Bug: riscos ainda existem mas já tem saldo positivo
Texto: Ana Maria Ferreira
A sociedade só vai deixar de falar em bug do milênio no próximo salto tecnológico, com os computadores de última geração
O mito do bug do milênio, tão amplamente divulgado e discutido, entre todas as camadas da sociedade passou com a virada do ano. Dia 1 de janeiro de 2000 foi o dia D para todos os setores informatizados e para consumidores e usuários. As dúvidas sobre conta bancária, viagens aéreas, fornecimento de água e energia elétrica e, tudo o mais que se consiga pensar que têm por trás o comando de um computador ficaram da mesma forma que no ano passado. Poucas falhas foram observadas em serviços de atendimento ao público e a maioria das pessoas pode mesmo é comemorar com entusiasmo a chegada do tão esperado ano 2000.
O bug passou e agora o que fazer? Na verdade o risco de falhas ainda existe, só que numa escala pequena, praticamente doméstica, onde aparelhos eletro-eletrônicos podem apresentar uma data maluca ou simplesmente não desempenhar alguma função atrelada a data. Nada com o que se preocupar, de acordo com o professor doutor Eduardo Morgado, chefe do Departamento de Computação da Unesp de Bauru, especializado em administração da tecnologia. Para o professor Morgado o saldo do bug foi positivo porque "forçou" as empresas a investirem na modernização dos sistemas e quem saiu ganhando com isso foi o consumidor, que terá serviços mais eficientes e rápidos. Isso e muito mais sobre o bug você acompanha na entrevista exclusiva do professor Eduardo Morgado ao Jornal da Cidade.
Jornal da Cidade - A discussão sobre o bug do milênio atingiu todas as classes sociais. O que poderia ter acontecido de tão grave ?
Professor Doutor Eduardo Morgado - Poderia ter acontecido muita coisa. Bug do milênio é um conjunto de problemas que tem em comum duas características: uma data marcada para acontecer, ano 2000, e natureza do problema é decorrente de um artifício computacional, utilizado por profissionais de informática, para superar uma restrição tecnológica - economia de espaço - e facilitar a programação. São problemas diferentes com dois pontos em comum. A informática e uma ciência relativamente nova, enquanto a medicina tem cerca de dois mil anos, a informática tem de 30 a 40 anos, passando por várias tendências tecnológicas bastante radicais. Os profissionais da área estão habituados a superar estes artifícios de programação para superar restrições
. Problemas de nomenclatura com essa característica já aconteceram no passado, quando as linguagens passaram de primeira para segunda geração, de segunda para terceira e assim por diante. Acontece que pela primeira vez, o problema tinha uma data marcada para acontecer e a preocupação era se haveria recursos humanos e tempo suficientes para que tudo fosse arrumado.
Há duas características de problemas: os relacionados com sistemas desenvolvidos por programados e analistas e dos artefatos
- aparelhos que contém processadores e por isso podem ter um registrador que armazena data. Dentro dos artefatos, onde os problemas poderiam ter sido mais graves, você tem desde um rádio-relógio até um videocassete, chegando a uma coisa sofisticadíssima chamada de equipamentos aviônicos, que são equipamentos mecânico-eletrônicos que existem dentro dos aviões . Os aviões não tem um central de computador ou coisa parecida, por segurança eles são compostos de pequenas unidades que tem vida própria para resolver os problemas. Nesta categoria, os problemas poderiam ser potencialmente mais graves. Um exemplo dessa independência entre os equipamentos foi o terrível acidente com a TAM, o artefato decidiu, funcionou uma peça e não houve tempo de corrigir. A mídia teve um papel definitivo na divulgação do bug do milênio, porque chamou a atenção para um problema real e se não fossem tomadas as providências necessárias, ele teria conseqüências negativas sim.
No caso das Bolsas de Valores e dos bancos, que se informatizaram mais cedo, com certeza existiam programas que utilizavam apenas dois dígitos para a data.
JC- Até quando foram feitos programas utilizando essa economia de espaço?
Eduardo - Seguramente até meados da década de 80 ou até o abandono do Cobol (linguagem de terceira geração) e esta economia de espaço era em razão de que as máquinas era muito lentas, um trabalho levava dias para ser processado. O grande marco foi o aparecimento das chamadas linguagens de quarta geração, exemplo típico Dbase.
JC - Dois grandes bancos brasileiros investiram cerca de R$ 200 milhões no bug do milênio. As empresas que se informatizaram primeiro com certeza devem ter programas em Cobol, como eles resolveram a questão?
Eduardo - Os bancos precisaram localizar todos os programas que faziam uso de economia de espaço ou de artifícios computacionais. A partir disso foi feita a reprogramação, e é evidente que os técnicos devem ter aproveitado para melhorar , otimizar esses programas, o que justifica os gastos. As bases de dados foram transpostas para outro meio magnético para a alteração da data ocupando mais dígitos, porque num arquivo de terceira geração não há espaço sobrando, a data ocupa seis posições.
JC - Olhando por essa ótica, o bug foi positivo? Na sua opinião todas as empresas de alguma forma se preocuparam com isso?
Eduardo - Sim, foi positivo. Aqui entra, mais uma vez, o trabalho de divulgação das informações feito pela imprensa, o que de certo modo tranqüilizou bastante a população. Do lado social acho que a sociedade como um todo foi beneficiada pela quebra definitiva de uma mística, pelo entendimento de como o sistema se comporta e que é passível de falha, isso é um grande ganho.
JC - Sobre o medo de faltar água e alimentos, o que você acha?
Eduardo - Isso está relacionado a possível falha de artefatos, por exemplo se uma bomba d'água que abastece todo um bairro deixasse de funcionar. Mas isso foi exagero. Todo artefato tem um projeto e quanto antes as empresas se preocuparam em identificar possíveis falhas de programação, melhor. Pelo projeto fica fácil identificar onde ele pode falhar e não era preciso rever todos os aviões da Boeing, por exemplo, para saber quais artefatos usavam data de dois dígitos. Pode ter sido caro substituir essa coisas, mas não foi difícil localizar.
JC - Ainda há chance de ocorrer algum tipo de problema decorrente do bug?
Eduardo - Seguramente eles deverão acontecer, mas serão em sistemas menos importantes, onde será possível desfazer o erro, e em artefatos onde o problema não é tão grave. Se o microondas passa a mostrar a data errada isso não vai impedir de que você o utilize. Problemas vão acontecer sim, mas serão localizados. O esforço de localizar datas continua dentro das empresas, todas elas criaram uma escala de prioridades, da mesma forma que uma companhia de aviação pegou primeiro os artefatos mais complicados.
JC - Você conhece algum tipo de legislação que obrigue as empresas a promoverem essa revisão dos sistemas?
Eduardo - Não tenho conhecimento de leis sobre o tema, apenas editais de licitação já exigem que os equipamentos comprados venham isentos desse problema.
JC - O bug foi um problema real ou um problema criado pelo marketing?
Eduardo - Um pouco de cada coisa, um pouco de emoção, de mística. A década de 90 foi a década da transformação dos produtos de informática em produtos de consumo de massa. Países como a Suécia já tem 60 % da população conectada a Internet. Poucas tecnologias atingiram tal massificação em tão pouco tempo.
O computador está muito próximo das pessoas hoje, e os filmes de ficção-científica ajudam a alimentar a idéia de que ele é uma máquina que não falha etc., aí as pessoas se deparam com uma data em que ele pode falhar! Isso cai na mística da coisa.
JC - E o ano bissexto?
Eduardo - Existem programas com rotinas que usam datas que só são usadas em anos bissextos. Então se você não as testou no esforço de 99, isso seria uma negligência que eu acredito que não vá acontecer. As empresas revisaram seus sistemas e a revisão foi feita nos programas, principalmente nos que utilizam data.
JC - Os sistemas que atingem a maioria das pessoas estão zerados?
Eduardo - Sim, era certo que nada aconteceria. Agora, pequenas empresas ou mesmo o micro de uso pessoal, aí sim podem surgir problemas no decorrer do ano.
JC - Os recursos aplicados na solução do bug do milênio são compatíveis com os aplicados nas pesquisas tecnológicas ou de cunho social?
Eduardo - Os recursos, cerca de R$ 16 milhões, no Brasil, não podem ser creditados única e exclusivamente ao bug, porque essa revisão dos sistemas serviu também para o aprimoramento desses, não foi só procurar o bug nos sistemas de terceira geração , mas sim refazê-los utilizando uma linguagem atual. O governo não vai desmanchar a central de controle do bug,
JC - Quando é que vamos deixar de falar em bug?
Eduardo - A resposta correta é nunca, porque na teoria da computação, esquecendo os artefatos que podem ser testados até em laboratório e em teorias matemáticas. Sistemas e aplicativos reproduzem uma situação, como uma folha de pagamento que é regida por leis e situações particulares. Uma determinada combinação de situações pode gerar um problema futuro, pois elas são inúmeras. Nós vamos parar de falar em bug do milênio no próximo salto tecnológico, são os computadores pequenos fazendo uma grande ruptura, e a tendência é que a partir as pessoas não tenham um micro só em casa, mas muitos pequenos micros , um cuidando da TV outro da Internet e assim por diante. Quando isso acontecer não tem mais sentido falar de bug, se não mudasse nada, se a tecnologia não avançasse aí sim.
JC - Com relação a pesquisa tecnológica a verba destinada aos projetos é suficiente?
Eduardo - Bem, falando em verba aqui ou em outro lugar sempre é considerada insuficiente. Nós temos que lembrar que hoje a pesquisa acontece em muitos lugares; usuários, profissionais, acadêmicos, todo mundo pesquisa. Muitos dos programas que hoje rodam no Brasil, foram feitos e aperfeiçoados aqui mesmo. Então a verba para a pesquisa básica, aquela em que é usado o dinheiro público, é em torno de R$ 500 mil . Eu preferia que não tivéssemos gastos este dinheiro no bug, porque existem outras coisas mais importantes, nem pensando em aplicações sociais, porque estas saltam aos olhos de tão necessárias, mesmo na própria tecnologia e nas empresas. O grande benefício dessa discussão toda é que agora a sociedade passe a encarar a tecnologia de uma forma muito mais realista, porque a mística anterior de que a tecnologia resolve tudo, não falha etc., acabou. A informática é obra de humanos. Depois desse bug nunca mais você vai aceitar que alguém diga: isso foi erro de computador e ter que se conformar com isso. Se há erro tem que ser concertado.
JC - Ao que você compararia o bug ?
Eduardo - Eu compararia com o enfrentamento de uma grande epidemia, como a gripe espanhola, por exemplo, quando todos os países tiveram que se preocupar com isso. No caso do bug foi uma situação que nós criamos.