Bispo revela estrutura da Igreja Católica
Texto: Adriana Rota
Próxima de completar 2 mil anos da Era Cristã, a Igreja Católica mantém uma hierarquia que a assemelha a uma empresa transnacional, com representação em todos os países e membros dirigentes dos mais qualificados, buscando uma eficiência crescente na sua maior vocação: evangelizar. Um desafio, especialmente nesta época de incertezas, na qual é a lógica do mercado quem dita as regras.
Seu papel na sociedade passa por um rígido "controle de qualidade", exercido por padres, bispos, pelo Papa, dentre outros. E, cada vez mais, os leigos cristãos vão ocupando seus espaços, através de pastorais, movimentos, associações e organismos em âmbito paroquial, regional ou diocesano.
O bispo de Bauru, dom Aloysio Leal Penna, 66 anos, concedeu uma entrevista exclusiva ao JC. Com o bom-humor, aliado à seriedade que lhe são característicos e a experiência de seus 15 anos de nomeação como bispo - quase dez dedicados a essa diocese - falou sobre a organização da Igreja, a partir do Vaticano. Abaixo, os principais trechos da conversa.
JC - Fale um pouco sobre a estruturação da Igreja Católica.
D. Aloysio Leal Penna - O Papa é a autoridade máxima da Igreja. Ele é assessorado pelas chamadas Congregações Romanas, espécies de ministérios dirigidos, geralmente, por cardeais. Elas funcionam em Roma, no Estado do Vaticano, que
é a parte física de uma entidade batizada de Santa Sé. Um trabalho semelhante é realizado pelos Conselhos Pontifícios, que se dividem em áreas de atuação
(vida, família, cultura, etc), tendo à frente cardeais ou bispos.
JC - Mas, quem tem poder de decisão?
D. Aloysio - A escala jurídica é muito simples:
é o Papa, abaixo dele, cada diocese tem um bispo e, dentro da diocese, tem um padre que comanda uma paróquia. Juridicamente, somente essas três entidades atuam efetivamente.
JC - O que são os cardeais, monsenhores e cônegos?
D. Aloysio - São títulos concedidos por merecimento, mas que não dão poder jurídico à pessoa. O cardeal dom Eugênio (Salles), do Rio de Janeiro, por exemplo, tem autoridade lá porque é bispo. Existem cardeais que são como generais que não têm tropa, superintendentes do material do exército. Ele só tem autoridade quando tem uma diocese. É uma espécie de prêmio, que confere certas vantagens e direitos, sendo o maior deles a possibilidade de eleger o Papa. No mundo todo, são cerca de 120 cardeais. Muitos deles, bispos de grandes cidades. No Brasil, a gente chama de sede cardinalícia, sendo a da Bahia a
"primaz", por ter sido a primeira igreja do Brasil. Depois, vem Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Agora, tem outros cardeais que o próprio Papa elegeu, não ligados a sedes cardinalícias, como Dom Serafim Fernandes de Araújo, de Belo Horizonte (MG). No caso destes, se morrerem ou renunciarem, os substitutos não ocuparão cargo algum.
JC - Onde ficam os arcebispos nesse contexto?
D. Aloysio - O arcebispo de Botucatu, por exemplo, tem uma certa preferência na província eclesiástica que exerce, ou seja, num conjunto de dioceses, que no caso dele
é de oito. Só que ele não exerce um poder jurídico, mas moral, digamos assim. Para exemplificar: protocolarmente, como numa recepção, serão chamados os cardeais, depois os arcebispos, bispos, monsenhores e padres.
JC - E a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)?
D. Aloysio - Ela também não tem autoridade sobre os bispos. É uma espécie de associação, que se reúne em assembléias para a elaboração dos planos de pastorais, por exemplo, mas sem poder de decisão. Está dividida em 16 regionais pelo Brasil. A nossa é chamada de Regional Sul 1 de São Paulo, que engloba cerca de 45 dioceses, o maior dos Estados brasileiros. Na CNBB, atuo nos setores de Família, Educação e Criança. A reunião é mensal e realizada em Brasília.
JC - Existem, também, organizações internacionais?
D. Aloysio - Sim, como o Conselho Episcopal Latino-Americano
(Celam), que reúne bispos de toda a América Latina, com sede em Bogotá (Colômbia). Ele se divide em departamentos. Eu, por exemplo, faço parte do Departamento da Família e da Infância. Oficialmente, as reuniões ocorrem duas vezes por ano, mas existem, independentemente, as reuniões dos diversos departamentos.
JC - Qual o papel da Santa Sé?
D. Aloysio - Ela tem um corpo diplomático, com representação em quase todo o mundo. O embaixador da Santa Sé chama-se núncio apostólico, cuja função é assessorar na nomeação de bispos e estabelecer relações diplomáticas no local em que se encontra.
JC - Como ocorre a escolha dos bispos?
D. Aloysio - A escolha do bispo é um processo demorado e complicado, porque a nunciatura pede indicações de nomes de padres, envolvendo uma grande cadeia de informações: a nunciatura manda uma série de cartas (cerca de 60) para pessoas que conheçam o trabalho de determinado padre. Essas pessoas são escolhidas também por indicação, ou seja, eu tenho a incumbência de indicar mais três nomes de pessoas a serem consultadas e assim por diante. A pesquisa do núncio passa para uma congregação de bispos, que dá continuidade ao trabalho. Ao final do processo, o Papa assina a nomeação. Ele pode vetar o nome caso tome conhecimento de alguma atitude que desabone o candidato, tomando por base a informação de uma pessoa qualquer que o contate. O bispo, que é eleito com idade mínima de 40 anos, é aposentado aos 75 anos de idade, bem como o cardeal, que, no entanto, permanece com direito de voto até os 80.
JC - A eleição do Papa é planejada anos antes de sua morte?
D. Aloysio - Isso é tudo fofoca. Em 1978, por exemplo, quando o Papa João Paulo II assumiu foi uma surpresa, porque a imprensa mundial não citava o nome dele. A eleição
é secreta, individual, mas é do ofício de vocês fazerem especulações. Tem gente agourando o Papa há cinco, seis anos. Mas esses também já estão ficando velhos e "passando da idade". Como já mencionei, o Papa é escolhido pelos arcebispos para um mandato vitalício. Eles reúnem-se em oração nos chamados conclaves, quando permanecem trancados no Vaticano, sem acesso ao exterior para não serem influenciados até efetuarem a escolha, sinalizada por uma fumaça branca liberada da Capela Cistina. Tudo o que se passa lá dentro é secreto. Para ser Papa, não há uma idade mínima, em termos. Por exemplo, já houve casos de acharem um candidato moço demais aos 62 anos. Na teoria, também não
é necessário ser padre. Isso chegou a ocorrer, durante a Idade Média, mas a duração foi curta. O conhecimento obtido durante a vida religiosa é muito importante no desenvolvimento dessa função.
JC - Existe uma campanha, como no caso da política?
D. Aloysio - Não. Geralmente, esses que falam que querem ser padres não conseguem ser. Mas ele é humano, e tem de fazer força para não deixar transparecer seu desejo porque isso atrapalha.
JC - O senhor gostaria de ser Papa?
D. Aloysio - De jeito nenhum! É uma responsabilidade enorme. Ser bispo também não estava nos planos.
JC - Os padres, como são ordenados?
D. Aloysio - Nas dioceses, o bispo ordena os padres, faz as transferências necessárias, enfim, coordena toda a pastoral. Esse é um fator de unidade. O padre tem de ter cursado, pelo menos, Filosofia e Teologia. Quando é carente, é a comunidade quem cobre os seus gastos. Terminando o 2.º grau, em Bauru, ele faz o chamado ano propedêutico, tomando contato com a diocese e reforçando os conhecimentos já obtidos. Após esse período, vai para Marília, onde existem os dois seminários, que totalizam oito anos de estudos. Nesse tempo todo, ele é observado.
JC - Qual o perfil buscado num padre?
D. Aloysio - Uma pessoa dotada de equilíbrio, maturidade afetiva, preparo intelectual, grau razoável de inteligência, facilidade de relacionamento, poder de comunicação e obediente à hierarquia. Às vezes, o candidato tem todas as condições mas não quer o celibato, por exemplo. O padre também não pode ser filiado a partidos políticos, porque o próprio termo diz:
"parte". O padre tem de atender a todos, tem a obrigação de instruir o povo a votar bem, formando consciências cidadãs.
JC - Karol Wojtyla, o João Paulo II, foi o primeiro papa não-italiano desde 1523 e o primeiro polonês da história.
D. Aloysio - Isso porque a maioria dos cardeais eram italianos e votavam em italianos. A partir do momento em que cardeais estrangeiros foram sendo nomeados, também passou a haver um espaço maior para papas de outras nacionalidades. Existe uma influência, desde o padre em sua comunidade até o Papa em âmbito mundial. Todo mundo é humano.
JC - Fale um pouco sobre o clero.
D. Aloysio - O clero diocesano é ligado diretamente a uma diocese, cujo chefe é o bispo. Já o clero religioso é relacionado a uma ordem, como a dos franciscanos, dos rogacionistas, dos missionários de Aparecida, dos jesuítas. As formações religiosas e o jeito de ser de cada padre são diferentes, o que exige grande equilíbrio do bispo. Existe autonomia das paróquias, mas tudo tem de passar por ele. Não é um policiamento: o bispo
é uma espécie de pai. Para esse trabalho, eu conto com um conselho presbiteral composto por oito padres, que se reúne uma vez por mês. Eles são escolhidos por votação, com exceção de dois, que são escolhidos por mim.
JC - Os leigos têm conquistado um espaço crescente, não é?
D. Aloysio - Numa das conferências do Celam, em que fui representando o Brasil, falou-se muito do protagonismo dos leigos. A tendência é que seu papel seja cada vez maior.
Perfil da diocese de Bauru
É composta por 30 paróquias, das quais 17 estão localizadas na própria cidade e 13 na região, abrangendo uma área de mais de 8 mil quilômetros. Criada pelo Papa Paulo VI, mediante a bula Christi Gregis, de 15 de fevereiro de 1964, nasceu no contexto da tradição nacional marcada pelo golpe de Estado de 1964, quando se instalou no País a ditadura militar. Conjunturalmente, sua criação foi resultado do desmembramento da Arquidiocese de Botucatu e da Diocese de Lins, quando da realização do concílio Vaticano II.
Os planos pastorais da diocese, modificados a cada dois anos, tiveram abrangências variadas ao longo do tempo. A partir de 1993, já sob o comando de Dom Aloysio, surge o Projeto Comunhão e Participação (Procompar), uma proposta de renovação e reestruturação da prática pastoral, atualmente em operação,
- fundamentada numa grande pesquisa sobre os anseios da comunidade
- frente às exigências e desafios deste final de milênio.
Fonte - Boletim Diocesano Especial - dez/97