Geral

Ensino na prisão

Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 4 min

Presos fazem telecurso em Pederneiras

Presos fazem telecurso em Pederneiras

Texto: Fábio Grellet

Delegado conseguiu implantar supletivo, ministrado na cadeia, para presos dispostos a completar Ensino Fundamental

Enquanto, em São Paulo, as cadeias públicas são palco de rebeliões, resgate de presos e das mais diversas ameaças às autoridades policiais, Pederneiras mostra que a prisão pode significar uma nova identidade para o detento, oferecendo a ele a oportunidade de completar sua educação

- não na "escola do crime", mas no supletivo, através do Telecurso 2000.

A etapa final da primeira experiência educacional na cadeia de Pederneiras aconteceu na última quarta-feira, quando sete detentos - Adnaldo José Sales, Adriano José Merlin, Antonio Fonseca Lemos Neto, Carlos Roberto Querino, Marcelo de Oliveira, Moisés Manoel Benedito e Zenildo Monteiro

- obtiveram seus diplomas de conclusão do Ensino Fundamental

(ex-Primeiro Grau). A história, porém, começou meses antes.

No início deste ano, o delegado de polícia José Claudinei Salvadeo, que atua em Pederneiras e é diretor da cadeia de lá, começou a se articular para montar uma sala do Telecurso 2000 na cadeia. O Telecurso é um supletivo - permite ao aluno concluir os estudos em tempo reduzido. Ao final do semestre, o estudante é submetido a uma prova sobre cada disciplina cursada e, se aprovado, elimina aquela matéria. Quando for aprovado em todas, o aluno terá concluído o supletivo.

Após contatos com algumas entidades, como a Associação Comercial de Pederneiras e a Diretoria Regional de Ensino, então situada em Lençóis Paulista, Salvadeo viabilizou o funcionamento do supletivo na cadeia. A telessala oferece o aprendizado de 5.ª a 8.ª séries do Ensino Fundamental e é uma extensão de outra já existente na Escola Estadual Alva Fabri Miranda, à qual pertencem os professores responsáveis pelo acompanhamento dos estudantes. São ministradas as disciplinas de Língua Portuguesa, Matemática, Geografia, História e Ciências.

As aulas começaram em abril e foram inicialmente ministradas pelo professor de geografia Luis Carlos Quartaroli, 35 anos. Após duas semanas, porém, ele foi convocado para atuar como coordenador pedagógico de outra escola. Deixou o posto, ocupado então por Éder Luiz Ribeiro, 31 anos, professor de matemática. Ele orientou os alunos até o encerramento das aulas.

Para iniciar o curso, exigia-se que os alunos tivessem completado a 4.ª série. Segundo o delegado Salvadeo, a intenção inicial era submeter os detentos interessados em cursar o Telecurso, mas que não tivessem estudado até a 4.ª série, a um exame para avaliar seu nível de conhecimento. Mas esse teste não foi possível, devido ao grande número de alunos dispostos a fazer o curso.

Vinte e cinco detentos começaram a fazer o curso, assistindo

às aulas ministradas diariamente, durante duas horas, num corredor da cadeia. Mas, como vários ganharam liberdade ou foram transferidos para outras cadeias ou presídios, apenas 10 frequentaram o curso até o encerramento deste semestre. Destes, três ainda não conseguiram aprovação em todas as disciplinas e vão precisar cursar alguma delas, no próximo semestre.

Os outros sete concluíram o Ensino Fundamental.

A cerimônia de entrega dos diplomas aconteceu no pátio da cadeia. Várias autoridades discursaram e o delegado Márcio José Alves, que atua em Pederneiras junto com Salvadeo, elogiou a iniciativa de Savadeo e destacou que o objetivo, pretendido pela Lei de Execuções Penais, de recuperar o preso, permitindo sua reintegração

à sociedade, está sendo cumprido na Cadeia de Pederneiras.

O professor Éder Luiz Ribeiro destacou que, embora no início tenha estranhado a nova sala de aula, em razão de suas peculiaridades, depois se adaptou perfeitamente aos alunos e desenvolveu um apego muito grande a eles. Ele ressaltou que começou a conviver com os detentos e partilhar com eles suas alegrias e dificuldades. Com isso, passou a ser até protegido pelos alunos: "Quando sabiam que alguém tinha feito alguma coisa e me prejudicado de qualquer forma, os detentos se revoltavam contra a pessoa e se solidarizavam comigo", diz. Diante do empenho demonstrado pelos alunos, o professor avalia que a recompensa, no momento da formatura deles, é até maior que aquela sentida na formatura dos alunos regulares, que frequentam as escolas usuais. Presos elogiam o curso Adriano José Merlin, 25 anos, está preso há um ano, porque cometeu um assalto. Ele disse que começou a frequentar a telessala "porque surgiu a oportunidade". Gostou da experiência, aplicou-se aos estudos e conseguiu as maiores notas, dentre todos os colegas. Antes de ser preso, Melin já tinha cursado até a 6.ª série do Ensino Fundamental. Agora, pretende continuar a estudar, se forem implantadas salas de Ensino Médio.

Já Moisés Manoel Benedito, 27 anos, também cometeu um assalto e está preso há sete meses. Ele começou a assistir as aulas para aproveitar o tempo disponível e considera importante concluir o Ensino Fundamental porque, quando deixar a cadeia, pretende trabalhar, e em quase todas as funções se exige no mínimo essa formação. Casado, Benedito tem dois filhos e já havia estudado até a 4.ª série, antes de ser preso.

Antonio Fonseca, 26 anos, está preso há oito meses e também elogiou a iniciativa do delegado, que lhe permitiu completar os estudos básicos: "Gostei bastante e quero continuar estudando, agora", diz.

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