Geral

Produtos orgânicos

Márcia Buzalaf
| Tempo de leitura: 7 min

Bauru tem associação de produção orgânica

Texto: Márcia Buzalaf

A Associação dos Produtores Orgânicos do Centro Oeste Paulista (Aprocop), fundada em Bauru há dois anos, se prepara para fazer no próximo mês a primeira colheita dos 23 produtos que plantou.Formada por 20 pessoas, a

associação quer mudar a forma de produção e compra de produtos: os consumidores falam o quê e quanto querem e os produtores ecológicos se encarregam de plantar e entregar. Tudo, é claro, sem agrotóxico.

A presidente da Aprocop mostra sua satisfação em poder expor seu trabalho. Também, pudera. Zilda Oliveira Rosella, 50 anos, vem liderando nos últimos dois anos um grupo de 20 pessoas interessadas em produção agrícola orgânica com um objetivo ideológico e prático ao mesmo tempo.

Prático porque a grande maioria dos associados são pessoas comuns, com ou sem terra, que desejam um trabalho que garanta no mínimo a sobrevivência da família. E o caminho escolhido por este grupo é mais do que especial e ideológico: todos eles querem propiciar uma alimentação de qualidade para o consumidor e, ao mesmo tempo, conservar o meio ambiente.

O projeto destes "caboclos", como Zilda mesmo se refere, não é tão simples assim. A meta dos produtores

é ampliar bastante o leque de itens plantados, além de mirar a produção de queijo ecológico e a criação do chamado boi verde - que cresce e é abatido no período natural.

A escola

A "formação" do grupo em produção orgânica foi baseada em vários cursos, entre eles, o de capacitação rural do Sebrae. Foi justamente lá que o grupo consolidou o projeto. "Tem sem-terra, com um tantinho de terra, só com terra em baixo da unha, tem aposentado, desempregado, tem de tudo", ironiza Zilda.

A produtora acredita que a única forma de combater a exclusão causada pela elevada e cara tecnologia agrícola, atualmente dominante nas grandes propriedades é a união. Como o mercado não está para peixe pequeno, eles decidiram se unir para formar um forte cardume. "É aquele velho ditado: integrar para não entregar", fala Zilda.

A partir disso, o grupo fez uma pesquisa de mercado para verificar a viabilizada do projeto. A conclusão é que tem espaço em Bauru e região para esta atividade e para o consumo de produtos orgânicos.

Outro dado relevante da pesquisa é mais pessimista. Bauru, segundo Zilda, é uma ilha cercada por agrotóxicos. De um lado, cana-de-açúcar; de outro, café; e mais adiante, laranja.

Apesar da produção orgânica estar crescendo em todo o mundo, na nossa região, apenas a Fazenda Demétria, em Botucatu, atinge um bom nível de produção, vendendo seus produtos inclusive para grandes redes, como o Carrefour e o Pão-de-Açúcar. O restante das produções orgânicas são mais caseiras e espalhadas.

A contaminação por agrotóxico é tão extensiva que as exigências do local para se fazer uma horta orgânica são inúmeras e restritivas, o que fez com que o grupo decidisse por fazer toda a plantação em uma só área. "Encarecia muito cada um ter que montar estufa e tudo mais. Além do que, e quem não tinha terra? A gente tinha que pensar em tudo", explica.

No futuro, Zilda diz que a Aprocop poderá se descentralizar para que outras fazendas possam plantar produtos orgânicos, enquanto que a associação se encarrega da distribuição e fiscalização da qualidade dos itens - que deve seguir as exigências para este tipo de cultivo.

O terreno para produção verdadeiramente ecológica tem que estar localizado em um ponto bem distante das plantações de cana, que geralmente fazem pulverização via aérea. Depois de muito procurar, finalmente, a Aprocop arrendou por quatro anos uma área de três hectares na rodovia Bauru-Arealva, próximo a uma área de reserva ambiental do governo e que cria gado há mais de dez anos, ou seja, livre de interferências químicas.

Além da equipe da Emdurb e da CATI, o engenheiro agrônomo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Aloísio Costa Sampaio também vem colaborando intensamente na análise do solo e da produção em si.

A trilha que eles percorreram até agora foi longa, mas produtiva. "Todas as portas estavam abertas, conseguimos o apoio de muita gente", conta Zilda. Os maiores colaboradores do projeto são a Secretaria Municipal de Agricultura, o Sindicato Rural de Bauru, a CATI-Bauru, a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), a Sorri (que efetivamente faz parte da associação) e a Igreja Messiânico, que tem plantações orgânicas em São Paulo e Paraná.

Zilda diz que todos eles tiveram uma colaboração muito importante para a maturação do projeto. "A Sorri mostrou a produção deles; a Emdurb ajuda com os técnicos na verificação do solo, o Sindicato Rural forneceu cursos para a gente...", lembra Zilda.

Inauguração

Agora, a Aprocop começa mesmo a funcionar. A associação vai colher em fevereiro mais de 10 mil metros de horta dos produtos orgânicos que plantou. Tem abobrinha, acelga, agrião, alface crespa e lisa, almeirão, beringela, beterraba, brócoli, cebolinha, cenoura, chicória, couve-flor, couve manteiga, pepino caipira, pimentão amarelo, verde e vermelho, rabanete, repolho, rúcula, salsa e vagem, todos frescos e sem nenhum tipo de agrotóxico.

Já no setor financeiro, a dificuldade foi um pouco maior. Nos pedidos de financiamento, todos os bancos pediam garantias que, é claro, a recém-criada associação não dispunha. Por isso, Zilda conta que a solução foi pensar mesmo em uma propriedade auto-sustentável. "A agricultura orgânica cara é de quem produz pouco", avalia.

A Aprocop já investiu aproximadamente R$ 20 mil. Primeiramente, vai trabalhar com encomendas de cestas de produtos, determinadas pelo próprio consumidor. Na prática, quem quiser comer verduras e legumes frescos poderá fazer uma encomenda para Aprocop e pagar diretamente para ela.

Os consumidores também poderão opinar sobre os produtos que queriam comprar, determinando assim a diversidade e quantidade dos produtos comprados.

Ela conta que esta forma de comercialização não

é inédita. Aliás, já funciona com sucesso nos Estados Unidos. Zilda conta que existe uma associação, chamada Agricultura Motivada pelo Consumidor, em que os produtos plantados são determinados pelo próprio consumidor, e que inspirou a Aprocop.

Outro bom exemplo de desenvolvimento orgânico bem-sucedido

é no Brasil mesmo. Vem de Fortaleza, no Ceará, a Associação para Desenvolvimento e Agropecuária Orgânica (Adao), onde o produtor mais antigo recebe em seu 1,5 hectare um salário de R$ 2,5 mil, empregando seis funcionários. Zilda estima que se a associação conseguir reunir 60 produtores, 360 empregos podem ser gerados.

Se o consumidor ganha de um lado, o produtor também não sai perdendo do outro. Zilda afirma que este tipo de associação acaba garantindo a renda mínima para quem quiser plantar com eles, já que o tamanho da produção é determinada pelos compradores.

Socio-econômico-ambiental

Tudo na Aprocop é natural, a começar pela umidade da terra ocasionada pela reserva ambiental. Entre os segredos naturais da produção, estão a cerca viva de girassol e a plantação de gergelim para combater as formigas.

Tudo isso para no futuro poder lançar um selo de qualidade em produtos orgânicos, garantir trabalho para as pessoas do campo, preservar a ecologia e fornecer alimentos de qualidade.

"Só até agora, nós já criamos cinco novos empregos, três na parte da horta e dois na comercialização. A gente acha que é um projeto social, ambiental, e de uma alimentação melhor", explica.

Zilda é uma crítica feroz ao uso indiscriminado dos agrotóxicos. Para ela, atualmente, a quantidade de defensivo colocada principalmente em tomates e morangos - os dois produtos que mais utilizam das químicas - é assustadora.

"Veja o caso do cantor Leandro e Leonardo. Ele era plantador do quê? De tomate, que usa muito agrotóxico, que dá câncer sim", analisa.

O grande sonho de Zilda está bem mais distante. Ela queria que todos os pequenos produtores de todo o País se organizassem com base nesta filosofia, para poder sobreviver no campo e não

"inchar" ainda mais as cidades. Motivos para isso, não faltam. Primeiro porque estima-se que o consumo de um grupo de 60 pessoas sustente pelo menos um produtor orgânico. Empresas de médio porte e famílias maiores poderiam, então, manter alimentadas várias famílias do campo, que são cada vez mais excluídas do processo de modernização, só de comprar os produtos deles. Segundo motivo: é tudo natural.

"Acreditar que os trabalhadores substituídos pelas máquinas encontrarão inevitavelmente trabalho na construção dessas mesmas máquinas equivale a acreditar que os cavalos substituídos pelos veículos mecânicos poderiam ser utilizados nos diferentes setores da indústria automobilística."

Wassily Leontief, prêmio Nobel de Economia em 1973

Serviço

A Aprocop está recebendo adesões de condomínios residenciais, empresas e entidades que queiram conhecer mais sobre a cultura orgânica e sobre como podem comprar seus produtos. O telefone para contato é 227-5789.

Comentários

Comentários