Vale tudo por amor?
Vale tudo por amor?
Texto: Gustavo Cândido
Até que ponto vale a pena esquecer traições para segurar o marido? Fingir que a outra não existe e até suportar o desprezo dele, mesmo dividindo a mesma cama todas as noites? Será que vale tudo para manter o casamento? A opinião das mulheres, pelo menos em Bauru, está dividida, algumas acham que manter a família é a coisa mais importante que existe, outras não suportariam pensar que o marido já esteve com outra mulher no mesmo período. A polêmica sobre o assunto foi despertada pela novela
"Terra Nostra". Na trama de Benedito Rui Barbosa, três personagens: a mãe, Maria do Socorro (Débora Duarte), e as filhas, Rosana (Carolina Kasting) e Angélica (Paloma Duarte), vivem ou já viveram situações constrangedoras por causa dos maridos (Antonio Fagundes, Thiago Lacerda e Gabriel Braga Nunes, respectivamente), que se envolveram com outras mulheres apesar do matrimônio. De modos diferentes, as três lutaram para mantê-los sempre ao seus lados, preservando o casamento e a família.
Na opinião da dona de casa Maria Aparecida Oliveira Simão, 61, a novela é um pouco exagerada quando mostra as personagens fazendo de tudo para manter os maridos em casa, até mesmo se tornando amigas das amantes. "Hoje em dia a mulher tem mais valor do que antigamente, ela é mais independente, trabalha, não tem que se submeter ao marido. Hoje existe uma igualdade", diz. Mesmo assim ela admite que existem algumas mulheres que toleram tudo, "mas acho que a grande maioria não aceitaria".
A advogada Nancy Serrano, 38, afirma que, atualmente, seria muito difícil que alguma mulher fizesse o que as personagens da novela fizeram: "eu não faria", avisa. Segundo Nancy, a mulher de hoje é criada para ter uma profissão e não para se casar e ter filhos como antigamente. "A situação da novela é impossível, a mulher perde a confiança no marido, o respeito por ele, não dá para manter o casamento assim", explica.
Mas nem todas as entrevistadas acreditam que passar por cima de um deslize do marido é uma coisa impossível, apesar dos tempos. "É possível sim. A mulher tem que passar por cima dessas coisas inferiores e preservar a família, principalmente se existirem filhos na relação", afirma categoricamente a dona de casa Neusa de Almeida Duarte, 47. A auxiliar administrativa, Alessandra Muniz da Silva, 24, concorda. Na sua opinião a traição hoje em dia é uma coisa muito comum, quase normal, "é difícil uma relação que não tenha", diz. Se estivesse casada, como as personagens da novela, Alessandra, que pretende se casar em breve, diz que provavelmente colocaria
"panos quentes" na situação.
Épocas diferentes
A psicóloga Maria Lúcia Biem ressalta que a época que a novela Terra Nostra retrata foi um período onde as mulheres fechavam os olhos para as aventuras extra-conjugais dos maridos, faziam "vista grossa" ao assunto, era costume.
"Antigamente o casamento, além de ser imposto pelo pai da moça, era uma forma de garantir a estabilidade financeira da mulher, que dependia do homem, então preservar o casamento não significava apenas respeitar a família e a Igreja, mas também uma era uma questão de sobrevivência", explica a psicóloga.
A grande diferenças das épocas, segundo Biem, é que hoje as mulheres procuram ser independentes financeiramente, exatamente para não ficar a mercê dos maridos, dos homens. "Existem muitas mulheres hoje, que estão presas ao casamento porque se saírem dele não têm como viver, geralmente as mais velhas, que os maridos nunca deixaram trabalhar. As novas gerações viram isso e tentam fugir desse mesmo destino", diz. Mais riscos e exigências
Atualmente, até os riscos de se envolver com uma pessoa fora do casamento são maiores do que no passado, lembra Maria Lúcia Biem, já que as mulheres trabalham fora e em mais profissões. O contato entre os sexos aumentou a possibilidade de surgir um clima de sedução. Isso criou, de acordo com a psicóloga, a possibilidade da mulher manifestar a sua insatisfação sexual com o parceiro.
"Antes elas se sujeitavam ao homem qualquer que fosse o seu desempenho sexual, hoje elas estão mais exigentes com isso e isso também faz com que a mulher passe a não aceitar mais a traição do marido, embora ainda existam casamentos de conveniência por ai, principalmente em famílias muito ricas, para que o patrimônio não se perca", afirma.
Sombras do passado
Maria Lúcia Biem acredita que quando, ainda hoje, uma mulher admite que possa fazer de tudo para manter o casamento, ela esteja manifestando reflexos da cultura patriarcal que imperava até o meio do século. "Muitas mulheres ainda carregam heranças culturais muito enraizadas, que diziam que a família deveria ser mantida a todo custo e não para o seu bem estar.
É uma maneira enganosa de felicidade", diz.
Fingir que uma situação não existe para manter o casamento é se enganar e isso nunca é positivo, todos percebem, principalmente os filhos. "A separação
às vezes é um mal necessário. Às vezes
é melhor uma separação bem resolvida do que um casamento mal-resolvido, muitos filhos dizem isso", conta Biem. Segundo ela, que se finge, preserva-se não só o casamento, mas com ele também as frustrações, os atritos e as discussões.
Acreditar que a traição é uma coisa comum hoje em dia e que, por isso, possa ser perdoada facilmente, é admitir que qualquer um dos cônjuges possa trair sem problemas, diz a psicóloga.
"Se antes se fazia 'vistas grossas' para a traição do marido apenas, pensar desse jeito é fazer o mesmo para o casal", define Biem. Ela acredita que algumas pessoas passam a acreditar que a traição é comum e não enxergam problema nisso. A psicóloga questiona se essas pessoas não conseguiriam ser a minoria e pensar diferente,
"não é porque todos pensam de um jeito que você tem que pensar também e adotar uma prática para a sua vida. Se você pensa diferente de todos, não problema algum em ser a minoria. Não é porque se trai muito que isso se torna aceitável de uma hora par outra, para todas as pessoas".
Manter o casamento é possível?
O que elas disseram:
"É possível sim. O casamento é mais importante do que o deslize"
Adriana dos Reis, 22, solteira
"Nos dia de hoje é muito difícil. As coisas são mais simples e não existe tanta pressão da família. Se o casamento não da certo é mais fácil terminar"
Carollin de Freitas, 17, solteira
"É possível. A mulher tem que pensar no casamento, nos filhos, na família e passar por cima de coisas inferiores.
É preciso ter a capacidade de perdoar. Hoje em dia falta
às pessoas a idéia de família, o respeito a família, por isso que existe tanta violência. As pessoas precisam valorizar mais o lar"
Neusa de Almeida Duarte, 47, casada
"Não. Para manter o casamento não perdoaria um deslize do meu marido. Não haveria mais confiança e isso seria muito ruim"
Patrícia Domingues, 25, solteira
"Não vale a pena manter um casamento com uma pessoa que não demonstra mais sentimento pela gente. Eu acredito que quando se casa com uma pessoa se casa por amor e porque se quer ficar com ela para sempre"
Rita de Cássia Biazon, 42, casada