Acidentados representam gastos superiores a R$ 5 mil
Texto: Rita de Cássia Cornélio
Se pedestres e motoristas soubessem o quanto é difícil para um acidentado voltar a ter o movimento de um membro fraturado, com certeza prestariam mais atenção na direção de um veículo e nas travessias das vias. São meses e até anos de sacrifício e paciência para que uma pessoa se reabilite. Os gastos com um acidentado giram em torno de R$ 5 mil, nos casos considerados de média gravidade. Os acidentes com motos, bicicletas e carroças são responsáveis por mais de 50% dos casos de lesões nos membros inferiores do corpo.
O pior de toda essa situação é que cerca de 50% dos acidentes de trânsito acontecem com pessoas que estão na faixa etária de 18 a 30 anos, idade em que o indivíduo se enquadra no mercado de trabalho, alerta o comandante da 4ª Cia da PM, Reginaldo Souza Braga.
Afastado do trabalho por meses e até anos, o acidentado
é um forte candidato a ficar desempregado após o término da licença. Durante sua reabilitação, ele também passa por inúmeras dificuldade, inclusive financeira, uma vez que após 15 dias de licença médica, vai receber pelo INSS e seu salário poderá ser diminuindo, caso ele tenha menos de um ano de registro na mesma empresa.
A desatenção dos motoristas e dos pedestres, segundo o capitão são responsáveis por mais de 90% dos acidentes. Isso significa que se as pessoas ficassem mais atentas no trânsito com certeza o índice de acidentes e o número de acidentados poderia ser muito menor. Os hospitais não estariam lotados e muitas pessoas não ficariam afastadas do trabalho.
Aliada a falta de atenção está a certeza da impunidade. Esses dois ingredientes levam o brasileiro, especialmente o bauruense, a não se preocupar com os acidentes. Nem mesmo a implantação do novo código de trânsito, há dois anos, assustou o motorista. "No início, tanto motoristas como pedestres ficaram mais atentos. O número de acidentes graves diminuiu. Hoje, a situação é praticamente a mesma", constata o comandante.
Ele acha que falta educação no trânsito e que leis severas não resolvem o problema. "A comunidade precisa refletir, repensar. A vida tem que ser valorizada. Além do acidentado representar um custo muito alto para a sociedade, ele tem que refazer toda a sua vida, em função de um acidente."
A falta de regulamentação de alguns artigos do Código de Trânsito, segundo o capitão é outro fator que reflete no descrédito da lei. "Só em dezembro de 99 ocorreram 19 acidentes de trânsito com vítimas em Bauru. Esses acidentes geraram 22 vítimas, duas delas graves. O que se percebe é que a lei é severa, porém o resultado é muito pequeno. No Brasil de cada 100 pessoas que cometeram crimes, só 3% são apenadas."
Na opinião dele as várias interpretações da lei interferem na aplicação dela. "Há juristas que entendem que se um menor estiver dirigindo e não estiver colocando em perigo eminente uma terceira pessoa, não estará cometendo nenhuma infração. Outros, acham que o fato do menor estar na direção do veículo já é um perigo."
As custas de muito sacrifício
Nos atendimentos de emergência de ortopedia 30% dos atendidos são acidentados e mais de 50% deste percentual representam vítimas de acidentes com moto. A constatação
é do ortopedista Marcelo Horikawa.
Segundo ele, as fraturas das pernas ou dos membros inferiores do corpo representam a maioria dos ferimentos, quando o acidente
é de médio porte. Os mais graves envolvem ferimentos na cabeça. "A moto não tem proteção para o condutor. Quando ocorre uma colisão, normalmente as pernas são as mais atingidas."
A parte inferior da perna, abaixo do joelho é a mais atingida nos acidentes de moto, segundo o médico. "Geralmente, são fraturas expostas com grande perda da parte muscular. A maioria das vítimas ficam internadas e levam de 4 a 8 meses, em média, para se reabilitar, se o caso não se complicar."
A fisioterapia, de acordo com o médico é adotada em 50% dos casos. "Para consolidar o osso é necessário a imobilização que torna a articulação rígida. Após a retirada do gesso ou do fixador externo a fisioterapia é necessária para fazer com que o membro afetado volte a ter o movimento normal."
Não vi o carro
Maria Juliana Fazzane Petenuci, 28 anos foi atropelada em dezembro de 99 e passou as festas de final de ano sem poder andar. "Eu fui atropelada na esquina da rua Presidente Kennedy com a 13 de maio. Sofri lesões no ligamento do tornozelo."
A funcionária da Telefônica lamenta estar afastada do trabalho. "O acidente atrapalhou minha vida. Dependo de todos para me locomover." Segundo ela a fisioterapia tem ajudado a fazer com que o tornozelo volte a ter o movimento normal."
Já consigo andar
Seis meses depois de ter sofrido um grave acidente de trânsito, Desiré Gasparelo, 35 anos, experimentou o prazer de andar, ou de voltar a andar. "O acidente me fez voltar a ser bêbe, mocinha e agora estou me tornando adulta de novo", comenta bem humorada.
O que mais incomoda a vítima da violência do trânsito são as marcas deixadas em sua vida. "Não são só as cicatrizes externas. Tenho marcas do sofrimento e da dor. Durante dois
meses sofri dores terríveis. Só depois da última cirurgia, em setembro de 99 é que as dores diminuíram."
O acidente, segundo Desiré resultou em duas fraturas do fêmur, uma na clavícula e o rompimento do ligamento do polegar. Além de dois dentes quebrados. "Fiquei 22 dias internada. Estou impossibilitada de ter filhos por dois anos."
Voltar a vida normal é o maior sonho de Desiré.
"Procuro me cuidar para não cair em depressão. Meu marido me apoiou muito durante a minha reabilitação. O meu sonho é voltar a vida normal. Quero voltar a trabalhar e fazer todas as coisas, como antigamente."
Na opinião da vítima sua reabilitação pode ser dividida em três fases distintas. A primeira foi a de se sentir bebê. "Fiquei na cama e minha mãe tinha que dar banho em mim." Na segunda fase, quando conseguiu cruzar as pernas, ela se sentiu mocinha. E há duas semana, ela curte a fase adulta, "já consigo andar."
Sem ajuda
O propagandista Adauto Soares Pereira está passando pela pior experiência de sua vida. Há oito meses, quando seguia para seu trabalho sofreu um acidente. Um veículo dirigido por um rapaz de 18 anos não respeitou o sinal de pare do semáforo e o atingiu. "Eu a moto voamos sobre o carro. Fiquei 30 dias internado. O rapaz nunca foi me visitar. Nem sequer procurou saber se eu estava precisando de alguma coisa. Ele disse que o acidente não ia virar nada porque a mãe dele é funcionária do Fórum de Bauru."
Pereira diz que sofreu muita dor nos primeiros 30 dias. "Tomei até morfina. A dor era terrível, sofri fratura exposta.
"Além da dor física, ele diz que sofre com a situação financeira. "Já gastei mais de R$ 2 mil só com medicamentos. Sou de família humilde e meu salário ajudava no orçamento. Só tenho tido gastos."
O propagandista acha que foi prejudicado em todos os sentidos.
"Estou afastado do trabalho e posso perder o emprego quando retornar. Minha perna ainda não voltou ao normal e poderá levar muito tempo ainda. Tive que vender uma moto para poder arcar com todas as despesas."
Ele acredita que terá que entrar na Justiça para ser ressarcido dos danos. "Vou constituir um advogado e entrar na Justiça. Minha perna está atrofiada. "