João Aiz: o sem-palco
João Aiz: o sem-palco
Texto: Fabiano Alcantara
O cantor e compositor João Aiz, 42 anos, 20 de carreira, pede apoio para representar a cidade no festival de Paranavaí, esta sexta-feira, e cobra a realização de um festival de MPB em Bauru
Ele é uma espécie em extinção, artista engajado e entusiasta dos grandes festivais de música, o músico João Aiz quer levantar a bandeira caipira e da música regional em Bauru e região.
"As regiões de Botucatu, Piracicaba, Tietê e Bauru são o berço da moda caipira, onde surgiram compositores como Raul Torres, Serrinha, Tonico & Tinoco, Angelino de Oliveira e João Pacífico", afirma.
Colecionador de troféus em festivais disputados em todo o Brasil, Aiz cobra os dirigentes culturais locais para a realização de um festival em Bauru.
"É a única forma de se desenvolver a cultura musical local, pelo intercâmbio de artistas", diz.
Mas enquanto o festival não acontece, ele corre atrás da vida, na sexta-feira, representa a cidade em um dos mais importantes festivais de MPB do Brasil, o de Paranavaí, que chega à sua 34ª edição. O músico, no entanto, está buscando apoio de empresários locais para viajar.
"Estou precisando de apoio financeiro e já consegui uma parte com o Bar do Espanhol. A situação está difícil para músicos sem-palco como eu", afirma.
Dono de uma das vozes mais bonitas da região, capaz de timbres que às vezes lembram Djavan e Milton Nascimento, só este ano, Aiz foi finalista de festivais em Santa Bárbara D'Oeste, Jales e Jacarezinho, além de ter vencido a etapa regional do Mapa Cultural Paulista, em Bocaina.
Quem nunca o viu tocar, tem um a boa oportunidade nesta quinta-feira,
às 20 horas, no Centro Cultural Mestre Cirilo (CCMC). Ele se apresenta no projeto Arena, que apresenta atrações locais mensalmente.
No repertório de Aiz, vão estar músicas como
"Fragmentos do Mal", "Teia de Rios", Segredos",
"Violeiros do Apocalipse", América do Sul", além de versões para canções de Xangai, Vital Farias, Geraldo Azevedo, Almir Sater, Renato Texeira e Geraldo Espíndola, entre outros.
Sem-palco
Além de defensor da cultura caipira, João Aiz é, também, compositor de músicas com crítica social, como "América do Sul", que fala dos povos indígenas: "Corre em seus rios o sangue/ De um povo que sofreu invasões e depredações/ Já viveu seu apogeu/ Na América do Sul".
Radicaliza também para defender os sem-terra. "É o único movimento respeitado no Brasil. O único que tem embasamento intelectual e, ao mesmo tempo, é formado por pessoas que chegaram no limite da probreza absoluta. O Brasil tem muita terra e a gente paga muito caro por comida. Tem muita gente passando fome", afirma.
Mais: "Não consigo entender esta história do axé, de fazer carnaval o ano inteiro. É uma alegria sem fundamento, com tanta pobreza, tanta criança de rua, como pode?", questiona.
De acordo com Aiz, se a classe artística se unisse poderia criar um movimento dos sem-palco. "Mesmo em Bauru, que é uma cidade média, os artistas não têm uma vida economicamente estável, se a massificação não fosse tão grande, daria para mudar a situação. A indústria quer discos descartáveis, que vendam muito e depois sejam esquecidos para as pessoas comprarem outro", diz.
Segundo Aiz, no entanto, existe um caminho se abrindo para músicos alternativos como ele. "A cena independente está criando uma vida própria, eu estou vendo um público interessado em ouvir música comprometida com qualidade e não com o dinheiro. Acho ótimo, eu crio por instinto, não com preocupação de vender", finaliza.
Serviço
João Aiz, quinta-feira, no projeto Arena, às 20 horas (grátis). O CCMC fica na avenida Nações Unidas, 8-9. Informações: 235-1092. Contatos com o músico: 223-9462.