Irmãos portugueses plantam uva e colhem vinho
Irmãos portugueses plantam uva e colhem vinho
Texto: Márcia Buzalaf
Dois irmãos portugueses, residentes em Lençóis Paulista, usam da tradição portuguesa para plantar uva virgínia, niagara rosada e niagara branca na propriedade familiar. Os quatro mil pés de uva são voltados exclusivamente para a produção de vinho - comercializada só para clientes da região. Fora totalmente do circuito comercial, os dois produtores podem se deliciar com a plantação de uvas e a produção de vinhos - tudo feito artesanalmente e com muito amor.
Antônio Cristovão, 69 anos, e Joaquim da Silva Cristovão, 66 anos, costumam dizer que a uva é como mulher: tem que passar a mão, agradar e fazer carinho para ela poder dar. A fórmula dos irmãos portugueses para o sucesso da produção de vinho vem de fora. Quando chegou de Portugal, Antônio já havia trabalhado na plantação de uvas desde criança e aprendido lá a lidar com esta cultura.
No Brasil, a produção passou por uma fase de adaptação e algumas variedades de uva que eram cultivadas lá não conseguem sobreviver por aqui.
Antônio chegou ao Brasil em 1954, aos 24 anos. Em 1957, com a mesma idade, Joaquim também aportou em Santos, em um Navio Vera Cruz. Depois de casarem e constituírem família, os dois plantam uva exclusivamente para produzir vinho.
Com apenas um funcionário de fora, que também se chama Joaquim, as parreiras de uvas são cuidadas especialmente pelos dois irmãos. Com tesouras pequenas, os dois passam a manhã toda podando os excessos e desembaraçando os cachos de uva, para que eles sejam colhidos inteiros quando as uvas estão maduras. A próxima variedade que eles vão plantar é a uva barbeira.
A produção em si é feita de forma simples, com o uso de fórmulas caseiras para afastar insetos. Um dos produtos que os irmãos portugueses usam é a mistura de melaço com veneno, que são colocados em garrafas de plástico perto das parreiras. Os dois também fazem a pulverização dos cachos em uma época certa, antes da fruta amadurecer e na dose certa.
O vinho
Para o irmão mais novo, a opção por vender só vinho veio da própria particularidade da uva.
"Se for vender uva, tem que vender verde e eu não gosto. A uva amadurece muito fácil. E se eu vender a uva na cidade verde, o pessoal vai falar que a uva é azeda e não presta", explica Joaquim.
Os dois irmãos vêem a produção de uvas como um trabalho artesanal, onde cada cacho tem seu próprio valor. Uma das regras para se entrar na fazenda quando as uvas estão maduras, segundo Joaquim, é não "beliscar" os cachos para experimentar a uva. Para o produtor, se a pessoa quer comer o cacho todo, tudo bem, mas colher algumas uvas acaba estragando o cacho todo.
Para fazer vinho, a uva deve ser colhida bem cedo. Depois da colheita, feita em geralmente no começo de janeiro, as uvas são colhidas e moídas em uma moenda. O mostro da uva é colocado em tonéis grandes, onde será feita a primeira fermentação, que geralmente dura de seis a sete dias.
A segunda e última fermentação dura mais 90 dias. O processo todo de produção de vinho dos portugueses a partir da uva é de 120 dias.
No ano passado, a fazenda produziu aproximadamente 1,6 mil litros de vinho. Em 97, a produção chegou a 2,5 mil. "No ano passado, estragou muita uva por causa da chuva", explica Antônio. Para este ano, se não chover muito, Joaquim espera que a produção de vinho chegue a 3 mil litros.
O preço do garrafão de vinho dos irmãos portugueses
é R$ 15,00; o litro sai por R$ 3,00. Os clientes do vinho dos dois irmãos portugueses são os próprios amigos e pessoas conhecidas. De Bauru, Antônio afirma, a clientela do vinho é boa.
O que mais prejudica as uvas é a chuva. Quando chove e as uvas estão maduras, geralmente elas racham, caem e azedam, não servindo mais para o vinho. Com a chuva, não se pode colher.
Fora a boa bebida portuguesa, os dois irmãos também plantam pés de laranja, poncã, castanha, pitanga, cereja, oliva, feijão entre outros na propriedade de aproximadamente dois alqueires.