Erosão ameaça o Batalha
Erosão ameaça o Batalha
Texto: Marcos Zibordi
O replantio da mata nativa nas margens do rio e afluentes é a única maneira de salvar leito, flora e fauna naturais
Os ciclos agrícolas predatórios e a abertura de rodovias e ferrovias no interior do estado de São Paulo, neste século, são os maiores responsáveis pelas erosões que ameaçam a vida do rio e do ecossistema natural que dele depende diretamente. O café, depois a cana-de-açúcar e a pecuária, culturas que
"necessitavam" da limpeza cada vez maior de áreas para sua expansão e a abertura de acessos para o transporte dos produtos, criaram os fatores verificados atualmente como responsáveis pelo assoreamento do rio e sua extinção em vários trechos.
Faça você mesmo o teste: de carro, pela rodovia Bauru-Marília, até a cidade de Avaí, com um pouco de atenção serão vistas crateras enormes nas propriedades rurais. São as vossorocas, prenúncio de algo muito indesejável. A areia levada pela enxurrada fica acumulada no leito do rio. Conseqüentemente, ele sobe, perde a direção do leito e logo se transforma num alagado indefinido, que é propriamente um brejo, não um rio. Os peixes e aves que deveriam estar na água a na floresta nativa, também somem. É este o ciclo rápido, danoso e fatal que ameaça rio Batalha.
Na ponte sobre o rio Batalha, em Bauru, o estado do rio é lamentável. Num lugar onde há três anos se podia pescar, a areia subiu o leito do rio que não tem mais de 30 centímetros atualmente. Os peixes desapareceram. Não existe mata ciliar naquele ponto, o que poderia segurar a areia e o monte de latinhas de cerveja, copos plásticos e lixos em geral que estão depositados na margem. A enxurrada traz a sujeira diretamente para o rio (assoreamento). "Eu não vi o rio com tão pouca água como agora", lamenta-se o prefeito de Avaí, Sérgio Andrade Moreira
(PSDB).
Seguindo pela estrada, encontra-se o primeiro afluente da margem esquerda do Batalha. Do córrego Água da Faca, só sobrou um filete d'água. Os proprietários não tomam medidas mínimas de contenção da erosão, como construção de curvas de nível. O pasto
é outro "escorregador" natural para a água da chuva.
O segundo afluente do lado esquerdo, a Água do Paiol, é outro filete d'água, onde também se concentra lixo. Nenhuma mata ciliar neste leito é a causa da sua transformação em veio d'água.
O terceiro e quarto afluentes, ainda na margem esquerda, são os córregos Araribá e Água da Antinha. Neles, a mesma situação: sem mata ciliar e processo de assoreamento avançado.
Lagoas feitas nas chácaras sem o devido critério, estouram com o excesso de água da chuva e descem para o rio. Essa é uma das causas da morte do córrego Água do Lelei. Basta lembrar que a região Noroeste é a que mais tem problemas de erosão por causa do tipo de solo arenoso.
O córrego da aldeia do Guaranis está assoreado na cabeceira. O córrego Araribá está completamente assoreado. Um projeto Federal destinaria recursos para recuperação dos córregos nas áreas indígenas, mas até agora nada foi feito. A Aldeia Araribá é uma das
únicas que tem curvas de nível.
Dentro de Avaí, os córregos Mata Sede, Córrego Fundo e Água dos Patos, na margem direita, sofrem o processo de assoreamento e não tem nenhuma mata ciliar.
O único alento é o Batalhinha, afluente que tem sua mata nativa, e o rio Jacutinga, onde há cinco anos as árvores nativas começaram aflorar porque uma campanha conscientizou os proprietários da necessidade de se preservar o leito do rio. "Quem não puder replantar mata ciliar, que pelo menos não mexa no leito, que a paisagem renasce", afirma Moreira.
Características do solo
Em cerca de 70% do Batalha, o terreno que o circunda tem plantio de cana, depois pastagem e o rio. A cana plantada em terreno plano forma as chamadas ruas ou corredores, que dividem os módulos da plantação. Agrotóxicos, adubo químico, nitrogênio, fósforo e potássio são lavados da plantação e descem pelos corredores de cana. Esses elementos químicos, no final do processo, irão dificultar a purificação da água para consumo.
Esta enxurrada passa depois pela pastagem, onde recolhe os pesticidas aplicados nos animais e areia. Tudo isso junto, cai no rio.
Contraditoriamente, quando existe a mata ciliar, esses produtos são reelaborados e aproveitados como adubo pelas próprias raízes da mata.
Só replantio combate assoreamento
Texto: Marcos Zibordi
A mata ciliar também une os fragmentos de florestas, unindo fauna e flora, formando os chamados corredores ecológicos
Segundo o Fórum Pró-Batalha, os 167 quilômetros de extensão do rio Batalha estão quase todo desprotegido da enxurrada. O Fórum já replantou 15 hectares de mata na cabeceira do rio, na serra de Agudos. A mesma quantia foi plantada ao redor da estação de captação de água do Departamento de Água e Esgoto de Bauru
(DAE). Mas isso é pouco. Segundo cálculo do Fórum,
é necessário o plantio de 100 mil árvores/ano, durante dez anos, para recuperar os 30 metros de mata ciliar no leito do Batalha.
A mata ciliar tem várias funções. Primeiro, protege contra a queda dos barrancos (processo de solapamento) e contém a areia trazida pela enxurrada (assoreamento). Mas não é só. Ela tem função de fornecer alimento para peixes e aves, favorecendo sua procriação, como também as flores e abelhas, que são vetores/multiplicadores de espécies. A mata ciliar também une os fragmentos de florestas, unindo fauna e flora, formando os chamados corredores ecológicos.
As raízes das árvores formam uma espécie de estrutura orgânica que aumenta o poder de absorção do solo; uma esponja de matéria orgânica e argila.
Para se ter uma idéia da capacidade de contenção da mata ciliar, uma chuva na nascente (serra da Jacutinga) demoraria de 3 a 5 horas para percorrer 25 quilômetros de rio. Com a mata ciliar, demoraria um dia.
Os processos de assoreamento, devido ao acumulo de areia no leito do rio, favorecem a entrada de plantas invasoras como taboa e aguapé, fazendo o rio perder a definição do leito e diminuir sua vasão.
As raízes absorvem também os metais pesados, agrotóxicos e pesticidas, reutilizando-os, através dos microrganismos existentes na matéria orgânica das matas ciliares.
As estradas de ferro e rodagem são também grandes responsáveis pelo assoreamento. Elas facilitam o fluxo da água. As barrancas das estradas devem obedecer uma inclinação de 45 º, mas em nenhuma delas se observa o cumprimento desta norma.
Somente nos 23 quilômetros replantados pelo Fórum Pró-Batalha, mais de 60 erosões foram cadastradas.
Segundo o diretor executivo do Fórum, uma verba de R$ 90 mil foi liberada na semana passada para o replantio de mais 50 mil mudas. Serão mais sete quilômetros de margem que receberão mudas nativas. No total, a área replantada vai atingir 30 hectares na margem esquerda (Córrego do Ventura) e direita (Córrego do Viado). As verbas atendem ao programa de "Implantação, recuperação e conservação da mata ciliar da bacia do rio Batalha
- Bacia hidrográfica Tietê-Batalha".