Geral

Natal solidário

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 6 min

Garotos da Casa da Criança têm Natal "em família"

Garotos da Casa da Criança têm Natal

"em família"

Texto: Patrícia Zamboni

Entrar na Sociedade de Proteção à Maternidade e à Criança de Bauru, conhecida como Casa da Criança,

é sentir orgulho da generosidade do povo brasileiro. Uma equipe formada por assistente social, psicóloga, pedagoga, médicos e outros participantes, todos voluntários, desenvolve um trabalho de total dedicação às cerca de 160 crianças que atualmente estão abrigadas na instituição, entre meninos e meninas. O Natal das crianças é sempre motivo de festa. A ausência dos pais, e muitas vezes dos irmãos também, é totalmente superada com a união da "grande família da Casa da Criança", como gosta de dizer a senhora Anna Aparecida Camillo, 77 anos, presidente (voluntária) da instituição. Carinhosamente chamada de "dona Anita", ela é um exemplo de dedicação a uma causa mais do que nobre, e trabalha na Casa da Criança desde a sua fundação, há 51 anos.

De acordo com a assistente social Ângela Dias Garcia, todos os anos as crianças ganham presentes que são doados pela comunidade. Entre eles, verdadeiras festas com direito a Papai Noel e refeição farta, também oferecidas por empresários da cidade. "Essa semana teve festa todos os dias, e as crianças ganharam bastante presente, graças à Deus. Elas adoram as comemorações de Natal e ficam aguardando a hora das festas com muita ansiedade", conta Ângela.

Além dessas festividades, o evento maior será na noite de 24 de dezembro, quando todos se reunirão no salão da instituição - que já está devidamente decorado com árvore de Natal, um painel feito pelas próprias crianças e muitos enfeites - para fazer a ceia natalina e revelar o "amigo secreto" num clima, sem sombra de dúvidas, totalmente familiar e de muita união. No dia 31 também haverá festa para comemorar o ano novo. Segundo a assistente social da Casa da Criança, os garotos da instituição não dizem sentir saudade dos pais, e passam a noite de Natal muito bem. "Elas não sentem falta dos pais legítimos, mesmo porque muitas chegaram aqui ainda bebês. Principalmente quem era maltratado pelos pais, não falam deles. Elas sentem falta de uma família, de um pai, de uma mãe, mas não daqueles com quem elas conviveram durante um tempo. Mas mesmo assim, ninguém fica triste. A gente faz muita festa o tempo todo, e elas se divertem muito. Aqui todos recebem muito carinho", diz Ângela.

Essa alegria pode ser facilmente percebida ao ver e conversar com as crianças da instituição, que estão sempre bem vestidas, arrumadas e de banho tomado. O garoto R. C. S., de 14 anos, que mora na Casa da Criança desde que tinha um ano de idade, garante que adora o Natal da instituição.

"A gente faz bastante festa, ganha presente e fica todo mundo junto. Eu adoro", diz R. C. S. Ele não sabe porque foi criado na instituição, mas diz que gosta muito da vida que leva, estudando na escola municipal Ivan Engler de Almeida e ajudando a equipe da Casa da Criança no que está a seu alcance. "Agora estou de férias e brinco com meus amigos de basquete, às vezes a gente vai nadar, é muito gostoso", conta R. C. S. Ao ser questionado sobre a opção de sair da Casa da Criança, ele diz que deseja ir morar com uma família, "mas enquanto eu estou aqui, está uma delícia".

A menina R. P. M., 16 anos, está na Casa da Criança há quatro anos. Segundo ela, foi para lá porque sua mãe abandonou o marido e o deixou sozinho com os nove filhos do casal. Na instituição ela vive com mais cinco irmãos. Os outros três ela não sabe para onde foram, e diz que sente saudade deles. Sobre o Natal, ela afirma que gosta muito, porque todos ficam juntos. "Gosto muito do Natal porque todo mundo fica unido e a gente faz festa", diz R. P. M. também estuda na escola Ivan Engler de Almeida e tem o sonho de formar uma família. "Eu adoro aqui, mas também tenho vontade de sair, trabalhar e formar uma nova família", diz a sonhadora menina, que ajuda na Casa da Criança trabalhando como funcionária da instituição.

A Casa da Criança acolhe desde bebês até crianças de 12 anos de idade. Depois que estão lá dentro, podem permanecer até os dezoito anos, quando são encaminhadas pelo Juizado de Menores de acordo com cada caso: ou voltam para a família de origem, ou vão morar com outra família, ou ainda, vão morar sozinhas ou com irmãos.

Psicologia e assistência

A psicóloga Sarah Catarina Axcar desenvolve um trabalho profundo e complexo com as crianças que chegam à instituição. "O primeiro passo é analisar o nível de desestrutura, porque toda criança que chega aqui está desestruturada emocionalmente. A carência afetiva que a criança demonstra já vem com ela, não porque ela está morando aqui sem os pais. Ela já traz essa carência. Então, eles chegam com diversos traumas e dificuldades a serem superadas. Eu levanto os pontos nos quais estão as maiores dificuldades e vou trabalhando neles com cada criança. É um trabalho constante, porque a criança é observada da hora que entra até a hora que sai da instituição", explica a psicóloga.

De acordo com a assistente social Ângela Garcia, todas as crianças que entram lá são encaminhadas através do Conselho Tutelar. "Nós não temos o direito de colocar ninguém aqui sem o Conselho saber", diz

Ângela. Após a entrada da criança na instituição ela passa a fazer parte da família da Casa da Criança. A situação mais comum verificada entre os meninos e meninas que vão para lá, segundo Ângela,

é a negligência dos pais. "Na semana passada recebemos quatro crianças que os pais disseram que tinham caído e elas tinham, na verdade, marcas de mordida e de espancamento. Outra chegou aqui com mais de dois anos e não conseguia andar porque estava subnutrida; agora está ótima, e é linda. Tudo é informado ao Conselho para que sejam tomadas as devidas providências em cada caso. Tudo

é estudado com muito cuidado antes da criança ficar aqui, porque nós precisamos dar segurança a quem está abrigado na Casa", afirma a assistente social.

Segundo ela, existe um grupo de médicos de todas as especialidades que desenvolvem um trabalho voluntário na Casa da Criança, atendendo a todos os abrigados. Uma equipe da Odontopediatria do Centrinho desenvolve um trabalho de prevenção odontológica e tratamento dentário. "Até os bebês recebem fluor na boquinha. Também são feitos todos os exames laboratoriais e de doenças com todos, inclusive de H.I.V.", diz Ângela. Basicamente, as crianças que estão na instituição são órfãs, foram abandonadas pelos pais ou eram maltratadas. Quando o Conselho Tutelar autoriza, algumas podem ser adotadas.

Enquanto estão na instituição, acima dos 14 anos começa o "processo de desligamento". Os adolescentes são colocados em cursos profissionalizantes e orientados para a vida que terão após a saída da Casa.

Comentários

Comentários