Geral

Entrevista do governador

Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 8 min

Covas: ano eleitoral sem distinção

Texto: Fábio Grellet

Durante visita a Arealva e Pederneiras, governador inaugurou obras e sorteou casas. Para ele, transferência de Carchedi não foi punição

O governador Mário Covas visitou ontem as cidades de Arealva e Pederneiras. Em Arealva, onde esteve por volta das 15h30, entregou 79 casas construídas pelos próprios moradores, através do projeto Habiteto. Em Pederneiras, o governador inaugurou a via de acesso ao porto intermodal, cujo asfaltamento foi concluído recentemente, e ainda sorteou, dentre quase 600 inscritas, 115 pessoas que vão ganhar assistência para construir suas próprias moradias, através do mesmo sistema usado em Arealva.

Mário Covas chegou a Pederneiras às 17h15, quando o helicóptero que o transportava desceu no Estádio Municipal Antonio Ruiz Romero. Em seguida, usando uma van, foi até a estrada de acesso ao porto intermodal, para conhecer o techo asfaltado, com extensão de aproximadamente oito quilômetros. Como chovia, Covas não chegou a sair da perua, observando a obra de dentro do veículo. Depois, o governador esteve no Clube Recreativo Comercial, onde estavam reunidas as pessoas inscritas no programa habitacional do governo. Lá aconteceu o sorteio que indicou o nome daqueles beneficiados pelo projeto. A primeira pessoa sorteada foi Eduardo Pereira dos Santos, morador do núcleo Cidade Nova.

Através do Habiteto, o próprio morador constrói sua moradia, em sistema de mutirão, usando recursos repassados pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), responsável por supervisionar as obras. Em Pederneiras, as casas devem ser construídas no bairro Parque da Colina. Durante as atividades, Covas foi acompanhado pelo presidente da CDHU, Goro Hama, que anteontem teria sido alvo de uma decisão, emitida pelo Tribunal de Justiça, tornando indisponíveis seus bens. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que Covas concedeu em Pederneiras:

Jornal da Cidade - O prefeito de Pederneiras, Rubens Cury, reclamava duas obras essenciais, segundo ele, para alavancar as atividades empresariais no porto intermodal de Pederneiras, que compõe a hidrovia Tietê-Paraná. Eram a instalação do terceiro trilho ferroviário entre Pederneiras e Bauru e o asfaltamento da estrada de acesso ao porto, duas obras que o senhor entregou. O governo pretende continuar investindo nesse porto ou era o último incentivo necessário para que o projeto deslanche?

Covas - São feitos investimentos nos portos existentes ao longo de toda a hidrovia. Ainda na semana passada inauguramos uma vicinal do porto do Tietê em Conchas, porque cometeram a asneira de fazer um porto sem a ligação de vinte e poucos quilômetros com a cidade. Acho que Pederneiras vai se transformar num centro muito significativo, porque está muito próximo de um cruzamento histórico do Estado de São Paulo, que é Bauru. Bauru sempre foi um empório comercial dentro do Estado, pelo cruzamento de várias ferrovias. Hoje reúne também uma grande rodovia e o porto intermodal. Você tem aqui, talvez, o segundo lugar dentro do Estado onde há um complexo intermodal desse significado. O outro

é a ponte na divisa de São Paulo com o Mato Grosso, onde se tem, sobre a ponte, uma rodovia, uma ferrovia e, embaixo dela, a hidrovia. Pederneiras, pelas circunstâncias mais ou menos parecidas, vai representar talvez o centro mais significativo ao longo da margem do Tietê.

Jornal da Cidade - A infra-estrutura do porto já está pronta?

Covas - O porto é uma obra privada. Nós fizemos primeiro o acesso por trem, depois fizemos o terceiro trilho, agora a vicinal ligando ao porto, e o terceiro trilho está sendo estendido para cobrir toda a área do complexo industrial. O restante é a atração que já se sente irresistível de várias empresas de alta qualificação, que devem se instalar aqui.

Jornal da Cidade - Surgiram denúncias de que o terceiro trilho ferroviário, ligando Pederneiras a Bauru, não foi instalado da forma correta. O senhor tem conhecimento delas?

Covas - Se acharem que não está bom, podemos tirar daí o terceiro trilho. Eu sei que o governo pagou tudo isso, e as empresas que vão fazer a coisa, na hora do "vamos ver", não pagaram nada, quem pagou foi o Estado. Quando me levaram esse problema, eu disse: "Tudo bem, mas as empresas que afinal vão trazer a mercadoria lá do Mato Grosso, entram com que nessa história?". E no fim, quem pagou foi o Estado.

Jornal da Cidade - A Ferroban está atendendo as expectativas?

Covas - A Ferroban é uma subsidiária do governo federal, que é dono da Fepasa e colocou uma concorrência pública para dar a concessão por um período xis. Além da Ferroban, passa por aqui a Ferronorte, que trará no futuro composições de 150, 200 vagões,

é uma vergonha.

Imprensa - O senhor tem conhecimento sobre a transferência da sede da 3.ª Companhia da Polícia Militar, que funcionava em Dois Córregos, para Barra Bonita?

Covas - Deve ter sido assinado por mim, pelo menos o conjunto de medidas foi. Faz parte de uma reorganização estadual que envolve a instalação de comandos estaduais. Hoje no interior temos sete comandos, mais do que antes. Não sei porque as cidades dão tanta importância a isso. O importante não é o número de batalhões, mas a polícia estar na rua, para proteger a população. Não há nenhuma idéia de modificar isso, a idéia é deixar como está.

Imprensa - Como avalia sua relação com o prefeito de Pederneiras, Rubens Cury, e o que pensa sobre a administração dele?

Covas - Eu tenho uma amizade muito antiga e uma relação partidária com ele. Sem dúvida, é um prefeito que está orgulhando muito o PSDB pela sua conduta e por seu prestígio. Está realizando um trabalho muito sério e vai dar um impulso danado a Pederneiras.

Imprensa - O que os municípios podem esperar do governo Mário Covas neste ano, que é eleitoral?

Covas - O mesmo comportamento dos outros anos. Não vai parar, apesar de que, quando eu der dinheiro para um prefeito do PSDB, a imprensa vai correr atrás de mim dizendo que

é para favorecer o partido na eleição. E quando eu der dinheiro para um prefeito de outro partido, é o PSDB que vai correr atrás para dizer que eu dou dinheiro para quem não é do partido. Mas o governo não pode parar, não vou deixar de fazer casa porque tem uma eleição neste ano. Também não vou fazer mais casas do que posso porque tem uma eleição.

Jornal da Cidade - O que pensa sobre a decisão do Tribunal de Justiça, que tornou indisponíveis, ontem, os bens do presidente da CDHU, Goro Hama?

Covas - Eu ainda não discuti o assunto, vou discutir hoje à noite.

Goro Hama diz que não houve qualquer decisão do TJ

Enquanto Covas limitou-se a dizer que ainda não discutiu a decisão do Tribunal de Justiça (TJ), que teria, anteontem, declarado indisponíveis os bens do presidente da CDHU, Goro Hama, este disse que não houve qualquer decisão e tudo não passa de uma mentira. Hama é acusado de improbidade administrativa em ação civil que apura possíveis irregularidades em contrato com a Companhia de Seguros Gerais do Estado (Cosesp) para cobrir operações de financiamentos de casas populares. A acusação contra Hama tem origem em 1997 e o negócio teria causado prejuízo de R$ 2,26 milhões ao erário público. Leia a entrevista do presidente da CDHU:

JC - Como o senhor classifica a decisão do TJ, que tornou indisponíveis seus bens?

Hama - É mentira, não houve decisão nenhuma, aquilo é uma montagem.

JC - De quem?

Hama - Não sei. Só há uma decisão de setembro, da qual nós recorremos, e agora o recurso interposto foi para o Ministério Público, para que este se pronuncie sobre o material que enviamos para basear o nosso agravo. A próxima decisão só deve acontecer em fevereiro ou março. Portanto, para mim é uma surpresa que se anuncie um julgamento que não houve. A outra surpresa é a seguinte: o denunciante, neste caso, sou eu, porque fui eu que denunciei a possível irregularidade no documento adulterado. Eu encaminhei para a Corregedoria do Estado de São Paulo, que fez a correção e concluiu que houve realmente uma irregularidade. Alguém forjou um documento adicionando um parágrafo a mais e não foi na nossa empresa. Nós temos ali o original protocolado. Na Cosesp, apareceram três cópias diferentes. A Corregedoria do Estado enviou para o Ministério Público e o procurador-geral do Estado, Marrey, despachou no dia 22 de dezembro, através do Diário Oficial, dizendo que, pela documentação recebida, não havia nenhuma irregularidade. Mas pediu ao Ministério Público, na área da Promotoria da Cidadania, e a Polícia Civil, fizessem levantamentos para averiguar irregularidades no contrato entre a Cosesp e uma tal de Sauex, uma empresa co-segurada que eu nem sei o que é. Mas lá é que o Marrey viu alguma irregularidade e pediu para fazer essa verificação. Portanto, é um negócio muito estranho, primeiro porque eu, de denunciante, estou virando acusado, e segundo porque as pessoas estão dizendo que teve um julgamento que não houve.

JC - O caso ainda está sendo investigado, então?

Hama - Tomara que seja investigado, eu acredito na Justiça e estou absolutamente tranquilo porque fui eu que denunciei, eu que pedi para fazer a correção, e vi o resultado da correção, que foi enviada para o Ministério Público, e o Marrey também já se manifestou.

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