixam lá seus lixos. Há aqueles também que insistem em tentar driblar ou subornar a fiscalização para trazer quantidades exageradas de peixes para "sair no lucro". Melhor é saber que novos pescadores deixam somente seu exemplo de preservacionistas, enfatizando a pesca esportiva e recolhendo todo o lixo que encontram.
******* História de pescador************
Pescando nas nuvens
Pescar faz bem à saúde. Todos nós temos o direito de, num dia de folga, juntar a "traia" e fugir pra beira do rio. Lá tem mosquitos, cobras, sol quente ou chuva, arranha-gato, cachaça que acaba antes da hora... Mas também tem passarinhos cantando por todo lado, aves exóticas e desconfiadas, águas que passam e passam e não acabam, desfile de libélulas... E, às vezes, peixes!
A paz trazida por uma pescaria é impagável. Dizem existir uma inscrição assíria datada de 2000 anos antes de Cristo que diz: "Os deuses não deduzem do prazo fixado para a nossa vida o tempo que se passa pescando." Disso tenho cá minhas dúvidas, pois que, se eu puder pescar todo o tempo daqui pra frente, então não morrerei nunca?
Dizem também que todo pescador é mentiroso. Já, aí, devo lembrar que existem muitas e grandes coincidências em pescarias, que nem sempre podem ser taxadas de mentiras. Aliás, a bem da verdade, toda mentira pode ser coincidente. (Ih!)
Peço licença pra contar um caso rápido só para comprovar isso. Há um punhado de anos, numa noitinha, eu, meu cunhado Rogério, o Jacaré do Café do Ponto e meu finado sogro Mílton Araújo fomos pescar corvinas no Córrego do Meio, no Distrito de Bacuriti.
A noite estava lindíssima, adornada de estrelas. Amarramos o barco num grosso tronco de ipê, meio submerso como tantas outras árvores vítimas da eclusa de Promissão, e ficamos junto de dois outros barcos de amigos pescadores de Cafelândia. A pescaria fluía às maravilhas, com muitas corvinas vindo para o puçá. Naquela época, aqueles peixes pareciam ter mais vergonha da gente e se escondiam durante o dia, só aparecendo à noite, sob a luz de nosso lampião a gás, sendo fisgados com apenas dois ou três metros de linha, quase à flor d'água. Foi nesse cenário que meu sogro arremessou a sua linha, mais uma vez. Só que notou que ela começou a subir, em vez de cair na água. E não pôde conter um grito de surpresa quando viu alguma coisa voadora presa no anzol. A coisa voadora voou pra cima de mim, que a apanhei, com medo.
Aí verifiquei - e falei pra eles meio no sussurro - que era um morcego! Todos começamos a rir muito, mas, pedindo que aguentassem as pontas, rapidamente amarrei no voadorzinho uma micro lanterna de foco esverdeado que levava sempre nas pescarias noturnas, e então, aumentando um pouco o tamanho da linha de pesca de meu sogro, atirei o bichinho em direção aos barcos dos amigos pescadores.
Houve tamanho alvoroço entre eles, que quase viraram os barcos, pois nunca tinham visto um vaga-lume assim tão grande...
Como disse, há pescarias onde ocorrem coincidências. Mentiras, não, ô meu!
Toninho Valenciano