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Trabalho artesanal

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

O senhor dos livros

O senhor dos livros

Texto: Gustavo Cândido

Sede de uma das maiores e mais modernas fábricas de cadernos do País, Bauru tem motivos de sobra para se orgulhar quando o assunto são livros e encadernações. Além da grandeza e tecnologia da Tilibra, a cidade também possui uma empresa familiar cujo talento de seus profissionais não deixa nada a dever a qualquer encadernador de qualquer lugar. São dois opostos da mesma área que se completam, de um lado a automatização de uma empresa, capaz de produzir milhares de cadernos em alguns minutos e do outro o trabalho manual, cheio de paciência, de quem trata o livro com uma jóia, da mesma maneira que os primeiros encadernadores faziam no passado. O responsável pela continuidade, com qualidade, do trabalho artesanal da encadernação

é um senhor de 81 anos, que ainda trabalha todos os dias na firma da família, que ele montou há mais de trinta anos. O Jornal da Cidade conversou com Diogo Manzano Torres sobre as encadernações de livros.

Jornal da Cidade - Como o senhor começou a trabalhar com encadernações?

Diogo Manzano Torres - Eu já trabalhava em uma tipografia, fiquei lá por 27 anos, era encadernador, chefe da sessão de indústria, encadernação e talonagem. Mas ganhava pouco, já tinha família e resolvi a trabalhar em casa. Comecei no fundo de casa, pegando uma encomenda aqui outra ali, das pessoas que me conheciam, depois fui aumentando o espaço físico, as máquinas.

JC - O senhor aprendeu tudo sobre encadernação no seu trabalho anterior?

Manzano - Sim, na tipografia onde trabalhei, depois ensinei para os meus filhos.

JC - Desde quando existe a Encadernação Manzano?

Manzano - Desde 1964, hoje três filhos meus trabalham aqui.

JC - O processo de encadernação tem permanecido o mesmo durante todos estes anos, continua um processo manual?

Manzano - Sim, é praticamente o mesmo, mas antes o trabalho era mais valorizado. Antes, quando eu comecei a trabalhar, um livro da coleção das moças, que era a mais popular daquela época, custava 3 mil Réis. Não havia encadernação naquela época, só brochura e quando alguém queria encadernar a coleção, a gente cobrava 5 mil Réis, mais que o preço do livro, ou seja, o trabalho era valorizado. Hoje com a industrialização e as encadernações nas grandes empresas, um livro que custe R$ 100 ou R$ 200, vai ser encadernado pelos mesmos R$ 18 ou R$ 20. Não tem sentido mas não dá para sair disso porque enquanto eu faço um livro na máquina, manualmente, as firmas fazem cem. Agora, não se compara um trabalho de máquina, feito automaticamente, com um trabalho feito a mão.

JC - A diferença é muito grande?

Manzano - É, tudo é costurado manualmente, sem perigo de cair página e sem problemas para ler.

JC - Vocês fazem capas também?

Manzano - Fazemos. Os materiais estão melhores agora, elas duram mais e possuem várias cores e texturas. Também fazemos gravações.

JC - Apesar da industrialização o senhor acredita que a encadernação vá continuar sendo exercida no futuro?

Manzano - Não sei porque cada vez mais o serviço diminui. Antes as pessoas cuidavam mais e se interessavam mais em encadernar seus livros. Hoje só quem tem um livro que gosta muito que se importa em guardá-lo de uma forma melhor, com uma capa bonita. As pessoas não estão encadernando muito. Quem vive disso, como nós, está sempre meio apertado. As nossas maiores encomendas são de empresas que precisam, por lei, encadernar os seus livros fiscais, não

é como antigamente onde tudo era feito na encadernação. Hoje o mercado não está fácil.

JC - Tem muita gente que pede para encadernar um livro e depois não vem buscar?

Manzano - Tem muita. A gente acaba empilhando as encomendas num canto até que a pessoa venha buscar.

JC - O senhor continua trabalhando, na prática?

Manzano - Não, hoje eu só administro, junto com os meus filhos e observo como estão saindo os trabalhos.

JC - O senhor ensinou o seu ofício para os seus filhos, acha que alguém mais novo vai continuar esse trabalho depois deles?

Manzano - As pessoas que estão trabalhando comigo estão aqui há anos. É difícil encontrar alguém para encadernar, não é uma coisa para qualquer um, não é simplesmente explicar e pronto, a pessoa precisa ter uma habilidade. Dificilmente trocamos de funcionários por isso, não é qualquer pessoa que aprende, é uma arte.

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