Líder político: conquistar ou legislar?
Líder político: conquistar ou legislar?
Texto: Adriana Amorim
A figura do líder político, aquele representante popular que consegue conquistar a comunidade e ao mesmo tempo funciona como ponte entre a administração municipal e os governos estadual e federal já não faz mais parte da realidade local. Foi-se a época das grandes conquistas que acabavam rendendo benefícios à cidade e dividendos políticos.
Bauru não esbarra em uma liderança política com essas características há vários anos. A situação vem gerando descontentamento de muita gente, que aponta a ausência desse tipo de político
- principalmente dos deputados - como responsável pelo distanciamento entre Município e outras esferas do governo e, por tabela, pela falta de novas conquistas para a cidade.
O assunto gera opinião diversas. Alguns bauruenses acreditam que a época do líder que funcionava muito mais como conquistador do que articulador e legislador, já não existe mais (veja matéria ao lado). Para outros, a carência de uma liderança política à moda antiga é visível e prejudicial.
O presidente do Sindicato Rural de Bauru, Maurício Lima Verde, inclui-se nesse último grupo. Para ele, a carência de lideranças em Bauru tem um nome: falta de renovação. Ele argumenta que o quadro político bauruense é o mesmo a quase uma década, o que causa o desgaste do próprio político e a descrença do eleitorado.
Na sua opinião, o que traz mais problemas para Bauru é a falta de um deputado federal. "Se a cidade não tem esse canal, não consegue obter nada", acrescenta. Para tentar viabilizar benefícios para a agricultura, ele confessa que encontra dificuldades e afirma que não consegue enxergar um político que possa ser uma liderança bauruense com boa representatividade no Congresso Nacional. "Não vejo um emergente, principalmente um emergente com viabilidade política".
Para o presidente do Sindicato do Comércio Varejista (SinComércio), Walace Sampaio, a falta de lideranças bauruenses é um fato recente e fruto da renovação nos cargos políticos devido ao processo eleitoral. Mas não acredita que as perdas da cidade possam ser atribuídas a esse quadro, mas sim ao desgaste que a imagem da cidade sofreu devido aos transtornos políticos envolvendo o ex-prefeito Antonio Izzo Filho.
Mudança de postura
O jornalista Nivaldo José acrescenta que a crise financeira e a falta de aproximação da Prefeitura com instâncias superiores do poder estariam dificultando o desenvolvimento da cidade. Ele defende uma mudança de postura dos prefeitos, que na sua opinião deveriam manter um relacionamento mais estreito com os deputados da cidade e também desempenhar a tarefa de correr aos governos estadual e federal em busca de melhorias para a cidade. "Seria mais fácil se todos falassem a mesma língua porque é difícil viabilizar as idéias sem ter esse meio de campo", emenda.
José diz que a função de uma liderança política - leia-se deputados - é o de representar os interesses da coletividade, papel que ele acredita estar ser cumprido pelos deputados estaduais Pedro Tobias e Carlos Braga.
Como reverter a situação? Sampaio tem uma alternativa.
"Precisamos fazer uma campanha apartidária para conseguir eleger lideranças através da mobilização de pessoas que queiram o bem da cidade e não levam em consideração apenas as conotações partidárias". Ele diz que outras cidades já apostaram nesse tipo de articulação e conseguiram lançar bons nomes.
Pulverização do voto extingue a liderança
Para o diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), José Luiz Simonelli, Bauru vive hoje as consequência do que ele denomina de "pulverização de lideranças", o que seria a diversidade de políticos em partidos diferentes. Na sua opinião, a grande quantidade de líderes, nem sempre expressivos, é fruto da má organização partidária.
Simonelli diz que esse é o preço pago pelas vantagens da abertura política e da pluralidade de opiniões. O eleitorado ganha com a grande quantidade de alternativas, mas perde ao pulverizar o voto e eleger muitos representantes que nem sempre assumem o papel de liderança.
Ele acredita que existem políticos que podem ser tornar líderes expressivos. Mas com uma condição.
"Desde que haja consenso das organizações políticas no direcionamento do número expressivo de votos, fazendo assim com que esse líder possa chegar onde precisa e para que a cidade saia ganhando, não o partido saia ganhando", acrescenta.
Com saída, o representante do Ciesp defende a desvinculação partidária e a redução do número de partidos. Ele acredita que a política já está dando provas de que esse pode ser o caminho. "Sou a favor do homem público e não de partidos", resume.
Constituição de 88 redefiniu conceito
A descentralização dos poderes instituída na Constituição de 1988 destruiu o conceito da liderança
- principalmente do deputado - que tem o papel de conquistar benefício para seu reduto eleitoral ao mesmo tempo que tornou essa função desnecessária. A opinião é dos jornalistas Maria Dalva Hatori e Zarcilo Barbosa, que acreditam em líderes políticos mais legisladores do que conquistadores.
Como município, Estado e União conseguiram mais autonomia e houve a descentralização inclusive dos recursos financeiros, os jornalistas afirmam que não é mais necessário que uma cidade tenha lideranças com o perfil do antigo deputado.
"A descentralização e o fato das lideranças municipais não estarem preparadas para essa nova realidade
é que provocou isso que a gente imagina ser um enfraquecimento de nossas lideranças", argumenta Maria Dalva. Na sua opinião, essa falta de preparado é que tem originado os grandes golpes de corrupção no poder municipal em geral, que passou a receber um montante maior de dinheiro, mas nem sempre soube empregá-lo em benefício de toda a coletividade.
Maria Dalva diz que esse despreparo frente ao novo sistema faz com que as cobranças continuem excessivas em torno dos deputados, enquanto a tarefa deles é a de legislar. Por isso, ela é contrária à peregrinação dos políticos à Brasília em busca de recursos financeiros e acredita que Bauru não deve lamentar a falta de lideranças que desempenhem essa função.
"O sistema mudou e esse paternalismo de estar passando dinheiro de mão para mão é até nocino para o País", defende. A jor nalista diz que o ideal seria que as "negociatas" fossem trocadas pelas emendas ao Orçamento.
O jornalista Zarcillo Barbosa também afirma que a descentralização influenciou no quadro político atual de Bauru e de outras cidades. Agora, ele acredita no líder como o representante que não trabalha para tentar angariar recursos dos cofres públicos para o município, mas aquele que conquista o apoio da população e faz a cidade avançar porque elabora projetos que não visam benefícios próprios. Além disso, seja caracterizado pela idoneidade moral e ideológica.
Zarcillo diz que o empresário Moussa Tobias se enquadra nessas características. "Ele gosta e conhece a reação do povo, mas até agora prefere ficar longe da administração pública", acrescenta. Ele acredita que os próprios partidos e o eleitorado enfrentam dificuldade para eleger um líder, chegando ao ponto de apostar em "aventureiros".
Segundo ele, esses "aventureiros" estariam tomando o espaço que no passado foi ocupado por prefeitos como Alcides Franciscato e Nicola Avalone Júnior, figuras consideradas pelo jornalista como as últimas lideranças locais.
Líder responde aos anseios do grupo
O professor de Psicologia Social da Universidade Estadual Paulista
(Unesp), Celso Zonta, explica que a ciência define uma liderança como alguém que atende aos anseios do grupo a que ela representa e é capaz de responder a essas expectativas buscando esferas de poder superiores à do grupo que ela atende. É no líder que a população deposita credibilidade, expectativa e esperança.
Ele explica que um representante sindical, um deputado ou um prefeito podem ser lideranças, desde que cumpram com o seu papel. Um prefeito, por exemplo, pode ser um burocrata que administra a cidade como uma empresa. Nesse caso, não assume o papel do líder. Torna-se uma liderança quando, além de administrar, é capaz de criar expectativas positivas na população e ser uma figura com opiniões respeitadas.
"O que nós temos tido em Bauru é um conjunto de prefeitos que não têm sido lideranças nesse sentido", afirma. "Não são capazes de arrebanhar messianicamente os grupos da comunidade".
Zonta cita também o caso dos populistas, pessoas que ocupam o espaço de liderança, mas não atuam em benefício da população. "Esse é um falso líder, o que também tem acontecido na cidade", acrescenta.
O professor acredita também que Bauru não passa por uma carência de líderes. O que acontece é que cada um tem seu perfil de atuação. Discorda, portanto, que Bauru tenha se distanciado das conquistas devido
à falta de lideranças expressivas na política e defende a idéia de que não cabe aos deputados o papel de buscar recursos junto aos governos estadual e federal, tão pouco atuar no "varejo".
"O deputado é um fiscal do poder público e um legislador", afirma. "O fato dele conseguir uma coisa aqui ou lá para a sua cidade é detalhe da sua função, mas não deve ser o elemento central senão vamos transformar o deputado em um estafeta de luxo". As cobranças, na sua opinião, devem ser feitas dos poderes estabelecidos.
"Se é de responsabilidade do município, cobremos dele; se não é, cobremos do Estado o que cabe a ele ou da União, se for o caso".
Zonta ressalta que o dever do deputado é propor projetos que beneficiem a sociedade em geral e não apenas um grupo dela. Ele diz que se o papel do deputado fosse o de conseguir recursos para a cidade, as comunidades não teriam o direito de ter oposição, uma vez que a menor ou menor dificuldades na obtenção de benefícios leva em conta a afinidade partidária entre deputado e governo.
Celso Zonta acredita que a tarefa de conquistar melhorias para a cidade - atribuída geralmente ao deputados -pode ser assumida pelos prefeitos. "A função do prefeito não é só de administrar a cidade, mas trazer recursos, fazer projetos inquestionáveis, discutir com o poder público estadual e federal".