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Geneticista

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 10 min

Mente que brilha

Mente que brilha

Texto: Gustavo Cândido

Nascido em Santa Cruz do Rio Pardo, o biólogo-geneticista Esiquiel de Miranda veio para Bauru no dia do aniversário da cidade em 1966, aos onze anos de idade. De origem humilde, instalou antenas e sempre estudou com bolsa de estudos. Fez Biologia na antiga FAFIL, atual USC, mestrado e doutorado na UNESP de Botucatu, especializando-se na área de genética, sua grande paixão desde a adolescência. Em entrevista ao JC, o Dr. fala sobre esse momento de grande destaque da genética, de assuntos polêmicos como aborto, paternidade, alimentos transgênicos e sobre sua história de vida, que acaba se confundindo com sua caminhada profissional.

Jornal da Cidade - Como nasceu seu interesse pelo mundo da Ciência?

Dr. Esiquiel de Miranda - Meu pai era um auto-didata e a maior herança que ele me deixou foi sua biblioteca. Lá, tinha desde Sócrates e Platão até Dante e Maquiavel, sem contar os autores nacionais. Foi isso que fez despertar meu interesse pela leitura, hobbie que cultivo até hoje. Com 11 anos, pouco antes de vir para Bauru, li um livro que se chama "Os três MMM". O livro conta a vida de Morgan, Müller e Mendel, entre outros. Fiquei fascinado! Pesquisei Mendel. Descobri que ele foi para o convento porque era pobre e lá realizou uma das mais importantes pesquisas desse século: o estudo com ervilhas, início da genética. O que me chamou a atenção foi descobrir que o pesquisador morreu sem saber a importância daquilo que havia descoberto. Três anos mais tarde, eu soube que era portador de Mal de Chagas. Esse tropeço do destino fez aumentar ainda mais o interesse pelo estudo científico. Não parei mais. Fiz de Mendel meu exemplo de vida. Se ele não desistiu pela precariedade de seu tempo, eu não desistiria por um simples problema de saúde.

JC - E então, quais foram os seus caminhos para atingir seus objetivos?

Dr. Esiquiel - Aos 16 anos eu tive que colocar um marca-passos. Foi um susto que me fez atrasar um pouco os planos. Larguei o SENAI, que cursava na época, e iniciei a 5ª série. Meu objetivo já era a genética e eu sabia que para atingi-lo precisava cursar Medicina ou Biologia. Minhas condições físicas e financeiras me "ajudaram" a optar pela Biologia.

JC - Sua vinda para Bauru o ajudou em sua trajetória?

Dr. Esiquiel - Sem dúvida. Aqui eu fiz muitos amigos...na verdade a cidade inteira!

JC - Como assim?

Dr. Esiquiel - Quando eu tive que trocar de marca-passo pela segunda vez, uma campanha que envolveu toda a população bauruense liderada pela Irmã Carmem Pullito foi a responsável pelo sucesso da minha cirurgia. Esse tipo de atitude faz com que a gente passe a ver as pessoas como parte de nossa família. Apesar de não ter nascido aqui, Bauru é minha casa. Foi essa cidade que me empurrou para enfrentar todos os desafios que a vida me reservou.

JC - Sua vida profissional, como todos sabem, se fez no Centrinho. Qual é o seu envolvimento com a instituição?

Dr. Esiquiel - É muito grande. Eu consegui entrar lá como atendente de enfermagem, depois de ter sido obrigado a desistir em vários outros concursos da FOB por ser portador de marca-passo. O Dr. José Alberto de Souza Freitas, o Tio Gastão, já era responsável pelo Centrinho na época. Isso foi em 1975. Ele me disse, como me lembro até hoje: "o único problema que não tem solução é a morte". Então, eu comecei a trabalhar no outro dia. Daí para frente, o envolvimento foi cada vez maior. Chegou a ter um dia, quando eu ainda usava marca-passo recarregável, que o próprio Dr. Gastão pegou uma ambulância e saiu feito louco, comigo desmaiado, para recarregar meu marca-passo em casa. Além disso, ele também sabia o quanto eu gostava da genética e me deu a oportunidade de tocar um laboratório de citogenética que estava desativado antes mesmo de eu concluir meu curso de Biologia. São coisas difíceis de se esquecer. O envolvimento é muito grande mesmo. Eu acho até que dentro do centrinho, eu fui um dos iniciantes na genética.

JC - As pesquisas também começaram nessa época?

Dr. Esiquiel - Sim, pois o Centrinho sempre foi uma ponte entre pesquisadores de todo o país e inclusive do exterior. Além disso, foi nessa época que eu tive a oportunidade de conhecer o Professor Walter Pinto Junior, na época chefe do Departamento de Genética Médica da Unicamp, com quem eu estagiei por algum tempo e trabalho até hoje na realização de vários exames de genética, inclusive o DNA. O Walter foi um mestre e é um amigo.

JC - Por falar em DNA, todos sabem o quanto esse exame é caro e distante da realidade da população brasileira.

É possível dizer que essa técnica vá se tornar mais acessível no país algum dia?

Dr. Esiquiel - Antes de mais nada, vamos deixar claro que o exame de DNA não serve apenas para casos de paternidade. Apesar de poucos saberem, o exame também é importante para o diagnóstico de portadores de algumas doenças genéticas, como é o caso da hemofilia e da distrofia muscular. Além disso, o DNA já é utilizado na produção de algumas vacinas, da insulina humana e dentro de pouco tempo estará sendo utilizado em alguns procedimentos de laboratórios de patologia. Bom, mas quanto ao exame de DNA, ele realmente é um pouco caro para a realidade brasileira. O exame sai em torno de R$1200,00. Existe um projeto do Governo de São Paulo para que a partir do ano 2001 o IMESC realize esses exames gratuitamente.

JC - E por falar em realidade social brasileira, como é trabalhar com uma técnica tão avançada diante da saúde pública brasileira?

Dr. Esiquiel - Na realidade a ciência é muito discriminatória pois para se produzir um conhecimento científico ou uma nova tecnologia existe um custo social muito grande e na maioria das vezes somente as pessoas mais abastadas conseguem ter acesso a um tratamento ou a uma tecnologia de ponta. Essa

é uma frustração com a qual o cientistas do mundo todo são obrigados a conviver. Eu acho que cabe realmente ao Estado promover uma saúde pública que seja mais preventiva do que curativa e que inclua, assim, as técnicas de DNA.

JC - Além desses casos, como a genética está presente na vida das pessoas atualmente?

Dr. Esiquiel - Acho que é uma pergunta muito genérica. A genética está presente em nosso dia a dia desde os noticiários da descoberta de um novo gene dentro do projeto genoma até uma nova técnica de terapia gênica, que é a utilização das técnicas de DNA para amenizar o sofrimento em uma determinada doença genética ou até mesmo a construção de uma costela como foi recentemente anunciado. Existe ainda o aconselhamento genético e o diagnóstico pré-natal.

JC - E a história dos alimentos transgênicos? Isso também é um tipo de alteração genética?

Dr. Esiquiel - Na realidade, os alimentos transgênicos são alimentos geneticamente alterados em laboratório. No passado havia o surgimento de novas espécies através de alteração genética natural, conhecidas como mutações. A participação do homem estava limitada na realização de cruzamentos específicos para obter uma melhora genética animal ou vegetal.

JC - Sua opinião é contrária a estes novos alimentos?

Dr. Esiquiel - Os alimentos transgênicos estão causando grande polêmica porque são variedades alteradas em laboratórios para resistirem a uma certa praga ou a um herbicida. Com os conhecimentos atuais não podemos avaliar o impacto ambiental e de saúde pública, pois não sabemos o risco de custo-benefício. Além disso, nenhum dado até o momento prova que esta é a solução para a fome mundial deste final de século. Sou contra até que se prove o real benefício e se mostre os reais interesses financeiros em torno do assunto.

JC - O que são aconselhamento genético e o diagnóstico pré-natal?

Dr. Esiquiel - São dois procedimentos distintos e interligados. O aconselhamento genético envolve toda uma investigação da história familiar e mais exames específicos de uma pessoa que esteja preocupada com uma doença genética presente nela ou em um de seus familiares. Está interligado com o diagnóstico pré-natal porque na maioria das vezes são gestantes que procuram um geneticista com essa preocupação.

JC - Esses procedimentos que foram citados podem detectar uma má-formação do feto. Quando isso acontece, de acordo com a lei brasileira, a gestante pode optar por interromper a gravidez?

Dr. Esiquiel - Realmente isso pode ser detectado. O que você não disse é que essa má-formação pode ocorrer em diversos graus. Desde um dedinho torto até a falta do cérebro do bebê. Nesta última condição, por exemplo, existe uma incompatibilidade com a vida. Casos como esse já geraram jurisprudência para a interrupção da gravidez

JC - Em casos onde são detectadas más-formações graves, a sociedade está pronta para receber esta criança caso a mãe opte por prosseguir com a gravidez?

Dr. Esiquiel - Geralmente a sociedade não está preparada para conviver com os deficientes ou com crianças mal-formadas. Isso é uma triste constatação. Mais triste ainda, é verificar que muitas vezes a própria equipe médica não está preparada para receber uma criança com má-formação. Pior ainda é saber que o Estado não possui aparato nem para as crianças fisicamente normais. Muito menos para as mal-formadas. Mais uma vez fica valendo a lei de quem tem condições financeiras para arcar com uma situação dessas.

JC - Esse é tema polêmico. Afinal, nestes casos, como geneticista, o senhor é a favor ou contra o aborto?

Dr. Esiquiel - Como geneticista eu sou obrigado a apontar os riscos e a real situação de cada gravidez. Em casos onde a mulher pode optar pelo aborto, eu oriento o que a lei permite. Eu não posso interferir na decisão que for tomada pela paciente. Quanto a mim, como pessoa, sou contra o aborto. Mas, por outro lado, minha profissão me coloca

às vezes em questionamento: como um legislador pode obrigar uma mãe que já tem ou teve uma ou mais criança mal-formada, sabendo que está gerando outra criança com o mesmo problema, levar essa gestação até o final?

JC - Qual a futuro que se pode esperar para o estudo da genética no Brasil?

Dr. Esiquiel - O Brasil possui um grande número de expoentes na genética clássica e agora também na genética molecular. Além disso, o país se destaca mundialmente por ser um celeiro de uma biodiversidade ainda desconhecida e muito cobiçada por pesquisadores de todo o planeta. Dependendo de uma legislação que assegure soberania sobre essa biodiversidade o Brasil, com certeza, possui potencial para tornar-se um dos líderes mundiais no avanço genético.

JC - O senhor possui uma formação como educador de uma das três maiores universidades estaduais - a UNESP. Além disso, possui sua carreira ligada diretamente à USP através do Centrinho. Juntando tudo isso com a sua própria formação básica, como o senhor vê o debate de assuntos tão polêmicos, como os tratados em nossa entrevista, com a juventude atual?

Dr. Esiquel - Eu cito sempre em minhas aulas um pensamento que não sei quem é o autor: "Não eduque uma criança apenas para vencer na vida e sim para ser feliz. Assim ela aprenderá o valor das coisas e não o seu preço."; e a própria Bíblia diz:

"...ensine a criança no caminho que deve andar e até quando for velho não se desviará dele.". Os valores de nossa sociedade estão invertidos ou deteriorados a ponto de se confundir formação com educação. A formação é constituída por todas as informações acumuladas pelo indivíduo em sua formação acadêmica e em sua experiência de vida. Já a educação tem que estar presente na vida da pessoa desde o nascimento dentro do ambiente em que vive e está diretamente relacionada à formação do caráter do indivíduo. E, tendo educação e oportunidade para se obter formação que se cria um cidadão consciente, capaz de debater esses ou qualquer outro tema que possam abalar a estrutura social. Assim, essa pessoa vai estar preparada para reconhecer os verdadeiros valores.

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