Funcraf afasta funcionários suspeitos
Funcraf afasta funcionários suspeitos
Texto: Adriana Amorim
Dois funcionários da Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Crânio-faciais (Funcraf) foram afastados anteontem de seus cargos pela sindicância do Hospital de Reabilitação Crânio-facial (Centrinho) que investiga denúncias de desvio de passes de transporte coletivo na entidade. Eles devem permanecer fora de suas atividades até o término das investigações.
Foram afastados a coordenadora geral da Fundação, Maria Alice Siqueira, e seu filho Ricardo Palmeiro, que era coordenador de educação dos programas desenvolvidos pela entidade. Assumiram os seus cargos, interinamente, Luiz Otávio Viana e Maria José Monteiro Rufa, respectivamente.
Segundo a assessoria de imprensa da Funcraf, os funcionários afastados eram responsáveis diretos pela compra e destinação dos passes. "Na verdade essa função ficava centralizada neles", argumenta a assessora de imprensa Andréa Pires de Oliveira. Embora ainda não haja provas que confirmem ou não o envolvimento dos funcionários na possível irregularidade, a sindicância preferiu afastá-los para dar prosseguimento às investigações que começaram a ser feitas na semana passada. "É até uma questão moral", acrescenta Andréa.
Os dois coordenadores eram responsáveis também pela administração dos programas desenvolvidos pela Funcraf através do Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação (NIRH) e prestavam contas apenas para o diretor da Fundação, José Alberto de Souza Freitas.
Maria Alice foi uma das idealizadoras dos programas desenvolvidos pelo NIRH , iniciados em 1991 através da preparação dos pacientes para enfrentar o mercado de trabalho. No ano passado, quando as atividades foram expandidas, Ricardo Palmeiro assumiu a coordenadoria de educação.
Os membros da sindicância têm o prazo de 30 dias, contados a partir do dia 12, para entregar um parecer sobre o caso. Segundo a assessoria de imprensa da Funcraf, a primeira fase das investigações inclui os depoimentos prestados por pacientes e funcionários envolvidos nas atividades.
Carta anônima aponta falhas mais graves
Uma carta anônima deixada anteontem na casa do vereador José Carlos Batata, que recebeu as primeiras denúncias de irregularidades praticadas na Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Crânio-faciais (Funcraf), aponta que outras e mais graves irregularidades estariam sendo cometidas por membros da Fundação.
O autor da carta conta detalhes sobre as supostas fraudes que envolveriam ocupantes de altos cargos na Fundação. O vereador preferiu não citar nomes. "A carta diz que há muito mais irregularidades que a relacionada aos passes", reforça.
Uma das denúncias é que o pagamento de salários aos portadores de deficiência que intregram um programa de reinserção ao mercado de trabalho não estaria sendo feito. "O autor da carta diz que o salário não estaria sendo entregue aos pacientes", explica Batata.
A carta aponta outra irregularidade: que os passes de ônibus estariam sendo enviados também para "pacientes" que estão fora do atendimento prestado pela Fundação.
"Eles estariam registrados como recebedores", acrescenta o vereador.
Batata acredita que a pessoa que escreveu a carta transmite informações que merecem ser apuradas, uma vez que aponta detalhes que seriam conhecidos apenas por profissionais que estão em contato com o assunto. O autor das denúncias cita nomes de funcionários e pacientes, informando até o nome das empresas onde eles trabalham e endereço onde as pessoas podem ser encontradas.
Esta semana, Batata pretende encaminhar uma representação ao Ministério Público e entregar a carta junto com o documento. (AA)
Fundação pode ter desviado 5 mil passes
Cerca de 5.000 passes de ônibus podem ter sido utilizados de forma irregular por funcionários da Funcraf. A informação
é do delegado Dinair José da Silva, que conduz o inquérito policial que investiga o caso. "Dados preliminares apontam que aproximadamente 5.000 passes foram comercializados", reforça.
Vários funcionários e pacientes foram ouvidos durante o final de semana e feriado. O delegado solicitou documentos à Funcraf e apreendeu outros. De acordo com os depoimentos, a venda dos passes vinha sendo feita a cerca de quatro meses.
Dinair José da Silva diz que está dando prioridade ao caso e que as investigações devem ser concluídas
"em breve", mas não preferiu citar data. "Vamos tentar agilizar para que a imagem da entidade não fique maculada e que os responsáveis pela irregularidades sejam destituídos punidos". Ele solicita que as pessoas que tiverem informações sobre o caso procurem a delegacia para prestar esclarecimentos.
Se as denúncias forem confirmadas, os funcionários devem responder por crime de peculato (apropriação de dinheiro do Estado). Caso haja participação de pessoas não ligadas à Fundação, elas devem ser enquadradas no crime de apropriação indébita.
O delegado diz que pode apelar para indiciamentos e até detenção caso seja constatado que há envolvidos ocultando informações ou coagindo testemunhas. "Nós não descartamos essa hipótese".
Inquérito civil
O promotor e curador das fundações, José Carlos Carneiro de Oliveira, também investiga o caso através de um procedimento preparatório, que antecede o inquérito civil público. A intenção é apurar se existe envolvimento da direção da Funcraf nas irregularidades denunciadas. "Vamos apurar se houve participação através de omissão ou por ação, ou seja, através de irregularidades praticadas por membros que participam da direção", explica o promotor.
Oliveira diz que pretende utilizar informações presentes no inquérito policial e, se for necessário, levantar outros dados através de depoimentos de funcionários e pacientes. Ele explica que o procedimento preparatório do caso da Funcraf foi aberto quando surgiram denúncias de irregularidades praticadas na Fundação Bauruense de Estudos Odontológicos (Funbeo) envolvendo o professor Aguinaldo Campos Júnior. "Pelo montante que foi anunciado na imprensa, nós precisamos investigar", argumenta.(AA)