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Astronomia

Ana Maria Ferreira
| Tempo de leitura: 10 min

Astrônomos amadores brasileiros flagram explosão estelar

Astrônomos amadores brasileiros flagram explosão estelar

Texto: Ana Maria Ferreira

A astronomia amadora vem ganhando espaço e reconhecimento junto aos astrônomos profissionais devido a dedicação das observações e das constantes descobertas de fenômenos cósmicos

A Astronomia tem mapeado os "passos" de cometas, estrelas e planetas desde o surgimento do homem na Terra. É como dizer que os dois foram feitos um para o outro. Esse namoro, que dura há uma eternidade, tem uma legião de seguidores por todo o planeta, em especial no interior de São Paulo onde, recentemente, dois astrônomos amadores testemunharam a rara explosão de uma estrela na Constelação de Vela.

O professor de física Márcio Mendes, de Dois Córregos, fotografou a explosão da Nova de Vela por acaso, antes mesmo que outro apaixonado pelas estrelas o advogado Renato Levai, de Campinas, fizesse a observação visual. Levai tem uma memória invejável quando se fala em localização de astros, ele sabe de cor a posição de duas mil estrelas e, como diariamente monitora a passagem de satélites, acabou surpreendido pela explosão da Nova.

Esse "batismo" reavivou a discussão de que o trabalho destes amadores pode e tem contribuído muito com a ciência, através das insistentes observações e da rara memória de gente que fixa os olhos do céu. A fórmula é caseira e o trabalho, nos últimos anos, está organizado em grupos de pesquisa e observação e na troca constante de informações. O professor Márcio Mendes é um dos membros da Rede de Astronomia Observacional - REA - fundada em 1988, e hoje coordenada pelo engenheiro químico Tasso Napoleão, tendo por objetivo a troca de experiências observacionais e o encaminhamento das descobertas cósmicas dos brasileiros para a União Astronômica Internacional (IAU) com sede em Paris, que é quem registra e valida o trabalho. Para Tasso Napoleão da REA, as fotos de novas antes das descobertas e na etapa de ascensão são raríssimas e sempre têm interesse científico assegurado, ainda mais neste caso, quando uma das fotos foi feita um dia e meio antes da descoberta inicial feita pelos australianos.

Nova ou Supernova

O que diferencia uma Nova de uma Supernova

é a potência da explosão, ou a quantidade de energia que ela lança para o espaço.

A explosão observada por Mendes e Levai foi de uma Nova na Constelação de Vela que aumentou 350 mil vezes o brilho da estrela, sendo possível avistá-la até em grandes cidades em meio a poluição, como São Paulo. O fenômeno das Novas é raro e a última observada foi em 1975, na Constelação de Cisne.

O professor Márcio explica os detalhes da explosão e o por que este é um fenômeno raro e importante. "Esse processo de explosão não acontece no centro da estrela, acontece em camadas intermediárias da estrela. As camadas externas são expelidas e as regiões internas são compactadas. Ela continua existindo como uma estrela , mas ela perde uma boa parte do material. A supernova

é uma explosão total, que pode gerar anãs brancas ou buracos negros. A distância da nova de Vela está estimada em 6500 anos-luz da Terra, a explosão então já aconteceu. As estatísticas apontam para 20 a 25 estrelas novas na nossa galáxia, por ano. Visto por essa perspectiva talvez não seja tão raro, mas a maioria delas explodem e o máximo que elas atingem de brilho

(magnitude 7 em média) fica invisível a olho nu. Essa é considerada rara pelo brilho que ela alcançou, em torno de 2,5. Como ela só a de 1975 na constelação de Cisne. Existe também uma categoria de novas que é chamada de nova recorrente, ela é periódica e pode voltar a explodir, mas não sabemos se este é o caso da Nova de Vela. Depois da explosão de Vela houveram mais duas, uma na Constelação da Águia.

O que interessa aos astrônomos é conhecer a curva de luz de uma estrela, a maioria das informações da literatura você encontra o máximo e o ramo descendente, poucas vezes você tem informações sobre o ramo ascendente e, nesse caso, pudemos observar dois pontos do ramo ascendente e um monte de pontos descendentes. Continuamos a monitorá-la diariamente", finaliza Márcio Mendes.

Trajetória de um astronômo

O professor Mendes conta sua trajetória astronômica, desde 1971 quando ganhou seu primeiro telescópio, e explica a importância da observação amadora do cosmos que têm gerado bons frutos e material consistente para as pesquisas de observatórios do mundo todo. Os brasileiros já representam o segundo lugar no ranking da astronomia amadora. Tanta dedicação e fascinação pela astronomia tem seus motivos e começa geralmente na infância.

Jornal da Cidade- Como você vê a astronomia amadora hoje?

Márcio Mendes - Acho que a astronomia amadora está muito divulgada. Eu faço parte da Rede de Astronomia Observacional - REA - que é um grupo que está trabalhando para estreitar os laços entre amadores e profissionais e tem obtido resultados positivos. Nós queremos alertar as entidades de pesquisa de que nós temos condições, hoje, de disponibilizar dados confiáveis. A astronomia amadora está diferente de anos atrás. Você tem amadores usando fotografias com CCD, algo bastante sofisticado, fazendo medidas de magnitude até 17º, 19º o que era exclusivo de observatórios de pesquisa. Hoje a gente pode contribuir com muitos dados e a prova disso

é que existem brasileiros que trabalham em conjunto com astrônomos do exterior, participando inclusive na publicação de estudos.

Jornal da Cidade- Alguma iniciativa concreta foi tomada pelas entidades brasileiras da

área?

Márcio - Fomos convidados pelo diretor do Laboratório Nacional de Astrofísica

- LNA - o maior complexo astronômico brasileiro para podermos conversar que tipo de trabalho pode ser feito conjuntamente. O coordenador da REA enviou uma mensagem dizendo que "é dos brasileiros da REA a maior parte das estimativas visuais reportadas a IAU, o acervo brasileiro é o mais representativo já visto".

Jornal da Cidade- Por que a descoberta da Nova de Vela foi tão importante ? Você conhece seu parceiro da descoberta?

Márcio - Ainda não há um registro de um brasileiro que tenha feito a descoberta de uma estrela Nova dessa magnitude, existe uma "competição" entre astrônomos da América do Sul e da Austrália. Não existe um brasileiro, por exemplo, que tenha descoberto um cometa. Existe sim um esforço, o pessoal está patrulhando muito o céu. Nesse episódio quase nós tivemos isso.

O colega Renato Levai é uma pessoa excepcional, eu o admiro muito porque ele tem uma memória fotográfica. Eu admiro uma pessoa que consiga olhar para o céu e descobrir alguma coisa diferente entre tantas estrelas e, de fato, ele observou e quando consegui reportar aos coordenadores da REA, que por sua vez tentaram reportar a IAU foi uma loucura porque os australianos conseguiram reportar a mesma descoberta ao IAU com uma antecipação de meia hora só. A IAU lançou uma circular - com efeito de um diário oficial da astronomia depois que ele publicaram ninguém discute - validando a descoberta do Levai em conjunto com os australianos. Pela primeira vez a gente tem um brasileiro como descobridor de uma estrela Nova. Não adianta nada você descobrir um cometa e guardar na gaveta, então você precisa validar sua descoberta.

Jornal da Cidade- Você poderia descrever as etapas das suas fotos da Nova?

Márcio - Eu vinha fazendo fotos da região onde a Nova foi descoberta e dias depois da descoberta oficial, eu revelei minhas fotos e percebi um pontinho e na sequência, com intervalo de dois dias, ficou mais nítida a luz. As fotos foram feitas muito próximas do máximo do brilho e talvez por isso a imprensa tenha dito que eu fotografei o estágio final da explosão da nova. Eu fotografei muito próximo do máximo. Na verdade eu tenho duas fotos anteriores à data da descoberta oficial, que foi dia 22 de maio, às 18h30. A primeira do dia 14 e a segunda do dia 21 (foto).

Quando eu percebi acho que eu passei pela mesma emoção que o Renato, foi uma correria para scanear e enviar as fotos para o grupo. Foi uma semana nervosa porque o pessoal da IAU é bastante rigoroso, afinal de contas a responsabilidade é toda deles. A veracidade das fotos foi checada de todas as maneiras, tive que responder a uma infinidade de perguntas e no dia 16 de junho recebi uma circular

(7203) com o reconhecimento das fotos. Eu não entendi muito bem esse processo, mas até onde pude entender eu acho que faço parte também do rol dos descobridores, embora tenha uma foto de pré-descoberta tardia.

Jornal da Cidade- As fotos são mais importantes que a observação visual ?

Márcio - A foto é um documento e na literatura da astronomia são poucas as fotos de estrelas que explodem, principalmente do ramo ascendente. Ela começa o processo de explosão e vai se alterando até que atinja esse máximo. A maioria das informações que a gente tem é depois que ela atingiu o máximo e começa o seu declínio, mas nesse momento já houve alteração estrutural. Essa é uma das fotos raras da astronomia onde foi possível registrar o antes e o depois do brilho máximo.

A foto pelo que eu sei foi publicada na Noruega, Japão, Estados Unidos, Argentina então eu acho que ela fez algum barulho.

Para fazer essa foto eu usei um filme de 800 asas, com um temo de exposição de uns 20 segundos.

Jornal da Cidade- Por que você estava com a câmera apontada para a região da Constelação de Vela? Algo em especial uma vez que a explosão ainda não tinha ocorrido?

Márcio - O trabalho do astrônomo Augusto Daminelli foi capa da revista Sky and Telescope e ele apresentou um estudo sobre a variação de estrutura ou de comportamento espectroscópico da Eta Carinai e acertou em cheio, é difícil explicar, mas ele consegui "prever" quando ocorreria a próxima alteração na estrela que nós temos monitorado e que casualmente nos proporcionou a oportunidade de registrar a explosão da Nova de Vela. Eu fotografo em função das informações que recebo do REA. Trocamos muitas mensagens e desde janeiro havia a possibilidade do aparecimento da Eta Carinae, que há 155 anos não era visível. Estava monitorando a Eta Carinae (ponto avermelhado na foto) e aconteceu a explosão da Nova. Esta estrela se vier a explodir, pela massa que ela tem e pelo comportamento, os astrônomos esperam que ela se torne uma Supernova, que é fenômeno raro. Em toda a história da humanidade existe o registro de umas cinco Supernovas apenas. A última Supernova data do início do milênio e foi registrada pelo chineses e se tornou tão brilhante que era visível a olho nu.

Jornal da Cidade- Então a Carinae é a menina dos seus olhos?

Márcio - Ela

é estupidamente grande, algo em torno de 100 vezes a massa do Sol. Dentro do sol caberia 1,3 milhão de planetas Terra. Na Eta Carinae caberia 130 milhões de planetas Terra. Pela massa e a distância em que está, uma explosão teria uma magnitude -15, o que significa dizer que a luz da explosão estaria entre a de uma lua cheia (-5) e o sol (-26). O olho humano vê até a 6ª magnitude.

A Eta Carinai tem dado aos brasileiros alguma esperança de reconhecimento e desde o início deste ano estamos monitorando suas atividades porque existe uma esperança de que ela se torne uma Supernova, e se isso acontecer vai ser o fato do século, porque a massa dela á algo brutal que com certeza vai causar mudanças nos estudos de astronomia e a possibilidade de podermos acompanhar esse processo é maravilhosa.

Jornal da Cidade- Quando seu observatório deve começar a funcionar?

Márcio - Espero que em breve, estamos com um problema no sistema giratório do teto, mas isso é coisa simples de resolver. É um sonho meu poder aliar um observatório equipado com as escolas de uma forma geral. Eu construi um observatório na chácara que moro e pretendo implementar a pesquisa. A preocupação que a gente tem hoje é preparar o aluno para fazer o exame vestibular então parece que nesse processo se perde um pouco o gosto pela ciência e o jovem termina os três anos de colegial cheio de "x" e "y" e não sabe bem onde utilizar isso na vida prática, e muitas das leis da física que eles aprendem você pode ver funcionar na prática, na astronomia, na natureza.

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