Vidas em jogo
Vidas em jogo
Texto: Gustavo Cândido
Todos os dias a história se repete: dezenas de pessoas fazem fila na frente dos bingos, no centro da cidade para conseguir participar da primeira rodada que é gratuita. São homens e mulheres de todas as idades, geralmente gente humilde, que aproveita a cartela dada de brinde para testar a sorte e, quem sabe, começar o dia com um dinheirinho a mais no bolso. A grande maioria dessas pessoas já incluiu a visita ao bingo à sua rotina diária, mas ninguém acha que é viciado em jogo, ou que no final das contas acaba perdendo mais do que ganhando.
A razão pra acharem que não são viciados
é simples, geralmente limitam um valor para jogar. Em muitos casos apenas R$ 5,00. "Jogo só esse valor e quando acaba vou embora. Se ganho alguma coisa ai fico mais um pouquinho", conta o pedreiro Luís Santana. O mesmo argumento é usado pelo serralheiro Carlos Eliseu Campello e pela cozinheira Malvina Souza Silva. Ele, que diz já ter ganho R$ 500,00, não se considera um viciado, "jogo R$5,00 ou R$ 10,00, tem dias que compensam e outros não", Malvina também,
"venho todos os dias, já ganhei R$ 5 mil", diz.
O psicoterapeuta José Luis Cremonesi explica que o vício se caracteriza pelo grau de dependência, ou seja, até que ponto a pessoa está envolvida com determinada coisa, seja ela o jogo, o cigarro ou a bebida, e na importa a quantidade,
"o álcool, por exemplo, se a pessoa tiver que tomar um copo de cerveja por dia para ficar feliz, está viciada", afirma, "no caso do jogo é a mesma coisa, não importa se ela gasta cinco ou dez Reais, se não consegue controlar a vontade de ir todos os dias jogar, é viciada".
Segundo o funcionário de um bingo no centro da cidade,
é possível conhecer os jogadores, tamanha freqüência no estabelecimento, "tem gente que entra aqui de manhã e só sai de noite, como servimos lanches e bebidas, a pessoa não tem necessidade de sair para nada", conta.
Embora ninguém se diga viciado no jogo, a maioria das pessoas
é relutante ao falar sobre o assunto e até ser fotografada, o que é contraditório, já que se não são viciados, não têm motivo para se esconder.
"é comum que as pessoas não admitam que dependem de alguma coisa porque isso seria o primeiro passo para fazer uma mudança e elas não querem fazer uma mudança, querem continuar a depender, esquecendo-se até das conseqüências", diz Cremonesi.
Estas conseqüências, no caso do jogo afetam diretamente o bolso da pessoa, "ela não percebe mas se somar todos os cinco Reais que gasta por dia jogando, no fim de um ano vai ter gasto uma quantia bastante elevada".
De acordo com o psicoterapeuta, para uma pessoa se livrar do vício de jogar por vontade própria, primeiro é preciso que o seu grau de envolvimento não seja muito profundo, senão ela não vai conseguir perceber a situação em que está, depois é necessário que ela saiba como funciona o mecanismo do vício e para poder sair.
"No caso do jogo esse mecanismo está ligado ao fato de ganhar, se ela ganha uma vez, o prazer que aquilo proporciona vai fazer com que ela queira repetí-lo várias vezes, o que nem sempre vai acontecer. Quando vê está viciada. Se ganhasse todo dia ou se soubesse que nunca vai ganhar, a pessoa deixaria de jogar", explica, "as pessoas não tem a consciência de que a emoção do jogo pode deixá-las dependentes".
Cremonesi lembra que algumas pessoas nascem com uma pre-disposição genética para ter algum tipo de transtorno obsessivo compulsivo durante a vida, que pode se manisfetar na forma de vício, se elas forem levadas a isso por algum problema emocional. A cura nesses casos exige um tratamento intensivo. Muitas pessoas que ficam viciadas, (seja no que for), têm a tendência a ficarem deprimidas e até a tentarem o suicídio num momento de desespero.
O psicoterapeuta não recomenda, porém, que as pessoas abandonem de vez qualquer tipo de jogo, "só é preciso saber dos riscos e se controlar, nada impede que você vá a um bingo ou jogue cartas somente para se divertir de vez em quando", diz.
Sem limite
Os cassinos continuam proibidos no Brasil, mas os jogos de azar crescem em progressão geométrica. Legalizadas desde 1993, as casas de bingo já são 1.200, 115 só na cidade de São Paulo. Por conta desse aumento do jogo, um estudo, realizado pela primeira vez no Brasil, por especialistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), traçou o perfil das pessoas dependentes de jogos de azar. São os chamados "jogadores patológicos", que são vítimas de um distúrbio mental que causa tanta dependência quanto drogas. Com uma agravante: é bem mais difícil de ser tratado.
Durante cinco anos, a equipe do Ambulatório de Jogo do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes, o Proad, acompanhou de perto jogadores compulsivos. Dos 72 pacientes incluídos na pesquisa, 30 desapareceram depois da primeira consulta pois não admitiram que têm um vício. Segundo o trabalho, além de achar que param a qualquer momento, eles acreditam que podem voltar às apostas e recuperar o que perderam. Os dependentes são movidos por uma alegria química. A cada vitória, o cérebro recebe uma descarga de dopamina, substância que provoca euforia e vontade de repetir a dose. Em pessoas comuns, a reação
é controlável. Os compulsivos não conseguem ir embora.
A pesquisa da Unifesp produziu um retrato dos dependentes: um jogador-padrão é homem, casado, tem em média 40 anos e experimenta vários tipos de jogos, mas o bingo era o preferido. Loteria, videopôquer e carteado vêm em seguida.
Entre os pesquisados, 76% completaram cursos universitários e possuem renda familiar acima de R$ 3 mil. Perderam, em média, US$ 84 mil ao longo da vida. Ganharam cerca de US$ 8 mil.
Como identificar o vício
* Os dependentes não conseguem controlar ou interromper a freqüência dos jogos.
* Jogam para escapar de problemas e para aliviar a culpa ou a depressão.
* Longe das apostas, ficam irritados.
* Só têm prazer em jogar aumentando o valor da aposta.
* Sempre voltam para tentar recuperar o que perderam.
* Escondem a extensão do envolvimento com o jogo.