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Programas de culinária

Gustvo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

Piloto de fogão, não!

Piloto de fogão, não!

Texto: Gustavo Cândido

Mais uma vez os programas de televisão levantam a questão. A década de 80 trouxe um novo modelo de programa feminino no Brasil, o TV Mulher. Com uma série de quadros voltados para o universo feminino, o programa inovava ao falar abertamente sobre sexo e educação sexual, moda, comportamento e tendências de trabalho para as mulheres, fugindo do tradicional programa feminino que colocava a mulher apenas como a cozinheira da casa. O TV Mulher acabou e hoje os programas que dominam as tardes são, como no passado, voltados justamente para a mulher que fica em casa, no fogão. Será que é um sinal que as mulheres, depois de lutarem tanto por igualdades sociais, resolveram assumir a posição de "pilotos de fogão" mesmo? As bauruenses dizem que não.

Tendo as receitas culinárias como o seu forte, os programas

"Note e Anote" e "Mais Você", apresentados por Cátia Fonseca e Ana Maria Braga, respectivamente, são os principais programas voltados para a mulher em tevê aberta no Brasil. As mulheres bauruenses que ficam em casa na hora que estes programas são exibidos admitem que gostam das receitas, mas não acreditam que isso seja sinal de que nasceram para serem apenas donas de casa, como, preconceituosamente, muitos dizem.

"A televisão ainda é muito machista e por isso programas como os da Ana Maria mostram receitas e mulher na cozinha como se isso fosse o que a mulher mais gosta de fazer na vida. Conheço muitos homens que cozinham muito bem e assistem o programa dela. Nem por isso eles são chamados de pilotos de fogão", diz Elisabeth Rodrigues.

O fato de assistir o programa de Ana Maria Braga ou de Cátia Fonseca e gostar dele , não é tido com uma atitude negativa ou preconceituosa contra a mulher, pensam as mulheres entrevistadas no centro de Bauru (veja no boxe).

A totalidade das entrevistadas, 15 pessoas de várias idades e profissões, afirmou que não há nada de errado em assistir a um programa que se baseia em culinária. O problema, segundo elas, é que se pensa que as mulheres só gostam desse tipo de assunto. "Se o programa dela falasse sobre como deixar o marido cada vez mais louco na cama, acredito que muitas outras mulheres iriam assisti-lo. Mas é claro que a emissora, ainda mais a Globo, não vai permitir uma coisa dessas", diz uma funcionária pública, de 32 anos, que preferiu não se identificar. Para ela as mulheres querem saber muito mais do que receitas de comidas e muito mais do que sexo também, querem saber de tudo mas não existe nenhum programa que preencha esta expectativa.

Dona de casa sim senhor!

"Uma coisa é eu ser dona de casa, outra é ser uma escrava da casa", diz Antonia Sanches, 44, "eu cozinho sim, tomo conta da minha família e para mim isso é motivo de orgulho", completa. Antonia salienta que, da mesma maneira que gosta de cuidar da casa, também não dispensa se divertir, sair e fazer coisas novas, "a mulher não pode se enterrar dentro de casa e achar que isso é normal", afirma.

A psicóloga Maria Lúcia Biem a imagem da mulher hoje em dia é a da pessoa que ganha dinheiro, que sai de casa para trabalhar. Isso não significa que o papel da dona de casa deva ser desvalorizado. "Pelo contrário, as mulheres devem valorizar esse papel. Existem muitas mulheres felizes cuidando de casa, mantendo a família", diz Biem. Segundo ela a mulher que fica em casa tem sido tratada de um modo preconceituoso, como se fosse uma pessoa sem talento, sem cultura, que só pensa em cuidar dos filhos e da comida.

"É uma visão errada. Muitas mulheres têm vergonha de dizer que são donas de casa quando não deveriam, ser dona de casa é como administrar bem uma empresa. As mulheres precisam repensar isso", afirma a psicóloga.

Quanto ao programa, Biem acredita que é realmente positivo que as mulheres tenham nele um guia para servir de ajuda em como cuidar da casa, sem que isso se torne uma regra de exclusividade. A mulher pode trabalhar fora, mas tem que saber como cuidar da casa também, segundo a psicóloga, como as entrevistadas disseram. As bauruenses provaram que estão certas.

Lugar de mulher é na cozinha?

"Não, claro que não. Muita gente só vê o programa da Ana Maria porque não tem outro, não é nem para saber de cozinhar"

Lilian Adami, 17

"As mulheres tem todos os direitos dos homens, não deve ficar só na cozinha. Eu já pilotei o fogão hoje, agora estou passeando"

Francisca Muniz da Silva, 59

"Não é só na cozinha o lugar da mulher, ela tem que fazer outras coisas também"

Regina Célia Muniz, 40

"O lugar da mulher não é a cozinha, nós não fomos feitas só para cozinhar"

Sandra Regina Soares, 28

"Não acho que mulher é piloto de fogão. Gosto do programa da Ana Maria Braga, acho até que deveria durar mais"

Rogéria Campos Cardoso, 29

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