Geral

Estragos da chuva

Rita de C. Cornélio
| Tempo de leitura: 6 min

Tibiriça vira um canteiro de obras

Tibiriçá vira um canteiro de obras

Texto: Rita de Cássia Cornélio

O distrito de Tibiriçá, ontem, se transformou em um grande canteiro de obras. Moradores, funcionários da Prefeitura, do Estado, fazendeiros e voluntários formaram um grande mutirão para limpar e recuperar os estragos feitos pela forte chuva de granizo que caiu naquela localidade, no início da tarde de domingo.

Ontem o distrito estava em estado de "conserto". Equipes da Telefonica, Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), Prefeitura, Departamento de Água e Esgoto (DAE) e particulares tentavam recuperar a energia e a rede de telefonia fixa. Para se ter uma idéia, não sobrou uma só antena, parabólica ou não. Todas foram danificadas. Os vidros das janelas das casas também foram bastante atingidos.

O prejuízo provocado pela chuva está sendo contabilizado pela subprefeitura, mas deve ter atingido bem mais da metade das residências do distrito. Os funcionários das fazendas vizinhas foram dispensados do trabalho ontem para ajudar na recuperação dos danos das residências. Além dos danos materiais, o vendaval acompanhado de chuva de granizo assustou muito os moradores, que vivem de maneira pacata, num lugar onde ainda é possível ouvir o canto dos pássaros.

A dona de casa Tereza Basílio, 53 anos, disse que nunca viu nada igual. "Parecia que estavam despejando tijolos das nuvens. Fiquei tão assustada que tive dor no peito e fui socorrida ao Pronto-Socorro. Cheguei a pensar que estava tendo um infarto", contou.

Ela lembra que após a chuva, que durou pouco tempo, o desespero foi total. "Todo mundo saiu para as ruas chorando e contabilizando os estragos. Minha vizinha teve que se esconder no banheiro, único cômodo com laje, para não ser atingida pelas pedras de gelo", disse.

A dona de casa Maria Aparecida Silva contou que a tampa da caixa d'água de sua casa voou e foi parar na casa do vizinho.

"A gente só ouvia o barulho. Para nós, foi uma eternidade os cerca de 20 minutos de chuva. Pensei que ia morrer ao lado de meus filhos", disse. A mulher diz que perdeu a antena, telhado da casa, televisão e videocassete, além da casa ter ficado alagada.

Apesar do susto e do grande prejuízo, os moradores de Tibiriçá não foram feridos, com exceção do ajudante geral Paulo Sérgio Martins, 22 anos. Ele levou uma "surra de granizo" no caminho de casa em uma bicicleta.

Dilúvio

O antigo morador de Tibiriçá, várias vezes subprefeito, José Cosmo, conhecido por "Baté", confessa que tremeu de medo. "Na hora da chuva eu pedi a minha família que mantivesse a calma, porém estava tremendo de medo", revelou.

Ele classificou a chuva como algo anormal. "Eu nunca vi nada igual. Parecia um dilúvio. Eu pensei que não ia parar de chover e todos iríamos morrer."

Serviço: Quem puder ajudar os moradores de Tibiriçá doando telhas deve entrar em contato pelo telefone 235-1061, deixar o endereço onde as telhas podem ser recolhidas.

Mais de 120 pessoas passam a noite alojadas em escola

As aulas da única escola de Tibiriçá, E.E.P.G. Major Fraga, foram suspensas no dia de ontem. Hoje, as aulas devem ser retomadas. Segundo o diretor da escola, Ariovaldo Oliveira Franco, os desabrigados, cerca de 122 pessoas, passaram a noite de domingo para segunda-feira nas salas de aulas.

"As salas foram transformadas em dormitório. A cozinha, ao invés de merenda, fez comida para os moradores", disse. O diretor e os professores trabalharam recolhendo doações e separando roupas e sapatos para as pessoas que perderam tudo o que tinham.

"Nós recebemos muitas doações de roupas e sapatos e estamos separando para fazer a doação", disse o diretor. A escola ficou sem luz e sem telefone. Ontem, a energia já tinha sido recuperada. Franco lembrou que o espírito de solidariedade foi muito grande. "Depois da chuva tinha cerca de 300 desabrigados. Seus familiares que moram em Bauru vieram buscá-los", contou. O prefeito Nilson Costa, acompanhado por Franco, percorreu os locais mais afetados, avaliando as dimensões do problema juntamente com os moradores.

A população de Tibiriçá, pouco mais de duas mil pessoas, é formada de idosos e de trabalhadores rurais. Muitas famílias - o número total ainda não tinha sido contabilizado -, perderam tudo: móveis, utensílios, roupas e eletroeletrônicos. O subprefeito, Marcelo Fraga, disse que o prejuízo maior foi nas residências. "Praticamente todas as casas tiveram o telhado danificado. Os carros também foram danificados", lembrou. Das casas, 26 delas sofreram grande danos.

Fraga diz que diante da situação traçou prioridades.

"Temos dois mil moradores e pedimos cerca de dois mil metros de lona para a Prefeitura. Vamos socorrer primeiramente os idosos sozinhos e as mulheres que moram sozinhas", disse.

A Prefeitura de Bauru enviou, ontem, 20 homens das várias secretarias para Tibiriçá, quatro caminhões, duas peruas e uma picape, além de 11 mil telhas e lonas.

"Estamos recolhendo as telhas quebradas e os galhos para poder estender as lonas. As telhas vamos distribuir depois. Estamos contando com a doação de telhas para poder ajudar a todos", disse.

O subprefeito acredita que a população de Bauru irá ajudar os moradores do distrito a reconstruir a cidade.

"Os fazendeiros e comerciantes estão colocando caminhões e camionetes a disposição nossa para buscar as doações de telhas."

O morador da rua José Pereira Rangel, 1-13, perdeu tudo o que tinha dentro da casa. Só sobrou a geladeira e o som. A família perdeu a televisão, colchões, roupas e eletrodomésticos. O filho do dono da casa, o motorista José Fernando Esteves Rodrigues, explicou que a casa foi muito atingida. "O telhado não resistiu e a água da chuva atingiu tudo o que havia dentro", relatou.

O motorista também não trabalhou ontem. "Hoje

(ontem) estou ajudando a população. Tenho dois caminhões que estão transportando os restos de telhas. Vanilza Aparecida Vieira, que já morava na antiga estação ferroviária de Tibiriçá, teve que dormir na escola. "Eu e as quatro crianças tivemos que ir para a escola porque o telhado da casa ficou danificado. A água da chuva entrou em tudo. Nem sei o que vai dar para aproveitar", disse.

Perda rural

De acordo com informações do subprefeito de Tibiriçá, Marcelo Fraga, a chuva de granizo também causou estragos na área rural. "Ainda não tivemos tempo de contabilizar os estragos. Sabemos que a produção de abacaxi, coco e outras plantações estão comprometidas.

A horta e a produção de mudas da prefeitura, que produz hortifruti para a merenda escolar, foi totalmente destruída. Até os canos que conduz água para molhar a horta foram danificados. A plantação de beterraba, abobrinha e as verduras de folhas não sobreviveram. Os criadores de frango também perderam grande parte dos pintinhos e dos frangos prontos para abate.

Comentários

Comentários