Medidas do governo pouco beneficiam consumidor final
Medias do governo pouco beneficiam consumidor final
Texto: Paulo Toledo
As medidas econômicas adotadas pelo governo de redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 6% para 1,5% e do compulsório sobre os depósitos a prazo do bancos de 10% para 0% não devem ter reflexos imediatos para o consumidor final, pelo menos a curto prazo. Economistas e empresários acreditam que o reflexo inicial será muito pequeno e, nas lojas, somente as empresas que concedem crédito por meio de financeiras é que podem ter alguma diferença. No financiamento direto da loja não há pagamento do IOF e, portanto, não deve ter redução na taxa de juros, quando cobrada.
Cássio Nunes Carvalho, 45 anos, presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), destaca que a queda da percentual do IOF é um grande alento para as empresas. Para ele, num primeiro momento, não haverá reflexos significativos no comércio, apesar de crer numa queda na taxa de juros que deverá ocorrer a médio prazo.
Carvalho destaca que as lojas que trabalham com financiamento próprio pouco vão mudar em suas taxas, pelo menos por enquanto, uma vez que não colocavam o IOF no crédito ao consumidor. Porém, as que trabalham com financeiras, geralmente da área de eletroeletrônicos, devem ter suas taxas desoneradas.
Wagner Ismanhoto, 36 anos, economista chefe do Departamento de Economia da Instituição Toledo de Ensino (ITE), destaca que, de prático, não é possível ver nada de imediato de resultado para o consumidor final das medidas adotadas. Para ele, podem surgir pequenas reduções de taxas, mas não devem ser nada de significativo. Ele que já trabalhou em uma instituição financeira, destaca que a inadimplência alegada pelos bancos para manter altas as taxas de juros não é tão acentuada como os bancos divulgam.
Ismanhoto destaca que as instituições financeiras são altamente seletivas e, por isso, a inadimplência
é muito mais controlada do que se informa. Ele acredita que as medidas são muito mais políticas do que econômicas.
"O governo tem que mostra que está fazendo alguma coisa. Todo mundo está reclamando que o problema da economia são as taxas de juros elevadas. Ele reduziu simbolicamente de 19,5% para 19%, prometeu que ia colocar uma quantidade maior de dinheiro no mercado, o que fez com a redução do compulsório que era recolhido para o Banco central - de 10% para 0%. Significa que vai sobrar mais dinheiro na mão dos bancos que, teoricamente, poderiam repassar ao consumidor a um preço menor, na lei da oferta e da procura. Do ponto de vista prático, não vejo nada que possa acontecer neste momento para trazer a taxa de juros que hoje se cobra 9% ou 10% para 5% ou 6%", afirmou.
Ismanhoto disse que o problema dos juros não é exclusivo do Brasil. Ele esteve recentemente no México e percebeu que a taxa básica de juros é de 9%. Porém, os juros cobrados dos consumidores são bem mais altos.
"Na economia mexicana, por exemplo, a situação
é muito parecida com a nossa e até pior", afirmou.
O economista Reinaldo César Cafeo, 38 anos, professor da ITE, destaca que em relação ao IOF, as operações já vão estar mais em conta, uma vez que se embutia 6% aos ano, proporcional ao período do empréstimo. Agora, será somente 1,5%. Segundo ele, com a taxa menor, a taxa de juros deverá cair entre 0,2% a 0,5% na taxa de juros cobrada pelas instituições financeiras.
Cafeo destaca que a concorrência entre os bancos poderá forçar uma queda mais acentuada em alguns bancos, puxadas pelas reduções dos bancos oficiais, como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal (CEF), que já anunciaram uma redução. Ele destaca que o mercado está mais líquido, com a redução a zero porcento compulsório. Porém, analisa que os bancos ainda estão com medo do calote e, por isso, continuam muito seletivos na concessão de créditos.
O economista Carlos Roberto Sette, 50 anos, concorda que, de início, a redução deverá ocorrer somente nas operações com IOF. A médio prazo, acredita que a eliminação do depósito compulsório deverá provocar uma redução nas taxas de juros, que devem ser reforçadas pela redução da inadimplência.
Por outro lado, Sette diz que o governo foi tímido em suas medidas, que são de ordem conjuntural, apesar de ter acertado. Ele acredita que o governo deveria ter reduzido o compulsório sobre os depósitos à vista nos bancos e diz que a medida não foi tomada pela insegurança do governo em passar reformas estruturais, como a tributária e a contribuição previdenciária para os servidores inativos. "Como não tem certeza dessa duas vitórias ainda neste ano, tenho a impressão de que foi pouco arrojado com medo de abrir mão de algumas coisas e a inflação voltar, fazendo com que perca o foco principal da política econômica que desenvolve", afirmou.