Mau hálito: 90% dos casos vêm da língua
Mau hálito: 90% dos casos vêm da língua
Texto: Sabrina Magalhães
Doenças como diabetes, insuficiência hepática e renal deixam odores tão característicos na boca, que levam até ao diagnóstico delas
Outra grande preocupação do ser humano em seu convívio social é o mau hálito. Segundo a dentista Olinda Tárzia, professora de Bioquímica na Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP), algumas vezes o cheiro estranho na boca é em decorrência de certas doenças, como o diabetes, que deixa o hálito com cheiro de cetona, ou a insuficiência renal, que deixa a saliva com odor de uréia (de xixi). Mas em 90% dos casos o problema é devido à saburra lingual - uma placa bacteriana que se forma no dorso da língua.
Quando a placa bacteriana ataca os dentes, provoca cárie. Se ela ataca as gengivas, causa inflamações. E se ela se aloja na língua, causa mau hálito. A professora explica que os microorganismos que compõem a placa se alimentam de proteína (presente nas células da mucosa da boca) e de determinada substância da saliva.
"Além disso, são anaeróbios, ou seja, eles só sobrevivem onde não há oxigênio. E a língua tem papilas (elevações), como se fosse um tapete. Eles se alojam bem na base da papila, onde tem pouca oxigenação. Então, se proliferam. Eles comem a substância que dá viscosidade à saliva, que é uma proteína viscosa. Ao quebrar essas proteínas, liberam compostos de enxofre, que têm cheiro de ovo podre."
Tárzia destaca que este tipo de mau hálito é mais freqüente em pessoas que têm uma descamação maior nas mucosas (pele das bochechas, do céu da boca e da língua), entre eles, os usuários de aparelhos ortodônticos, pois as peças arranham e ferem a pele. Também é comum em pessoas que têm baixa produção de saliva. Quanto mais viscosa a saliva, mais fácil a aderência das bactérias à língua e mais alimentos elas têm.
Para solucionar o problema, é preciso limpar a língua. E uma boa alternativa são os limpadores linguais, aparelhos que "varrem" as papilas da língua, retirando a placa bacteriana. Então, depois da escovação normal dos dentes, deve-se escovar a língua e, em seguida, passar o limpador lingual.
Saliva
Paralelamente à higiene, é preciso aumentar a produção de saliva. "É muito comum a boca 'secar' quando as pessoas ficam nervosas ou preocupadas. E a saliva tem várias funções importantes: tem um antimicrobianio, que ataca esses próprios microorganismos formadores de placas; conforme ela flui, vai desgarrando os restos de comida dos dentes, vai limpando a língua. E quanto mais viscosa (gosmenta), mais favorável à instalação dos germes."
A professora sugere alguma formas bastante simples para aumentar a produção de saliva. Uma delas - a mais caseira e sem contra-indicações - é fazer um preparado com o suco de dois limões, um 'dedo' de água e uma colher de sopa rasa de sal. Depois de dissolvido o sal, pode-se pingar a mistura sobre a língua ou fazer um gargarejo 3 a 4 vezes ao dia. "É terrível, mas estimula bastante e é uma forma não medicamentosa de resolver o problema. Também funciona com frutas azedas, como a ameixa japonesa chamada umeboche, ou maçãs, tamarindo."
Oxigenação
Uma terceira arma contra as bactérias é a oxigenação da boca, já que eles não sobrevivem onde há oxigênio. De acordo com Olinda Tárzia, há vários medicamentos que promovem a oxigenação. Mas quando o problema não é grave, a água oxigenada de 10 volumes pode ser uma excelente opção. Pode-se aplicá-la diretamente no local ou fazer um bochecho e gargarejo com o produto diluído em água (1 1/2 colher de sopa de água oxigenada para meio copo de água).
"O importante é gargarejar, para levar a oxigenação para aquela região mais escondida da língua.
Balas, chicletes e anti-sépticos bucais
Olinda Tárzia explica que, ao contrário do que é propagado freqüentemente, o uso regular de anti-sépticos bucais pode piorar o problema do mau hálito. "Porque eles têm álcool, que resseca a mucosa e faz aumentar a descamação. Na verdade, são mascaradores do problema, mas de curta duração - 10 minutos, no máximo meia hora. E a longo prazo, pioram o quadro."
No entanto, questionada a respeito do uso de chicletes e balas para melhorar o hálito, a professora destacou que os chicletes são bastante eficazes, pois estimulam a produção de saliva, que vai retirando a saburra. Mas ela mostra-se cuidadosa com relação às balas, alegando que as balas que contêm açúcar podem ajudar na produção de saliva, mas aumentam os riscos de cáries.
"A não ser que a pessoa esteja em jejum há muito tempo. Quando isso acontece, há tendência de mau hálito. Então, uma bala com açúcar vai resolver dois problemas: vai quebrar o jejum e vai aumentar a produção de saliva. Do contrário, é melhor dar preferência às balas sem açúcar ou aos chicletes. Porque mesmo que os chicletes tenham açúcar, a mastigação prolongada é suficiente para carregar todo esse doce."
Mau hálito X estômago
Segundo o gastroenterologista Márcio Tolentino, é muito comum pacientes procurarem o especialista em aparelho digestivo para tratar mau hálito. Mas ele destaca que é muito raro haver uma relação entre halitose e digestão.
"Geralmente a origem é no nariz, boca ou faringe. Porque há válvulas que impedem que o cheiro do estômago chegue até a boca. As exceções são doenças do esôfago, como o megaesôfago, causado pela doença de chagas, em que os alimentos ficam retidos no canal do esôfago e se deterioram, causando mau cheiro. E tumores, cânceres, em que as células necrosam (apodrecem) e deixam um hálito muito forte."
Tolentino ressalta, porém, que quando o paciente tem intestino preso, pode apresentar halitose, só que não quer dizer que o cheiro do intestino suba até a boca. Na verdade, a pessoa que tem o intestino preso geralmente absorve uma quantidade muito grande de gordura. Essa gordura vai para a corrente sangüínea e acaba levando mau cheiro à boca.
Olinda Tárzia confirma e explica que é pelo mesmo mecanismo que o hálito fica com cheiro de alho ou de outros alimentos, não porque o cheiro venha do estômago, mas porque caiu no sangue, foi levado ao pulmão e sai com o ar expirado. Nesses casos, o odor é inevitável.