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História da aviação

Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 17 min

Projeto resgata a memória de Ribeiro de Barros

Texto: Fábio Grellet

Pesquisadora paulistana vai divulgar aviador por vários meios. Projeto inclui construção de réplica do avião e nova travessia do Atlântico

O nome do comandante João Ribeiro de Barros é mencionado frequentemente pela mídia, quando ela se refere às rodovias Bauru-Jaú e Bauru-Marília. Mas você sabe quem foi o comandante, o que ele fez para merecer a homenagem de ter seu nome atribuído a uma importante rodovia da região? Pois é, mesmo sendo natural de Jaú, onde viveu, até em nossa região a história do comandante

é pouco conhecida. E olha que a façanha desenvolvida por ele não é pequena - já foi comparada até à viagem da Apolo 11 à Lua, dado o grau de dificuldade e o perigo.

Então, para quem não sabe, é hora de romper o suspense: João Ribeiro de Barros cruzou o oceano Atlântico a bordo de um hidroavião, saindo da Europa em direção ao Brasil, sem escalas. Não se surpreendeu? Bem, hoje em dia uma viagem como essa é considerada absolutamente comum, eis que a cada dia muitos aviões cumprem esse trajeto. Mas que tal fazer isso em... 1927, época em que o máximo que a tecnologia permitia era impulsionar os carros a 20 quilômetros por hora? E que tal esta: Ribeiro de Barros foi a primeira pessoa nascida na América a conseguir fazer essa viagem. E provavelmente teria sido o primeiro aviador do mundo a fazer o trajeto, não fosse sabotado durante o período em que estava se preparando para o vôo, na Europa. Em razão de alguns imprevistos, Ribeiro de Barros atrasou seu vôo, dando chance ao italiano Francesco De Pinedo de realizar a façanha primeiro.

Ainda que não tenha sido pioneiro no mundo - o foi na América, embora muitos teimem em atribuir esse feito ao norte-americano Charles Lindbergh, que fez a mesma travessia 23 dias após o aviador jauense -, Ribeiro de Barros demonstrou a perseverança e a capacidade do brasileiro a todo o mundo, e impulsionou a aviação brasileira. Decepcionada ao constatar que Ribeiro de Barros, hoje em dia, não passa de uma estrada, e sua história foi praticamente esquecida, a pesquisadora paulistana Maria Aparecida de Almeida Braga decidiu, em abril de 1998, compor um CD-Rom e criar uma página na Internet para divulgar a façanha do aviador. O projeto foi se ampliando, ampliando... e agora engloba uma série de atividades, que envolvem desde a restauração do hidroavião - cuja estrutura de madeira já esteve

à mercê dos cupins - até a construção de uma réplica, que será usada por oficiais do Grupamento Aéreo da Polícia Militar de São Paulo para refazer o trajeto desenvolvido por Ribeiro de Barros - a viagem entre o Brasil e a Europa, desta vez partindo de São Paulo.

Além da produção de uma réplica do hidroavião, também está previsto o lançamento de um CD-Rom, uma página na Internet, quatro livros e um carimbo postal, todos fazendo menção à façanha de Ribeiro de Barros. Também devem ocorrer exposições itinerantes, para divulgar o aviador. Tudo isso foi resultado do esforço da pesquisadora Maria Aparecida para disseminar a história do aviador, e vai integrar o programa comemorativo aos 500 anos do Brasil, promovido pela Fundação Brasil 500 Anos. Para implementar essa parte do projeto, serão gastos R$ 7 milhões, dinheiro obtido através da venda de dez cotas de patrocínio, cada uma no valor de R$ 700 mil.

Outra parte do projeto, desenvolvido à parte, em razão de problemas burocráticos e que, por isso, nada tem a ver com as atividades financiadas através da Fundação,

é a restauração do hidroavião Jahu. Para isso, Maria Aparecida está tentando obter recursos e apoio técnico junto a empresários.

Pesquisadora investiga feito desde 98

No início de 1998, Maria Aparecida de Almeida Braga estava produzindo um CD-Rom para o Grupamento Aéreo da Polícia Militar de São Paulo, quando descobriu a façanha de João Ribeiro de Barros: "Fiquei impressionada, tanto com a grandiosidade da proeza como pelo fato dela estar plenamente esquecida, nos dias atuais. Por isso, decidi que meu próximo projeto tinha que ser aquele: contar a história de Ribeiro de Barros, para tentar torná-la mais conhecida e fazer com que seja atribuída ao aviador a importância que ele merece", diz.

Em abril de 1998, Maria Aparecida começou a se dedicar

à história de João Ribeiro de Barros, e os frutos dessa pesquisa devem ser conhecidos agora, entre os meses de abril e outubro próximos - naquele, comemora-se os 500 anos do Brasil e, neste, a Semana da Asa.

A relação entre o Grupamento Aéreo da Polícia Militar e o vôo de João Ribeiro de Barros se explica porque um dos três acompanhantes do aviador foi João Negrão, que integrava a instituição militar.

Projeto inclui CD-Rom, home-page, livros, carimbo...

De início, a pesquisadora Maria Aparecida de Almeida Braga pretendia restringir seu trabalho sobre João Ribeiro de Barros à produção de um CD-Rom e à criação de uma página na Internet. Porém, conforme a pesquisadora viabilizava a participação de outros profissionais, que se integraram ao projeto, ele foi se ampliando e, além dos dois itens iniciais, abrange também o lançamento de um carimbo postal e de quatro livros que abordam a aventura do aviador, exposições itinerantes para divulgar a história e a construção de uma réplica do hidroavião usado por Barros durante a travessia.

CD-Rom

O CD-Rom sobre a travessia do Atlântico por Ribeiro de Barros está sendo desenvolvido por Marcelo Braga, marido da pesquisadora Maria Aparecida. Ela diz que o trabalho pretende mostrar a história

"de um modo ágil, usando a dinâmica que o computador permite para despertar e prender a atenção de quem navegar através do CD".

Livros

Quatro livros que discorrem sobre João Ribeiro de Barros devem ser lançados em abril. O historiador jauense José Raphael Toscano é o escritor da obra "O Dramático Vôo do Jahu e a Audácia de João Ribeiro de Barros". A escritora e pesquisadora Laurete Godoy vai lançar

"Brasil - De Gusmão, Santos Dumont e...". Os outros dois livros estão sendo escritos por policiais militares: o capitão José Roberto Monte Oliva escreve "Aviação da Instituição Militar", que dedica um capítulo

à façanha de Ribeiro de Barros, enquanto o tenente Silvio Luís Frank está produzindo um livro destinado a crianças e adolescentes.

Exposições

Entre abril e outubro próximos, devem ser expostos, nos principais aeroportos do Brasil, painéis retratando a aventura da travessia do oceano Atlântico pelo comandante João Ribeiro de Barros. Os painéis também devem ser expostos nas cidades por onde Ribeiro de Barros passou, quando voltou para o Brasil.

Militares vão refazer trajeto com réplica do avião

A parte mais audaciosa do projeto coordenado por Maria Aparecida de Almeida Braga é a construção de uma réplica do avião usado por Ribeiro de Barros durante a travessia do Atlântico - um modelo italiano Savóia Marchetti S-55. Com ela, quatro militares vão reviver as emoções sentidas pelo aviador, fazendo novamente o trajeto desenvolvido por ele em 1927.

O engenheiro civil Marc William Niess, 77 anos, é o responsável por projetar a réplica do hidroavião, cuja base deve ser construída em madeira feijó. Ao todo, o avião tem 24 metros de largura (entre as extremidades das asas) e 6,5 metros de comprimento - ou seja, é maior que um avião Bandeirante, segundo Niess. O hidroavião Jahu comporta oito pessoas - embora, durante a travessia do Atlântico, tenha sido ocupado por apenas quatro.

O engenheiro Niess já trabalha no projeto há um mês, e calcula que serão necessários outros dois para concluir essa etapa da construção - prazo reduzido porque se trata de uma cópia e, especialmente, em razão das facilidades proporcionadas pelo computador. Ele calcula que, desenhado à mão, como era na época em que foi criado, o projeto do Savóia Marchetti S-55 consumiu cinco anos de pesquisas.

Após a conclusão do projeto, vai começar a montagem do avião, que também deve ser supervisionada pelo engenheiro. Niess calcula que a construção da réplica deve demorar dois anos - prazo que inviabilizaria o objetivo inicial dos demais participantes do projeto, que pretendem iniciar o vôo em abril de 2001.

Embora não seja um valor oficial - eis que o levantamento de custos ainda não está finalizado -, a produção da réplica do Savóia Marchetti S-55 deve consumir aproximadamente R$ 3,5 milhões - ou seja, metade da verba destinada a todo o projeto encampado pela Fundação Brasil 500 Anos.

Viagem

Segundo o tenente Sílvio Luiz Frank, piloto do Grupamento Aéreo da Polícia Militar, a viagem provavelmente seja iniciada em abril de 2001 - previsão confirmada por Maria Aparecida de Almeida Braga, mas que pode ser comprometida, caso a construção da réplica demore dois anos, conforme a expectativa do engenheiro Niess.

A tripulação que fará a viagem ainda não está definida, mas será composta por quatro pessoas, desenvolvendo as funções de piloto, co-piloto, navegador e mecânico - como ocorreu na viagem de Ribeiro de Barros. Até as posições ocupadas por cada um dentro do avião serão repetidas. O trajeto será invertido, porém: enquanto o aviador jauense partiu da Itália em direção ao Brasil, os militares devem sair do Brasil e chegar até Gênova. Conforme o tenente Frank, a tripulação vai permanecer por cerca de cinco dias na Itália e, em seguida, retorna para o Brasil, ainda a bordo da réplica do hidroavião Jahu.

Projeto à parte prevê restauro do avião

Além de todos os outros projetos para resgatar João Ribeiro de Barros, a pesquisadora Maria Aparecida de Almeida Braga pretende obter verbas para recuperar o hidroavião Jahu. Este projeto - e, consequentemente, a verba para desenvolvê-lo

- não foi incluído no programa comemorativo aos 500 anos do Brasil. Por isso, Maria Aparecida está mobilizando empresários interessados em colaborar com a restauração, tanto através de apoio financeiro como mediante o oferecimento de suporte técnico.

O hidroavião era peça da coleção do Museu da Aeronática, situado no Parque do Ibirapuera e mantido pela Fundação Santos Dumont. Em outubro de 1996, um jornal de São Paulo denunciou o abandono em que se encontrava o avião. Alertada, a população jauense se mobilizou, mediante a iniciativa de algumas autoridades, como o vereador Marcelo Téio Cury, que fez circular pela cidade um abaixo-assinado solicitando a restauração do hidroavião.

Após a pressão, os responsáveis pela conservação do Jahu fizeram uma restauração, que muitos consideraram insuficiente: "Foi apenas para dizer que eles não ficaram parados, para atender à expectativa", diz o vereador Téio.

Agora, Maria Aparecida conseguiu que o avião fosse retirado do Museu e guardado no hangar que a Polícia Militar mantém no Campo de Marte.

É lá que vai acontecer a restauração, que a pesquisadora ainda está viabilizando. A reforma total deve demorar dois anos, mas o avião deve receber uma maquiagem prévia suficiente para exibí-lo em estado decente, a partir de abril deste ano. A exibição do avião vai acontecer no próprio Campo de Marte, porque ele não pode sofrer deslocamentos constantes.

Depois que o avião for exibido e sua restauração estiver encerrada, ele deve voltar ao Museu da Aeronáutica

- mas essa é uma questão polêmica, porque algumas autoridades jauenses reivindicam que o avião seja transferido para Jaú, onde ficaria em permanente exposição.

Maria Aparecida ressalta, porém, que o importante é restaurar o avião, e a discussão sobre seu destino final não deve interferir nesse trabalho: "Todos devem se empenhar e colaborar ao máximo com o projeto. Depois, cabe aos responsáveis discutir onde o avião deve ser guardado", diz a pesquisadora.

Travessia é marcada por obstáculos

Sabotagens no hidroavião, malária e até a prisão dos tripulantes não impediram sucesso da travessia, que o governo quis barrar

Nascido em Jaú, em 4 de abril de 1900, João Ribeiro de Barros teve sua infância marcada por imagens de vôos do piloto Edu Chaves, em São Paulo.

Ainda jovem, abandonou os estudos para se dedicar exclusivamente

à aviação, seguindo em 1919 para os Estados Unidos, onde pretendia conhecer e aprender as técnicas aeronáuticas.

Em 1922, os portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral atravessaram o oceano Atlântico, de Portugal ao Brasil, apoiados por diversos navios que, colocados na mesma rota, serviram como bases para escalas para reabastecimento. Essa viagem despertou o interesse de Ribeiro de Barros, que passou a sonhar com a travessia do oceano, contando apenas com os recursos do próprio avião.

Naquela época, as indústrias aeronáuticas e os governos patrocinavam pilotos que quisessem se arriscar a atravessar o oceano Atântico, arriscando-se num vôo em rota e condições ainda inéditas. Um exemplo foi o italiano conde Casagrande que, apoiado pelo governo da Itália e pela indústria Savoia Marchetti, planejava voar da Itália até a Argentina, atravessando o Atlântico Sul a bordo de um hidroavião S-55 chamado Alcione. Ele desistiu ainda na África.

João Ribeiro de Barros voltou aos Estados Unidos e, enquanto empreendia estudos de navegação com Gago Coutinho, foi incentivado por ele a atravessar o Atlântico Sul sem escalas. Em 1926, de volta ao Brasil, iniciando os preparativos para o vôo, Ribeiro de Barros conheceu o navegador Newton Braga, que aceitou acompanhá-lo durante a arriscada tentativa.

Na Escola de Aviação de Campinas, quando ainda era aluno, Ribeiro de Barros tornou-se grande amigo do mecânico daquela escola, Vasco Cinqüini, que também se uniu a João Ribeiro de Barros, acompanhando-o até a Itália, onde o jauense pretendia comprar um avião. Na fábrica italiana Savoia Marchetti, porém, o único aparelho

à disposição para venda era um hidroavião chamado Alcione. Ribeiro de Barros aceitou comprá-lo, exigindo da fábrica uma reforma nos flutuadores e motores, de acordo com seu projeto. O trabalho foi supervisionado por Vasco Cinquini.

Enquanto isso, Newton Braga também se dirigia à Itália, onde se encontrou com os companheiros. Também se integrou à tripulação o co-piloto, Cunha.

Passaleva, um piloto de provas da Savoia Marchetti, comprovou as qualidades e a segurança de Ribeiro de Barros como piloto, durante vôo realizado com o hidroavião no lago de Sesto Calende.

Terminada a reforma e pronto para voar, o hidroavião é batizado com o nome de Jahu. Indagado pela imprensa, Ribeiro de Barros esclarece que a iniciativa, a organização e o pagamento de todas as despesas eram exclusivamente de sua responsabilidade, e através do vôo ele pretendia demostrar que era possível a travessia de oceanos apenas com os recursos da própria aeronave.

A tentativa de atravessar o Atlântico Sul foi divulgada internacionalmente e, no dia 13 de outubro de 1926, o Jahú foi transportado, por via terrestre, de Sesto Calende até Gênova, onde teria início a travessia.

O Jahu então decola para Gibraltar, sua primeira escala. Mas, provavelmente com o objetivo de sabotar o vôo, alguém colocara dentro do cárter do motor propulsivo um pedaço de bronze e, no reservatório de combustível, terra, sabão e água.

Depois de cinco horas de vôo, os primeiros indícios da sabotagem se fazem notar. Após percorridos 1.235 quilômetros, em seis horas e cinco minutos, o hidroavião é forçado a pousar em Dênia e, depois, em Alicante, duas cidades da Espanha. Mas o avião não tinha permissão para pousar na Espanha, porque esse país não constava da rota de escalas traçadas. Por isso, os aviadores foram presos, e só libertados após a intervenção da embaixada brasileira em Madri.

No dia 17 de outubro de 1926, o Jahú levantou vôo novamente, alimentado de combustível através de uma bomba manual operada pelo mecânico Cinquini. Mas teria de aterrisar em Gibraltar, duas horas e 31 minutos depois, quando foi descoberto o material (sabão, terra e água) misturado ao combustível. Ficou constatada, pois, a sabotagem ao hidroavião.

Trocado o combustível, o Jahu decola de Gibraltar, às 7 horas do dia 25 de outubro, rumo às Ilhas Canárias. Os motores, porém, voltam a falhar, novamente por problemas com o combustível, e o hidroavião só chega a La Luz, uma das Ilhas Canárias, com o uso da bomba manual de combustível.

A causa do mau funcionamento da bomba automática de combustível era a falta de graxa nas engrenagens, que ocasionava o desgaste das mesmas.

Feito o reparo, o Jahu decolou da baía de Gando, nas Ilhas Canárias, com destino a Porto Praia. Até então, já haviam sido percorridos 1,7 mil quilômetros, em 9 horas e 26 minutos de vôo, o que indicava a média horária de 180 quilômetros por hora.

A etapa mais longa, a travessia do oceano Atlântico Sul, estava ainda por ser iniciada: 2,4 mil quilômetros de mar que separam Porto Praia do Brasil.

Para esse percurso, seria imprescindível a participação do segundo piloto. Nessa ocasião, porém, o co-piloto Cunha impõe a Ribeiro de Barros e aos demais tripulantes que a fase final do vôo deveria ser comandada por ele, que pretendia assumir, portanto, o comando do hidroavião Jahu.

Como considerou impossível aceitar essa imposição, e também não conseguiu convencer o co-piloto a desistir dela, João Ribeiro de Barros expulsou Cunha da tripulação.

Newton Braga estava a caminho da Itália, para trazer um técnico que efetuasse reparos no hidroavião. Ancorado, o Jahu foi arrastado pela maré e teve o casco de um dos flutuadores lançado contra pedras submersas, o que lhe causou sérias avarias.

Chegando a Lisboa, em várias entrevistas Cunha desacredita os companheiros, prevendo o fracasso do vôo do Jahu. Sem medir palavras, o ex-co-piloto critica o povo espanhol, o que provoca imediata reação do governo daquele país junto ao governo brasileiro.

Washington Luís, então presidente do Brasil, por intermédio do Ministério da Viação, enviou um telegrama ao comandante do Jahu, solicitando a ele que desistisse do tão arriscado vôo, inclusive para reduzir o impacto das declarações de Cunha e, assim, evitar a incidência de problemas diplomáticos com a Espanha.

Indignado e até então sem receber ajuda alguma do governo, João Ribeiro de Barros sente-se insultado e responde ao presidente que "cuide das obrigações do seu cargo, e que não se meta em assuntos de que não entende e onde não foi chamado".

Os problemas de João Ribeiro de Barros, porém, continuavam aumentando: ele sofreu quatro acessos de malária e, em suas comunicações telegráficas com a família, no Brasil, era latente o desânimo do aviador, perante tantos contratempos e adversidades, que poderiam até fazê-lo desistir do vôo.

Esta situação foi divulgada no Brasil, onde causou reações de tristeza. Percebendo a repercussão do sofrimento do aviador, a mãe do comandante do Jahu envia, de São Paulo, um telegrama ao filho, em Porto Praia. Eis o texto:

"Aviador Barros

Aplaudimos tua atitude. Não desmontes aparelho. Providenciaremos continuação do reide custe o que custar. Paralização será fracasso. Asas do avião representam bandeira brasileira. Dize se queres piloto auxiliar. Abraços a Braga e Cinquini e bênçãos de tua mãe

Margarida Ribeiro de Barros"

Fortalecido pelo carinho e apoio da mãe, Ribeiro de Barros responde:

"Margarida Ribeiro de Barros a viagem de qualquer maneira será feita. Havemos de aportar Brasil. Se isso não se der, estaremos pagos, completamente pagos, pois o Jahú terá a mais digna sepultura: o mesmo oceano que há de banhar eternamente essa terra, tão grande nas suas riquezas, tão grande na sua história".

Em São Paulo, o tenente da Força Pública, João Negrão, foi convidado a fazer parte da tripulação do Jahu, como segundo piloto. Convite aceito, ele embarca para Porto Praia.

Nesse meio tempo, Newton Braga já voltara da Itália com material e técnico especializado para reparar as avarias do hidroavião e, ao lado de Vasco Cinquini e João Ribeiro de Barros, recebe João Negrão, que imediatamente se integra à tripulação.

Arrastado para a praia, o Jahu é revisado totalmente, sendo então encontrado o pedaço de bronze que fora indevidamente colocado no motor de propulsão e, devido ao grande tamanho e peso, ficara imobilizado no fundo do cárter. Durante meses, os aviadores permaneceram a reparar o hidroavião. Novamente colocado na água, o aparelho mostra que está em condições de voar até o Brasil.

São feitos testes com o aparelho, ao mesmo tempo em que se inicia a adaptação de João Negrão, como co-piloto, em alguns vôos curtos. Tudo, aparelho e tripulação, finalmente em perfeita ordem!

Os últimos preparativos para a viagem são então realizados. Na madrugada de 28 de abril de 1927, carregando 2,3 mil quilos de gasolina e 262 quilos de óleo, é dada a partida nos motores, e às 4h30, o Jahu levantava vôo rumo ao Brasil. Nessa manhã histórica, o mundo foi acordado pelo telégrafo de Porto Praia, noticiando a partida dos brasileiros.

Voando a 250 metros de altitude, à velocidade recorde de 190 quilômetros por hora, no rumo de 223 graus magnéticos, o Jahu permanece durante 12 horas no ar, e ao entardecer, mesmo com problemas em uma das hélices, o avião pousa vitorioso em águas brasileiras, na ilha de Fernando de Noronha, ainda com 250 Kg de combustível nos reservatórios.

Os aviadores são recebidos como heróis em cada uma das cidades por onde passavam a bordo do hidroavião: Natal, Recife, Bahia, Rio de Janeiro, Santos e, finalmente, São Paulo.

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