Geral

Cuidados com os olhos

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 6 min

Negligência ou acidente corriqueiro pode causar cegueira

Texto: Adriana Rota

Negligência das normas de segurança ou acidente propriamente dito: qualquer que seja o motivo dos danos oculares, é preciso ter em mente que eles podem ser irreversíveis e, na maior parte das vezes, evitáveis com pequenos cuidados.

"Acidente, como o próprio nome diz, é um acontecimento indesejável e inesperado, geralmente com danos e perdas para o acidentado. Hoje em dia, se for causado por terceiros, a perda também ocorrerá em âmbito cível e criminal. Daí a importância da prevenção. Acredito que nenhuma indenização monetária poderá devolver a perda de um olho...".

A fala acima é de um médico que lida diariamente com casos de pessoas que perdem a visão ou ficam com seqüelas graves (como diminuição da capacidade visual), às vezes por falta de um pouco mais de atenção. Raul Gonçalves Paula, oftalmologista e cirurgião oftálmico, salienta, ainda, o caso de profissionais que negligenciam as normas de segurança e acabam mutilados e tendo de substituir, em muitos casos, olhos anteriormente saudáveis por próteses.

Os acidentes domésticos são os mais comuns. Os ciscos nos olhos, por exemplo, podem variar de um simples grão de areia até um corpo estranho metálico encravado na córnea. Mesmo após sua remoção, no entanto, podem resultar em infecções, como conjuntivites e úlceras de córnea. "Os mais graves ocorrem com os serralheiros que insistem em não utilizar os óculos de proteção. Geralmente, as fagulhas de esmeril penetram nos olhos, podendo perfurá-los com conseqüente perda visual", alertou.

Um corpo estranho ferroso no olho, explicou, leva à uma reação com a lágrima ou com a gelatina intra-ocular que provoca uma "ferrugem", denominada siderose. Segundo o oftalmo, todo corpo estranho que adentre o olho deve ser removido sem o uso de colírios anestésicos por conta própria, porque eles têm efeito passageiro (20 minutos) e seu excesso pode perfurar o olho.

No caso das soldas elétricas, a luz emanada por elas contém radiação ultravioleta, passível de queimar a córnea daquele que olha diretamente para a luz. "Esta queimadura ocorre no momento em que a luz é emitida, mas somente após umas cinco horas é que começa a provocar muita dor, porque o epitélio corneano vai desabando e expõe a terminações nervosas de um nervo chamado trigêmeo. Portanto, o uso da máscara é obrigatório", ensinou Paula.

Além deste processo agudo, o acúmulo de radiação ultravioleta nas outras estruturas dos olhos pode levar a uma catarata precoce, a uma formação resultante de proliferação fibrovascular conjuntival que se estende em direção

à córnea podendo destruir camadas superficiais (pterígio) e lesões no fundo dos olhos.

Outro acidente comum é causado por tampas de garrafas de vidro, especialmente quando se tenta abri-las com cabos de talheres, prática considerada "condenável" pelo entrevistado. "A tampinha sai com tanta pressão que, ao atingir o olho, pode cortar a córnea, fazendo o olho vazar. Mesmo que isto não aconteça, o simples trauma da tampa nos olhos, além da dor, poderá levar a sangramentos internos e descolamento de retina, tendo o paciente que se submeter a uma cirurgia delicada com risco de perder a visão", esclareceu. Somente na semana passada, o médico atendeu a dois casos deste tipo, com as tampinhas cortando o olho ao meio. Evitar oscilação de temperatura e movimentação extrema da garrafa pode afastar os problemas.

Produtos e objetos perigosos

* Soldas elétricas - risco de queimadura da córnea por radiação ultravioleta. Dependendo da intensidade, em questão de segundos o olho pode ser lesado. A dor só aparece cerca de cinco horas depois, com a exposição de terminações nervosas. Ainda assim, o socorro deve ser imediato. Existem máscaras especiais para proteção, com filtro ultravioleta.

* Esmeril - fagulhas podem perfurar os olhos, causando perda visual, infecções (como conjuntivites) e úlceras de córnea. Não se deve tentar retirá-las, porque a solução pode ser apenas superficial. É imprescindível o uso de óculos de proteção apropriados.

* Tampas de garrafas de vidro - a pressão na retirada da tampinha pode levá-la a atingir o olho, cortando a córnea e fazendo-o vazar. Na "melhor" das hipóteses pode ocorrer uma simples dor ou sangramentos internos e descolamento de retina, exigindo uma cirurgia delicada com risco de cegueira. A garrafa não pode passar por oscilações de temperatura e movimentação extrema.

* Lata de leite condensado aberta após o cozimento, ainda quente - o conteúdo pode atingir os olhos e provocar descolamento de retina, além de queimaduras nas pálpebras e córnea. Além disso, a lata pode explodir violentamente. O melhor é comprar o doce pronto.

* Panelas de pressão - podem explodir, especialmente quando algum corpo estranho (como casquinha de feijão) entope o pino. O acidente pode causar descolamento de retina, além de queimaduras pelo corpo e outros traumas. É preciso manter a tampa e o pino desobstruídos e deixar a pressão sair sem colocar a panela embaixo d'água.

* Estiletes, tesouras, arames, arco e flecha e dardos - principalmente nas mãos de crianças, podem acabar em perfurações nela mesma ou nos amiguinhos. Não há problema em retirar o objeto que esteja encravado no olho.

* Cola instantânea de alta resistência (popular

"cola-tudo") - a proximidade com os olhos pode levar a um jato que vai direto neles e cola as pálpebras. A separação só pode ser feita com bisturi e tesoura, devido à grande aderência. Segundo o especialista, não há riscos em termos visuais, mas como o produto solidifica, pode ser "interpretado" como um corpo estranho. Há casos de cirurgias em que este produto é utilizado em pequenas proporções.

* Brasa de cigarro - ao alcance das mãos de crianças pequenas, pode causar queimadura nas pálpebras e da córnea. Por isso, os adultos devem permanecer atentos a cada movimento dos pequenos.

Obs: Qualquer dos casos exije atendimento médico imediato. Tampões, pomadas, colírios, analgésicos ou quaisquer outras soluções caseiras devem ser evitadas. Quando as irritações são leves, a própria lágrima funciona como medicamento. No máximo, deve-se lavar os olhos com água corrente.

Míopes ou usuários de lente correm mais riscos de traumas

Na prática esportiva também é preciso cuidado. Alguns esportes podem levar a sérios danos aos olhos e os riscos aumentam quando a pessoa é portadora de alta miopia, porque ela tem uma retina que geralmente é mais fina na periferia. Por isso, pessoas com mais de seis graus de miopia devem, obrigatoriamente, fazer um exame oftalmológico que consiste num mapeamento em busca de lesões que indiquem tal predisposição.

"A retina é uma camada interna do olho, onde recebemos a imagem. Uma vez descolada e não tratada a tempo, pode levar à cegueira. Isto pode ser prevenido através do laser de argônio, aplicado ao redor das lesões para reforçar os locais mais frágeis. Outra forma

é a utilização de óculos de proteção, principalmente aqueles de policarbonato, material altamente resistente e muito utilizado em aeronaves".

Esportes como o jogo de tênis, têm na sua "bolinha" o grande vilão da história de traumas oculares seguido de descolamento de retina, já que a mesma se encaixa perfeitamente no espaço do olho. Além do descolamento de retina pode haver um sangramento, chamado de hifema, que possível causador de glaucoma (aumento da pressão nos olhos) e, conseqüentemente, cegueira. Bolas maiores, como as de futebol, têm o impacto amortecido na reborda óssea da órbita, onde fica o olho.

O uso de lentes de contato rígidas (duras), quer sejam fluorcabonadas, siliconadas ou acrílicas, também são passíveis de lesionar os olhos durante acidente num jogo esportivo, causando lacerações corneanas e perfuração caso o material quebre dentro do olho com o impacto. "Hoje em dia, temos as lentes gelatinosas tóricas que substituem estas lentes duras e não estilhaçam nos olhos. Mas o uso de óculos de proteção, mesmo com as lentes, é uma proteção a mais", finalizou Paula.

Comentários

Comentários