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Indústria cafeeira

Marcos Zibordi
| Tempo de leitura: 5 min

Café deve agregar valor para competir

Café deve agregar valor para competir

Texto: Marcos Zibordi

Nova fase da indústria cafeeira exige otimização da produção e marketing do produto

Garça - A economia cafeeira brasileira, principalmente neste século, deu suporte e acompanhou os ciclos econômicos do País. Nessa história, tecnologia, mecanização e produtos químicos substituíram as rudimentares formas de plantio e, na maioria dos casos, resultaram em evolução. No atual panorama, as melhores perspectivas resultam de soluções baseadas na otimização da produção e marketing do produto.

O diagnóstico é de Ruy Bonini, 63 anos, engenheiro agrônomo, que trabalhou durante 35 anos na área de extensão rural da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo. Aposentado como diretor da antiga Divisão Regional Agrícola (hoje EDR), ele participou de todo o ciclo do café na região, desde a implantação dos primeiros processos de mecanização e utilização de insumos agrícolas nas lavouras.

Segundo ele, a pioneira região de Garça foi o pólo de difusão para o Brasil da tecnologia implantada no café.

"A década de 20 foi a época de abertura do café aqui, que começou migrar para terras férteis".

O solo, conhecido como arenito Bauru, tinha uma série de restrições para vários tipos de culturas

"mas naquela fase o que interessava era a fertilidade do solo, e ele tinha".

A plantação, feita em covas no sistema de quadras, era coberta para proteger a muda até ela atingir força. Utilizando um método extrativista que acabou com as florestas do interior, o solo foi se exaurindo, a produtividade caindo e a lavoura ficando velha.

Diante do quadro, na década de 60, foram criadas as Unidades de Assistência, pioneiras na instalação do novo sistema de plantio do café. A cultura passava por um período difícil, de baixa produtividade e, mesmo assim, acumulava estoques. "Ninguém acreditava em adubação química, em recuperação do solo. Não haviam recursos técnicos; o café ia acabando e a região sendo abandonada".

"Renovar para salvar"

A implantação de tecnologia na cultura cafeeira começa com essa campanha. "Nós já tínhamos uma cafeicultura implantada e pensávamos em alguma mecanização rudimentar", conta Bonini.

A primeira grande mudança foi a formação de mudas em viveiros cobertos. A terra também passa a ser tratada com produtos químicos e o plantio incorporou técnicas dos sulcadores de solo e adotou ruas paralelas. O espaçamento mas adensado comportava um maior número de plantas, aumentando a produção por área.

Na década de 70, um fator mudaria a tecnologia e exigiria a mecanização definitiva do café. A ferrugem, um verdadeiro "espantalho" nas plantações, foi combatida com pulverização, outro tabu dos agricultores, que acreditavam na poda para combaterem a praga. "A dificuldade para implantação disso foi imensa".

Tecnologicamente, o trator cafeeiro com bitola estreita foi outra evolução enorme, forçada pela ferrugem. O pulverizador tratorizado veio nesta esteira, com capacidade para revolver folhas. A colhedeira de café também é desta época.

A geada de 75 foi uma verdadeira catástrofe. Em 78, 79 e 81, outras geadas diminuiriam o parque cafeeiro no Estado, ao passo que ele se expandia em Minas Gerais e Paraná.

Já com lavouras em nível, a década de 80 ratificou o uso de tecnologia nas plantações. A indústria introduz adubadeiras, aplicadores de herbicida, pulverizadores, granuladeira e roçadeira nas lavouras, para abaixar custos e aumentar a produtividade.

Em 89, o Brasil sai do Acordo Internacional do Café, um acordo entre os países produtores e consumidores que regulava a oferta e mantinha um referencial de preço. "E ninguém estava preparado para administrar isso. Os preços cairam violentamente". Em 90, o governo Collor extingue o Instituto Brasileiro do Café (IBC), órgão federativo regulador da política interna, cuja equipe técnica foi dissolvida e o trabalho perdido e disperso. "Isso ajudou a jogar o mercado para baixo".

O café exedente da superprodução da década de 80 foi estocado pelos Europeus. "Nesse período das vacas magras a tecnologia se intensificou mais inda". Um milhão de hectares de café deixou de ser plantado.

O preço da saca subiria novamente em 94, com a geada. Os preços começaram ser administrados e os estoques regulados. Em 96, com o fim do estoque e os preços ainda em alta, começou a corrida para o plantio, desta vez com recursos próprios. "E hoje nós estamos dimensionados de uma forma até exagerada em termos de área. Se não tivesse esse problema de seca, nós teríamos problemas de exedente".

O consumo interno cresceu muito, passando de seis para 12 milhões de sacas, volume igual ao da produção do México.

"Nós ganhamos isso em oito anos com a Abic fazendo campanha, melhorando a qualidade do café fornecido em mercado, fazendo propagandas e trazendo novas tecnologias".

"O pulo"

"O desafio dessa região agora é entrar neste terceiro ciclo histórico". Isso significa ter planejamento da propriedade para que se possa mecanizar melhor a lavoura, fazer ruas mais curtas e pensar na qualidade do café. "Quem tiver coisa ruim na mão, não vai ter para quem vender".

Como a produção é feita por países pobres e consumida por países ricos, a qualidade é o fator principal. Resíduos tóxicos, por exemplo, devem ser eliminados.

Produtos que respeitem o meio ambiente em seu cultivo também serão preferidos pelos mercados. "A barreira não vai ser alfandegária, mas ecológica".

O produto melhor preparado tem rentabilidade maior, fazendo sua própria propaganda das vantagens do produto, tanto da forma como foi produzido quanto dos benefícios da bebida.

Segundo Bonini, a cafeicultura da região está preparada para disputar neste mercado. Produtora do "café duro", especial para ser tomado, nosso produto tem boas chances. "Nós precisamos começar caracterizar esse padrão de café, trabalhar com publicidade caracterizando as qualidades deste café, para você ter colocação. Temos que comercializar diferente também, porque o mercado procura".

Ao lado disso, mecanização de colheita e redução de custos são os princípios básicos para qualquer produtor. Inovações genéticas e pesquisas estão no mercado para facilitarem o plantio. Existem, por exemplo, materiais resistentes à ferrugem e ao nematóide, uma praga que atormentou muito os produtores. Os pés devem obedecer um padrão mais uniforme, porque a colheita mecânica exige. "A genética já nos forneceu variedades e linhagens mais produtivas. Nós temos uma série de recursos na mão que é só saber aplicar que nós vamos poder permanecer na atividade", receita Bonini.

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