Superfãs
Superfãs
Texto: Gustavo Cândido
Posters pela casa toda, coleções de discos, revistas, figurinhas, fotos, vídeos, uma quase histeria quando o
ídolo aparece na televisão ou faz um show próximo, som no volume máximo no aparelho. Se você é ou conhece alguém assim sabe que a descrição
é a de um verdadeiro fã. Eles são iguais em todos os lugares e em todas as épocas. É só lembrar a beatlemania nos anos 60, a menudomania nos 80, entre outras "manias", passando ainda pelos eternos admiradores de Elvis Presley, Jim Morrison, John Lennon, Kurt Cobain, Raul Seixas, Cazuza ou Renato Russo, mais recentemente. Atitude típica da adolescência, "endeusar" um artista da música pode não ter nenhum efeito nocivo e ser apenas uma forma de passatempo. Como o de muitas garotas bauruenses que estão ansiosas para assistir ( e se possível chegar o mais perto o possível) de astros da música do momento como Alexandre Pires, o vocalista do grupo Só Pra Contrariar e da dupla Zezé Di Camargo e Luciano, que vão estar na Grand Expo Bauru.
O amor da fã Eliane Fernandes pelo ídolos Zezé Di Camargo e Luciano beira a devoção completa. Admiradora dos cantores sertanejos desde que a dupla surgiu, com o sucesso
"É o Amor", no início da década de 90, Eliane, hoje com 19 anos, cursando o 3º colegial, acompanha cada passo dos artistas e tem o seu quarto, que divide com a irmã Edilene, completamente coberto de posters, fotos e até recortes de jornal da dupla. Edilene, fã de outro sertanejo, o cantor Daniel, diz que não é tão exagerada como a irmã, "sou normal", brinca.
A admiração de Eliane chega a espantar, ela chega a deixar lágrimas caírem dos olhos quando fala nos
ídolos, que espera ver, mais uma vez, no show do próximo dia 13. "Já fui a muitos shows deles, até sem autorização da minha mãe. Além de achá-los lindos e cantarem músicas românticas maravilhosas, acho que eles são diferentes, unidos, eles demonstram carinho em família", diz, justificando toda sua fascinação.
A mãe de Eliane, Geni Inácio Mota, não acha que gostar de um artista possa fazer algum mal à filha, mas lembra o quanto ela já gastou com objetos da dupla.
"Tem muito dinheiro nesse quarto dela, mas isso a alegra tanto que eu não acho que seja negativo", diz.
Eliane conta que não tem namorado por causa de Zezé e Luciano. "Eles não entendem a minha admiração pela dupla, acham que eu me dedico mais a eles, por isso fico sempre sozinha", revela.
Tão fãs quanto Eliane são Márcia Regina Lira e Aline dos Santos, só que além da dupla sertaneja, as amigas, de 17 e 16 anos, respectivamente, gostam também do grupo de pagode Só Pra Contrariar. "Acho que eles são os melhores, suas músicas são bonitas, boas para dançar, além do Alexandre ser um gato", diz Aline. Márcia explica que gosta do grupo porque, segundo elas eles sabem fazer músicas que as mulheres gostam de ouvir.
As duas amigas guardam juntas objetos, fotos e todos os tipos materiais sobre o grupo e já faltaram na escola só para ver o SPC, como dizem as fãs, na televisão.
"Vale a pena fazer qualquer coisa por eles", afirma Aline sem a mínima ponta de dúvida.
Tendência juvenil
O comportamento das fãs, como Eliane, Márcia e Aline
é muito normal na adolescência, como explica a psicóloga Regina Furigo. "A adolescência marca um período onde a pessoa está formando sua própria identidade, ela está deixando aquele contato familiar e indo de encontro com o mundo, com outros valores que vão compor sua identidade, junto com as coisas que ele já viveu e recebeu da família. Nessa época ele está suscetível a influências externas e é ai que surge o ídolo, que vai ser idealizado como 'homem ideal' ou 'mulher ideal'".
Segundo a psicóloga o adolescente enxerga no seu ídolo suas próprias possibilidades, como se fosse possível fazer as mesmas coisas que ele faz. "Geralmente esse ídolo também é uma pessoa já definida, estabelecida na vida, o que faz com que o jovem se espelhe nessa definição", diz.
Criando a própria imagem
Segundo Regina Furigo o processo de admiração do adolescente pelo ídolo é de pura idealização já que na quase totalidade do casos o (a) fã não o conhece pessoalmente e só obtém informações a seu respeito através da mídia. "O artista e a mídia mostram a imagem que querem mostrar", deste modo o (a) fã não fica sabendo de nada que seja negativo e cria uma figura perfeita em sua mente, ideal para ser adorada.
A psicóloga cita o exemplo de cantores que se mostram muito românticos, mas sempre solteiros, para agradarem as fãs e com isso manterem uma imagem de bons moços. "O mesmo acontece com aqueles que cultuam muito o corpo e malham para se manter sempre em forma, é para não perder o público e continuarem a manter a projeção que os jovens criam", explica.
A quase histeria coletiva dos shows dos cantores é resultado, de acordo com Regina Furigo, do contagio psíquico que esse mundo coletivo favorece. Quando todo mundo grita e chora a sua volta, a vontade de acompanhar fala mais alto.
O efeito do tempo
"Me lembro quando o Menudo esteve no Brasil, acho que em 84, fiquei doente até que meus pais me deixassem ir ao show em São Paulo", conta a dona de casa Daniella Rodrigues, de 28 anos. Como Eliane, ela foi uma fanática na década de 80 pelo grupo de meninos porto-riquenhos que rebolava ao som de canções com letras pouco expressivas, como ela mesmo admite hoje, "mas eu adorava, tinha fotos, discos, figurinhas, tudo, tudo sobre eles", afirma.
Com o passar do tempo Daniella foi deixando os meninos de lado e jogou muita coisa sobre eles fora, deixando em sua coleção apenas algumas fotos e discos. "Tenho saudade daquela época mas acho que exagerei um pouco, se a minha filha for assim, não sei não", avalia, olhando para a pequena Mariana, de apenas 5 anos.
De acordo com Regina Furigo é normal que com o passar do tempo o adolescente deixe de lado o exagero de consumir tudo o que vem do ídolo e passa apenas a admirá-lo, porque já passou da fase de formação, se tornou um adulto e já não enxerga as coisas idealizadas.
"Na evolução natural das coisas o adulto pode ter pessoas que o inspirem, mas não ídolos como no delírio da adolescência, se continuar assim é sinal de alguma coisa não está em equilíbrio nessa pessoa", diz, "o adolescente admira alguém que ele acha que é perfeito, o adulto vê que o artista
é uma pessoa igual a todas as outras".
O comerciante Edson Carlos Freitas diz que sentiu essa mudança conforme foi crescendo. "Eu achava que tinha que ser roqueiro e rebelde como os caras da bandas que eu gostava, que são Black Sabbath, Iron Maiden, entre outras, por isso fui muito rebelde antes, brigava, xingava. Hoje eu vejo que existe muito marketing em cima das coisas, da música em especial. Muita pose. Enquanto eu ficava rebelde os caras ganhavam dinheiro. Continuo gostando do som que esse pessoal faz, mas não quero ser como eles", explica.
Regina Furigo recomenda que os pais não se preocupem quando os filhos adolescente começarem a se dedicar a um "ídolo do momento", "é claro que desde que ele não esteja fazendo nenhuma loucura que comprometa a sua integridade física, como se atirar em shows por ai", ressalta. Para ela é saudável que o adolescente parta em busca de sua identificação e se ele escolhe um ídolo, isso é importante para a formação da sua identidade. O ideal é que os pais entrem no mundo dos filhos e procurem entendê-los e até gostar do que eles gostam, se tornando mais próximos e mais amigos.
Na pele e no nome
É pouco provável que algum amigo o chame pelo nome de batismo, Alberto. Para os que o conhecem atrás da bateria da Banda 69, ele é somente Beto Stanley. O sobrenome estrangeiro assumido por Alberto Quialheiro de Oliveira é o mesmo do
ídolo Paul Stanley, guitarrista e vocalista da banda americana Kiss.
A fascinação pelo grupo começou cedo, quando ele tinha 6 anos, por influência de um primo mais velho.
"Eu ia na casa dele e ele só tocava Kiss, acabei gostando. Hoje, Beto tem no seu quarto, praticamente tudo sobre a banda, discos, posters, vídeos, livro autografado, tudo. O amor ao grupo está marcado até no seu corpo, em uma tatuagem no ombro. Sem se preocupar com a opinião dos outros sobre seus ídolos, "se criticam o Kiss eu falo mal do outros também", diz, Beto, que tem 21 anos, diz que vai continuar a coleção de objetos sobre o quarteto americano,
"eles fazem um rock simples que conquista, o que achar sobre eles, vou continuar comprando".