Morre Wilson Nogueira, o palhaço Gira-Gira
Morre Wilson Nogueira, o palhaço Gira-Gira
Texto: Fabiano Alcantara
Um dos mais importantes comediantes do País, Wilson Nogueira trabalhou com grandes nomes do teatro antes de se mudar para Bauru e ser praticamente esquecido
Bauru está mais triste. Morreu na madrugada de ontem, vítima de um ataque cardíaco, o comediante Wilson Nogueira, 71 anos, mais conhecido na cidade por ser o palhaço Gira-Gira. Um grupo de cerca de 150 pessoas acompanhou o enterro do ator, no Cemitério Cristo Rei.
Um dos mais importantes atores circenses do Brasil, Nogueira nasceu em Pelotas-RS e morava em Bauru há 19 anos. Dono do circo Anahi, que fez sucesso em Bauru entre 80 e 88, ele era muito respeitados pelos artistas da cidade.
"Ele era um anjo, voltou para onde veio", afirmou Ezequiel Rosa, dono do Teatro de Caixa, e um dos maiores defensores da cultura popular em Bauru.
"O que mais entristece a gente, que é artista, é o fato da cidade não ter reconhecido o talento do sue Wilson. Ele era uma coisa espantosa, tinha uma presença de palco imensa", disse Manoel Fernandes.
"Ele nos deixou pensando em suas travessuras pelos palcos de uma longa estrada de uma vida pela arte do circo e teatro, hoje leva toda bagagem de risos e mais risos para outros na eternidade", afirmou Roberto Malini, representante da Abed (Associação Brasileira dos Empresários de Diversões) em Bauru. Nogueira era diretor-fundador da Abed, desde 77.
Teatro, TV e circo
Filho de gente de circo, Wilson Nogueira aprendeu a ser ator no picadeiro e dividiu o palco com gente consagrada como Paulo Gracindo, Glória Duarte, Mário Lago, Grande Otelo, Costinha e Zé Keti, entre outros. Na televisão, trabalhou na extinta TV Tupy e na Record.
No circo, consagrou-se com os Irmãos Nogueira, fazendo apresentações em todo Brasil até montar o circo Anahi e se fixar em Bauru.
"Meu pai adorava Bauru, dizia que queria morrer aqui. Para ele tudo estava bom, mas eu acho que ele foi esquecido, não foi aproveitado. Ninguém entendia mais de teatro e circo que ele, poderiam ter dado um cargo para ele, ou coisa do tipo. A cidade o esqueceu", desabafou Plínio Manoel da Conceição Nogueira, filho do comediante.
De acordo com ele, as iniciativas da Oficina Cultural (ele foi mestre de cerimônias de um evento que instalou o circo permanente na Oficina, há dois meses, e daria um workshop em janeiro) e da Secretaria Municipal da Cultura (o ator animou o Circo da Criança em 98) não fizeram jus à sua importância.
"Falta política cultural em Bauru. Não valorizam o teatro e os artistas, quem reconheceu meu pai foram os artistas, ninguém mais. Os políticos só apareciam quando tinha eleição, queriam que ele subisse no palanque e nada mais", disparou.
Em comunicado por fax, a secretária de Cultura de Bauru, Josefina Campos Fraga, lamentou a morte do comediante. "No difícil início de nossa administração, Wilson Nogueira foi um grande parceiro. Muitos projetos da área circense foram possíveis graças a ele (...) Acredito que o mundo, a partir de hoje, ficará um pouco mais triste, principalmente para nós, os amigos", declarou.
'Velha guarda' ainda resiste
Com o fim do palhaço Gira-Gira, Bauru sofre uma grande perda no seu cenário, mas, de acordo com os artistas locais, outros nomes da velha guarda poderiam reverter a situação de abandono que o circo vive atualmente.
Segundo Ezequiel Rosa, os palhaços Bambolê e Paraqueda, são dois comediantes de peso, atualmente esquecidos pelos dirigentes culturais.
A reportagem conversou com Antônio Benedito Grillo, o Bambolê, 69 anos, que esteve no enterro de Wilson Nogueira.
"Não existe espaço para a gente no teatro. Eu faço papel de bobo, de caipira. Eu faço errado, eles querem tudo certinho", brincou.
Grillo foi dono de um circo, o Kong, até 90. Hoje, ele vive em Bauru. "Sou mais humorista que palhaço, não falo bobeira", afirmou.
Além de Bambolê, outros palhaços foram se despedir de Gira-Gira, como Tony de Lima e David Ferreira. (FA)