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Milton Nascimento

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 8 min

O eterno Bituca

O eterno Bituca

Texto: Fabiano Alcantara

Leia entrevista exclusiva de Milton Nascimento ao JC Cultura onde o músico conta histórias curiosas com bom-humor e revela que já foi contrabaixista de uma banda de jazz; cantor e compositor se apresenta hoje na Cervejaria dos Monges

Não é exagero dizer que se o Brasil tivesse uma voz, essa voz seria Milton Nascimento. Reconhecido por virtuoses de todo mundo, do quilate de Carlos Santana e Wayne Shorter, como um dos maiores talentos vivos do País, Milton segue conquistando fãs em todo mundo. Na distante Coréia do Sul, conseguiu um feito: vendeu 40 mil discos. Mais: trouxe de volta as atenções para música brasileira ao ganhar o Grammy em 98 (esse ano Gil voltou a ganhar o prêmio que é considerado o Oscar da música).

Mesmo com todos estes méritos, ele não foge da sua condição de gente, que sofre e ama como qualquer outra, continua se expondo, se reinventando, enfim, exercendo a música, vivendo a música. Milton se confunde com a sua música. Quem é Milton? É a música, não tente explicá-lo, não tente entendê-lo. Ouça-o, sinta-o. A entrevista a seguir foi concedida com exclusividade em um hotel de Bauru.

JC Cultura - Ser um ídolo brasileiro, um mito, te incomodou o te incomoda em algum aspecto?

Milton Nascimento - Não, pelo contrário. Eu fico até meio aborrecido de estar em lugar que eu não posso conversar com as pessoas. É uma coisa muito triste porque eu sempre gostei de fazer amigos e a gente vai para os lugares e não tem condição. As pessoas só vêem a gente como aquilo. E a gente já é amigo das pessoas porque a gente entra na vida delas pela televisão e elas se julgam muito próximos e não são e não tem conversa e a gente não consegue uma coisa legal... Antes, se eu viesse fazer um show aqui eu ficava uns três ou quatro dias na cidade, antes do show e agora não dá mais. Mas eu tenho que pensar assim, se eu não quisesse ser reconhecido, ficasse cantando no banheiro de casa que tem uma acústica danada de boa (risos).

JC Cultura - Você ainda canta no banheiro?

Milton - No banheiro da minha casa de Três Pontas tinha uma acústica muito boa. Agora eu estou morando no Rio não é tão bom. Lá em Três Pontas, na cozinha, também tinha a cozinha com uma acústica muito legal (risos).

JC Cultura - Me parece que você sempre teve uma preocupação de se aproximar de músicos norte-americanos e latino-americano, como Carlos Santana e Wayne Shorter. Será que a integração do Brasil com as outras américas é um desafio para o próximo milênio?

Milton Nascimento - Eu não sei te dizer, o que eu acho é que por menos que apareça, cada vez mais o pessoal está descobrindo a música brasileira. Porque teve uma época que só sabiam de Carmen Miranda, que foi a primeira grande bomba que surgiu lá fora. Depois a bossa nova, que até hoje faz sucesso. Depois eu apareci, diz o Caetano que eu sou um movimento. Agora estão conhecendo o pessoal do tropicalismo.

Eu acho que está juntando tudo. Eu gravei com Duran Duran, Jon Anderson, Peter Gabriel, James Taylor e mais tanta gente. O pessoal do jazz. É isso que eu acho legal. Agora o mais legal é que eles respeitam tanto a gente que quando a gente faz um trabalho o que aparece mesmo... Por exemplo, se eu faço um trabalho com o Peter Gabriel ele se adapta a minha música, não eu à música dele. Eles me respeitam muito.

JC Cultura - Você influenciou artistas de diversos estilos...

Milton - Existem coisas até que ninguém sabe. Eu estava um dia em Los Angeles e estava o cara que é o líder do Earth Wind and Fire na piscina, eu passei, ele me chamou, eu fui lá, e ele falou poxa, faz muito tempo que eu estou afim de te encontrar porque eu tenho que te agradecer. Porque eu fiz o Earth Wind and Fire baseado em você. Foi aquele disco que eu gravei com o Wayne Shorter, o "Native Dancer" e ele viu que podia os falsetes, gravar com milhões de vozes, que eu fazia naturalmente, ele descobriu ali.

O pessoal do Genesis quando veio ao Brasil estava me procurando, eu não sabia. Quando eles estavam no Rio eu estava em São Paulo e quando eles estavam no Rio eles foram para São Paulo. Mais tarde eu fui encontrar com o Peter Gabriel e tem muitas coisas que você pode pegar nos discos do Genesis que tem influência minha, Yes também. Tudo.

Esse ano eu gravei duas músicas com o maestro da Sinfônica de Chicago.

JC Cultura - Você também tem fãs no mundo todo, não é. É verdade que o álbum

"Angelus" vendeu 40 mil cópias na Coréia do Sul...

Milton - Pois é. Tem uma coisa engraçada. Por exemplo, para gente aqui não tem tanta importância o Grammy, que é realmente o Oscar da música em todo mundo. Não só ganhar o Grammy e importante, mas ser indicado já é uma coisa que o pessoal começa a especular.

Para você ter uma idéia, quando eu ganhei o Nascimento, no dia seguinte eu já recebi uma proposta para ter uma noite inteira minha no Festival de Montreux, convidando artistas do mundo inteiro.

E tem uma coisa engraçada em relação ao Grammy, que eu já fui indicado umas quatro vezes. E eu sempre ia lá e não acontecia nada. Então eu falei, este ano eu não vou. E eu fui passar o Carnaval na Bahia e sabia que era perto do Carnaval, mas nem lembrava o dia.

E eu estava na casa de uns amigos que eu fico, que na quarta-feira se reúnem para a data do arrependimento. Aquele coisa, nunca mais eu bebo, nunca mais quero saber de Carnaval na minha vida. Contando as histórias e sem bebida nenhuma. Aí eu estava lá sentado com eles e era o Russ (Titelman), que dividiu a produção do disco comigo. E ele disse: você ganhou. O quê? O Grammy. Então eu saí gritando pela casa e todo mundo, que isso? Aí veio todo mundo atrás de mim e recomeçou o Carnaval (risos).

JC Cultura - E esse ano o Brasil voltou a ganhar com o Gilberto Gil, que ficou na Bahia, em Salvador, e ganhou...

Milton - Eu procurei o Gil, consegui falar com ele e disse, o negócio é o seguinte, quando a gente for indicado, vamos todos para Salvador que os Orixás nos ajudam. E nós já estamos na lista do Grammy este ano, tem vários brasileiros (na pré-indicação), e a minha passagem para Salvador está reservada.

JC Cultura - Você acha que essa história de 500 anos está trazendo à tona um certo nacionalismo e pessoas comprometidas com a cultura brasileira como você?

Milton - Talvez sim. A maioria do pessoal está contente com esta celebração. A música para mim é a celebração, de qualquer coisa, de amizade, de tudo. Ano que vem vai ser muito legal que eu vou ter a oportunidade de fazer "Missa dos Quilombos", que é disco de cabeceira do Santana.

JC Cultura - É você está pensando em chamá-lo para participar dos shows?

Milton - Como ele gosta tanto eu vou convidá-lo para fazer em algum lugar...

JC Cultura - Em Montreux também?

Milton - Também. A gente tocou junto em Montreux, com o Wayne Shorter também, há uns cinco, seis anos. Vamos fazer de novo.

JC Cultura - Você gosta de jam (reunião informal de músicos)?

Milton - Já fiz muito. Eu toquei contrabaixo e parei quando comecei a compor, em 67 (quando ganhou o Festival Internacional da Canção). É a única coisa que eu me arrependo de tudo e ter parado de ter tocado contrabaixo, que eu adoro.

Eu lembro quando eu comecei a tocar e foi o eterno Wagner Tiso que a gente estava em Belo Horizonte e chegou na pensão que eu estava morando e disse: Bituca, "nós fomos convidados para tocar hoje para tocar em clube de jazz, o Berimbau". E eu sem nada no bolso disse ôba. E ele disse "Mas você vai tocar contrabaixo, eu piano e o Paulinho Braga, bateria. Mas eu nunca peguei um contrabaixo na minha vida e ele disse. "Ah, se vira". E eu peguei e fui na casa de um músico que toca contrabaixo lá em Belo Horizonte e eu disse, me empresta um e me ensina como é que bota a mão nisso. Aí eu dei uma ensaiadinha de dois minutos e fui. No meio da noite, meu dedo já estava cheio de bolham eu pus esparadrapo, fita durex, o que fosse para não chegar até na pele, mas não adiantava nada aquilo enchia de sangue. E assim foi uns quatro dias de teimosia até que foi cicatrizando tudo.

Serviço

Show "Crooner", de Milton Nascimento, hoje, na Cervejaria dos Monges, a partir das 23 horas (a casa abre às 21 horas). Ingressos: R$ 40,00 (promocionais no Posto Flag Nações), R$ 50,00 (Cervejaria) e R$ 30,00 (estudantes a partir das 14h, com carteirinhas da UNE, Ubes e Umesb). Apresentação: Flag Petróleo, Papelco e Tilibra. Apoio: Caixa Econômica Federal, Saint Pual Residence, Embratel, Bauru Painéis, TV Modelo, 96 FM e Jornal da Cidade. A Cervejaria fica na avenida Getúlio Vargas, 7-50. Informações: 234-7773.

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