Hemocentro precisa de mais doadores
Hemocentro precisa de mais doadores
Texto: Patrícia Zamboni
Apesar de terem aumentado em relação ao ano passado, as doações ainda não ocorrem em quantidade para deixar setor tranquilo
Com uma média mensal de 800 doações por mês, o Hemocentro de Bauru, instalado no Hospital de Base, encontra-se numa situação satisfatória, mas ainda não
é a ideal. De acordo com a diretora do Hemonúcleo de Bauru, Telma Cristina de Freitas, para uma atuação mais segura e para atender toda a demanda o número ideal seria o de 1.000 doações mensais. "Precisamos fazer pelo menos 1.000 coletas por mês para que possamos ter uma quantidade que nos deixe um pouco mais tranquilos para poder atender não só Bauru, como também os hospitais da região", observa a dra. Telma. Atualmente, o Hemocentro local ainda precisa do auxílio do Hemocentro de Marília, que mensalmente tem colaborado com o fornecimento de cerca de 100 a 150 bolsas de sangue. Pelo fato de o HB atender a um número elevado de emergências, o total de 800 bolsas de sangue no estoque torna-se preocupante. "Não tem faltado sangue, mas se não tivéssemos o suporte de Marília, certamente teríamos problemas", afirma a médica Telma de Freitas. Na sua opinião, a população tem se conscientizado cada vez mais sobre a importância de doar sangue. No ano passado o número de doações por mês girava em torno de 600.
A cada doação são feitos dez tipos de exames para concluir se o sangue é saudável, mesmo que o doador já tenha feito isso outras vezes e passado pelos mesmos exames. Esses testes irão constatar se há ou não presença de vírus da hepatite B, hepatite C, HIV, HTLV 1 e 2 (raramente diagnosticados), de chagas e sífilis.
"O que é mais comumente diagnosticado entre os doadores
é um tipo de anticorpo que nós temos contra o vírus da hepatite, que chama-se anti-HBC. Possuir esse anticorpo significa que o doador teve contato com o vírus, mas não necessariamente
é um indivíduo doente. Significa que em algum momento da vida ele teve contato com a hepatite, talvez tenha desenvolvido uma doença subclínica sem manifestações mas fica com o anticorpo presente na circulação. Aí então é feito um outro exame para confirmar se não tem risco da doença, mas mesmo a positividade desse anti-HBC já exclui aquela bolsa de sangue", explica a dra. Telma. Segundo ela, o HBC positivo está presente em cerca de 3% dos sangues coletados.
Um dado muito preocupante, de acordo com a diretora do Hemonúcleo,
é que atualmente existe uma incidência crescente de hepatite C. Apesar dessa incidência significar algo em torno de 0,5%, a dra. Telma ressalta que a hepatite C é uma doença muito grave, porque em 40% dos casos pode evoluir ou para cirrose hepática ou para câncer de fígado.
"Nós acreditamos que a hepatite C vai ser o problema da saúde pública na próxima década", afirma a dra. Telma Cristina de Freitas. A contaminação
é através do sangue, relação sexual ou via agulha. A doença está crescendo porque existe uma população de indivíduos infectados que estão transmitindo. "Portanto, o uso de preservativo
é importante não só contra o vírus HIV", alerta a doutora. Os casos de chagas também preocupam porque são recentes, enquanto se acredita que seja uma doença em extinção. Já a incidência de sífilis vem diminuindo.
Segundo a dra. Telma, o sangue coletado que não pode ser aproveitado é embalado em sacos plásticos especiais e submetido à autoclavagem, um processo de esterilização que faz com que o sangue deixe de ser contaminante. Após isso, vai para um lixo hospitalar especial. Todos os meses cerca de 100 bolsas de sangue são inutilizadas.
Total coletado
De acordo com a dra. Telma, dos doadores que chegam até o Hemocentro do HB, cerca de 20% já são descartados na entrevista, que levanta informações sobre o comportamento sexual da pessoa, doenças e transfusões anteriores, doenças infecciosas na família, uso de drogas, entre outras. Dos candidatos que passam para a fase seguinte, alguns são excluídos após efetuar o exame de hematócto, sendo maior o número de mulheres nesses casos. "Devido
à menstruação, existe uma incidência muito alta de mulheres com um nível de hematócto baixo para a doação de sangue, ou seja, perto de apresentar um quadro de anemia. "Para doar sangue é preciso ter taxa 39 de hematócto, e frequentemente as mulheres que têm um volume menstrual maior acabam tendo hematócto de 37 ou 36. Não dá para dizer que é anemia, mas se a doação de sangue for feita, com certeza a mulher ficará anêmica", explica a dra. Telma.
Isso significa que, a cada cem doadores, 80 passam pela entrevista inicial e chegam até o banco de sangue. Dessas 80 pessoas, 67 chegam efetivamente a fazer a doação. Segundo a dra. Telma, todos os meses cerca de 100 bolsas de sangue são inutilizadas. "Por isso, é fundamental ter o que chamamos de doador constante, ou doação fidelizada. Essas são as pessoas que doam mais de três vezes. Elas são importantes porque estão testando seu sangue a cada quatro meses, e são pessoas esclarecidas, já orientadas por nós sobre as doenças infectocontagiosas. Ou seja, o doador constante oferece menos risco e maior segurança para o próprio serviço. O doador fidelizado é o alvo do banco de sangue", observa a diretora. Segundo ela, atualmente o Hemocentro possui entre 35% e 40% de doações fidelizadas. Felizmente, trata-se de um número considerado muito alto para o Brasil.
Mário Augusto Lopes de Campos, 23 anos, representa um exemplo incomum de jovem que faz doações constantemente. Há um ano e meio fez sua primeira doação devido à uma campanha feita na Universidade em que estuda, e desde então doa sangue a cada três meses. "É uma coisa simples, segura e rápida. Uma atitude simples que tem um grande benefício para muita gente. É muito bom poder ajudar as pessoas que precisam", afirma Mário Augusto.
Aos 35 anos de idade, Ednilson Alves doa sangue há 15 anos.
"A primeira vez fui de certa forma induzido a participar de uma campanha, mas depois disso não parei mais de doar. Já doei sangue para vários amigos que precisaram e é muito bom ajudar alguém. As pessoas precisam tomar consciência da importância desse ato tão simples para nós que doamos, e tão importante para quem recebe", observa Ednilson.
Custo alto
De acordo com a diretora do Hemonúcleo de Bauru, o custo para manter um banco de sangue é alto. Além dos gastos com a equipe de funcionários - que inclui enfermeira padrão com nível superior, assistente social e bioquímicos
-, grande parte do material utilizado e alguns kits de testes são importados, e isso demanda um alto investimento. Um kit com 100 testes para HIV, por exemplo, custa R$ 1.800,00. "É um serviço bastante caro para ser mantido", diz a dra. Telma. As bolsas importadas para armazenamento de sangue são compradas por R$ 80,00. As nacionais de qualidade compatível a essas giram em torno de R$ 25,00.
Cada um dos hemocomponentes (componentes do sangue) têm períodos de vida diferentes. Os glóbulos vermelhos são armazenados em temperaturas de 1 a 6 graus e têm durabilidade de 35 dias em média, dependendo do tipo de bolsa. As plaquetas (células retiradas do sangue utilizadas para conter hemorragias) duram de três a cinco dias. O plasma, quando extraído até quatro horas após a coleta,
é considerado fresco e tem todos os fatores de coagulação vivos. É então submetido a um congelamento rápido e armazenado em freezer à temperatura de 20 graus negativos. A durabilidade do plasma fresco é de um ano. Depois disso ainda pode ser utilizado até cinco anos, mas já sem os fatores de coagulação viáveis. Neste caso serve para reposição proteica, entre outras funções.
Perfil do doador
De acordo com a dra. Telma de Freitas, quase a totalidade dos doadores de sangue têm entre 30 e 50 anos de idade. "Temos doadores que colaboram com a gente há 20 anos", comenta a dra. Telma. As doações feitas pelo público jovem na maioria das vezes são "induzidas". Geralmente são de estudantes de escolas e universidades que fazem campanhas de incentivo à doação de sangue, e também de jovens do Tiro de Guerra.
Para se tornar um doador de sangue é preciso partir de algumas características básicas:
. ter entre 18 e 60 anos
. peso mínimo de 55kg
. não ter histórico de doenças infectocontagiosas
Além disso, antes de fazer a doação é preciso tomar café da manhã normalmente e dormir bem na noite anterior para não ter problemas de estresse no momento da doação.
A coleta de sangue é feita de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 10h30.
Ministério da Saúde autoriza verba para a construção de um novo prédio
Texto: Patrícia Zamboni
Desde 1997 o Hemocentro de Bauru, juntamente com o de Marília
(coordenador técnico da região), está pleiteando junto ao Ministério da Saúde a liberação de uma verba destinada à construção de um novo prédio, mas na época esse caso não foi considerado prioridade. Em julho deste ano uma equipe de médicos do Hemocentro de Bauru, tendo à frente o superintendente da Associação Hospitalar de Bauru (AHB), Reinaldo Rocha, foi diretamente à Brasília com o objetivo de fazer nova solicitação ao Ministério para a liberação dos recursos. Há cerca de três semanas o Hospital de Base foi contemplado com uma autorização para a liberação de R$ 850 mil destinados à construção de um prédio de 1.000 metros quadrados que vai abrigar o novo Hemonúcleo de Bauru. Acrescido de uma verba de R$ 150 mil proveniente do próprio HB, o valor total disponível chega a R$ 1 milhão.
Agora está sendo finalizado o projeto do prédio, desenvolvido pelo engenheiro Salvador Aversano, e a próxima etapa é o encaminhamento deste projeto para o Ministério da Saúde para então ser feita a liberação oficial deste dinheiro. A previsão é de que as obras sejam iniciadas no começo do próximo ano, e dentro de aproximadamente um ano o novo Hemonúcleo estará pronto. Essa verba já inclui a compra de alguns equipamentos que no momento o Hemocentro local não possui. Tudo será informatizado, o que resultará na melhoria do controle de qualidade.
Serão dois pavimentos dotados de total infra-estrutura para os trabalhos de coleta, processamento e transfusão de sangue, atendimento a hemofílicos (que ainda não encontram atendimento específico na cidade), salas de treinamento para as equipes de agências de transfusão e salas para o desenvolvimento de pesquisas nessa área. Oferecendo mais conforto, a equipe do Hemocentro de Bauru acredita que aumentará o número de doadores. O objetivo é atingir 1.200 coletas por mês, mas a meta final é de chegar a 1.500 para atender com tranquilidade à demanda de toda a região.
"Com este novo prédio teremos estrutura para isso", afirma a dra. Telma Cristina de Freitas. Segundo ela, atualmente a demanda está muito alta em relação à estrutura da qual o Hemocentro dispõe.
Com o novo prédio, a atual sala de coleta de sangue com capacidade para atender quatro doadores de cada vez, será substituída por outra devidamente equipada e preparada para fazer até dez coletas simultaneamente.