Geral

Lançamento de livro

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 6 min

Poesia para ler no ônibus

Poesia para ler no ônibus

Texto: Fabiano Alcantara

O poeta e professor Luiz Vitor Martinello, um dos mais respeitados literatos de Bauru, lança amanhã suas obras completas junto com o novo livro "Me Apaixonei Por Mim Mesmo Mas não fui Correspondido"; evento na Cervejaria traz ainda o grupo teatral Azeite de Mamona e a banda Sindicato do Jazz

Ao contrário do aforisma de Nelson Rodrigues, que dizia ser toda unanimidade burra, ele é uma unanimidade inteligente. Poeta dos mais originais e sarcásticos, o professor Luiz Vitor Martinello é reverenciado pela intelectualidade de Bauru como uma vaca na Índia.

Talvez por esse motivo, o lançamento de suas obras completas, que chegam independentes pela Coleção Sobras Poéticas

(que tem projeto gráfico de André Luiz Petraglia e editoração de José de Araújo Filho) junto com o novo livro "Me Apaixonei Por Mim Mesmo Mas Não Fui Correspondido", promete ser um "happening" cultural dos mais animados amanhã, na Cervejaria dos Monges.

Além do lançamento, a festa traz ainda perfomances poéticas do grupo Azeite de Mamona e a banda Sindicato do Jazz. Leia a seguir trechos da entrevista que Martinello concedeu ao JC Cultura ontem à tarde.

Pergunta - Qual é a proposta desse seu novo livro, "Me Apaixonei por Mim Mesmo Mas Não Foi Correspondido"?

Luiz Vitor Martinello - Eu peço a sua licença, mas a primeira coisa que eu queria falar nessa entrevista é para todos os meus alunos e ex-alunos irem lá na Cervejaria para essa festa que estão preparando para mim. Eu queria fazer uma coisa simples, mas foi o Sivaldo (Camargo, diretor de teatro) e o Reginaldo (Tech, professor da Unesp), que fizeram questão de fazer essa festa. Mas vamos lá, na realidade, eu venho dando continuidade à poesia que eu vinha fazendo antes. A minha poesia se encaixa bastante na primeira fase do modernismo. Aí todo mundo fala, está superada, mas a primeira fase do modernismo não penetrou na sociedade. Que é uma reflexão sobre o comportamento, no meu caso, na minha poesia, das pessoas. Eu gosto de ver isso com humor, gosto, sim, de desmistificar comportamentos, de sintetizar comportamentos olhando como se estivesse nos bastidores. Minhas maiores influências são Mário Quintana, Bandeira, Drummond, quando eu estou mais pesado, e Oswald de Andrade, na síntese.

O meu poema, embora pareça não ter uma construção organizada, ele acaba tendo uma estrutura, cada poema cria sua estrutura.

Pergunta - Porque você tem tanta preocupação em desmistificar, debochar mesmo, do fazer poético e da própria arte?

Martinello - Eu não sei. Eu vou brincando mesmo. Eu tenho uma poesia assim, quando a minha filha ia fazer 15 anos, ela arrumou um namorado e eu falei: nós combinamos que você iria namorar quando tivesse 15 anos. "Mas pai só faltam três meses". Não, nós combinamos só com 15 anos. Como eu sou careta! E eu fiz um poeminha baseado nisso. "Da moral burguesa", os títulos tem muito a ver com a minha poesia, as poesias se completam no título, é o batismo dela. Bem, diz assim: "Não sei porque os pais implicam tanto com o primeiro namorado das filhas/ se elas se casam mesmo é com o penúltimo". Ninguém segura a vida. Olha, mas tem muito lirismo também. Mas eu gosto mais dessa brincadeira, tem um assim: "A fragilidade de um passarinho me encanta/ e a meu vizinho, que matou um pra janta" (risos).

Pergunta - Como é que você faz poesia?

Martinello - Eu sinto uma idéia e vou trabalhando. Eu ponho no papel, mas até não ficar contente eu não termino. Às vezes é um verso só, mas esse verso é pensado, repensado, dá impressão que não tem nem elaboração, mas tudo é pensado. Há um desenho no poema, até visual.

Pergunta - Isso me parece ser uma questão bem modernista, a poesia não tem a coisa da evolução tecnológica,

é sempre a palavra e o papel, só lhe caberia, então, a mudança na forma?

Martinello - Eu fico pensando: seria a poesia poesia ou uma minicrônica? Quem sabe, quando não tem rima, por exemplo, eu pensei em chamar esse livro novo de "Cropoemas", depois desisti.

Pergunta - Você não escreve em prosa?

Martinello - Eu até consigo, mas não tem onde divulgar... Quando eu estava escrevendo esse último livro, eu disse em uma entrevista que eu estava lançando os outros três para disfarçar. Tanto que era para sair em outubro do ano passado e demorou tanto, tanto. Mas sabendo que ele ia sair, eu acho que eu produzi quase 50% desse livro este ano. Por quê? Eu sabia que ia ser veiculado.

Pergunta - De repente surgiu um monte de poeta em Bauru. A que você atribui esse surto?

Martinello - É histórico, não é de agora. A gente teve aqui, nos anos 70, as pessoas editando alternativos. Depois, em 80, o grupo Apenas, do Reginaldo, o Raul e o Reginaldo (ambos médicos ginecologistas) e o Pirataria Poética do Nicodemos, também nos 80. Eu fico contente que a maioria dos meus alunos acaba gostando da poesia e editando poesia.

Pergunta - É verdade que você está dando meio ponto para os seus alunos que conseguem publicar textos no Ao Pé da Letra (espaço para escritores de Bauru e região do JC Cultura, aos domingos)?

Martinello - É. Um aluno meu veio me mostrar, "publiquei lá". E eu dei meio ponto, maravilhoso! E aí eu generalizei, vocês querem nota eu dou meio ponto para quem conseguir publicar (risos). É simbólico.

Pergunta - O mundo ia ser melhor, se tivesse mais poetas?

Martinello - É o seguinte, eu acredito que nós somos animais. O que nos diferencia dos animais é a razão e o sentimento. Cada vez que eu ligo a televisão eu percebo que nós somos animais, eu tenho mais convicção disso. Eu acho que a poesia abre essas perspectivas, alimenta esse fator humano, sabe? Nós temos que abafar esse lado animal e ressaltar o humano, a poesia faz isso. Além disso, a poesia tem muita informação. O que é o novo? O novo é a nova informação. Eu vejo um jornal, se as notícias estão sendo parafraseadas, isso não é o novo! Por isso eu acho cada vez mais importante o cara comentar as notícias. A poesia é sempre um comentário de alguma coisa. Minha poesia é muito curta, é impossível que um cara em um ônibus não leia. A poesia mexe com a percepção, mexe com a conduta, por isso que eu me baseio muito no comportamento. Por exemplo, tem o mito do Prometeu, aquele cara que roubou o fogo dos deuses. Então tem um poema que se chama "O Mito de Prometeu". "Estamos na civilização do lazer, os aparelhos domésticos fazem tudo por nós, trabalhemos, trabalhemos, trabalhemos, para comprar aparelhos domésticos". Quer dizer, alguém tem que refletir sobre isso.

Serviço

Lançamento das obras completas de Luiz Vitor Martinello, com a banda Sindicato do Jazz e o grupo Azeite de Mamona. Amanhã, a partir das 19 horas. Apoio Cultural: TV7 Comunicação

& Marketing, Sistema-Coc, Cio da Terra e Secretaria de Cultura de Bauru. A Cervejaria fica na avenida Getúlio Vargas, 7-50. Informações: 234-7773.

Comentários

Comentários